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Campo Grande, 25 de setembro de 2026

Realidade próxima: BRICS atinge marco trilionário em comércio e sistema de pagamentos

  • 27 de março, 2026
  • Economia, Internacional
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Os países do bloco já representam cerca de um terço do PIB global (em paridade de poder de compra), além de mais de 30% do comércio mundial.

Presidente do Brasil Lula da Silva, Presidente da China Xi Jinping, Presidente da África do Sul Cyril Ramaphosa, Primeiro Ministro da Índia Narendra Modi e Ministro das Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov em Cúpula do BRICS na África do Sul, em 2022. (Foto: Wikimedia Commons).

Enquanto 2025 foi um ano de estruturação técnica da proposta, 2026 deve trazer testes mais concretos de um sistema de pagamentos integrado para o BRICS, bloco que domina mais de 30% do comércio global e cujas transações entre países-membros já passam de US$ 1 trilhão.

O BRICS, bloco de cooperação multilateral que já soma 11 membros permanentes (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Indonésia), atingiu o dobro do fluxo comercial da União Europeia e movimentou com o Brasil, só em 2025, cerca de US$ 234,8 bilhões.

Somando os demais membros, o valor das transações comerciais, segundo a TV BRICS, já passa de US$ 1 trilhão (o equivalente a cerca de R$ 5,27 trilhões).

O grupo tem intensificado, nos últimos anos, esforços para reduzir sua dependência do dólar em transações internacionais.No centro desse esforço está a criação de um sistema próprio de pagamentos transfronteiriços, uma espécie de “PIX dos BRICS”, oficialmente chamado de “BRICS Pay”.

A criação do sistema foi anunciada há dois anos, durante a Cúpula do bloco sediada em Kazan, na Rússia, e a inspiração foi tomada diretamente do sistema de pagamentos brasileiro, o PIX, criado pelo Banco Central do Brasil (BCB), que funciona a partir de pagamentos processados em tempo real através do Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI).

O SPI é uma infraestrutura centralizada, gerida pelo BCB, e integra diferentes instituições financeiras em transações mais seguras do que o TED e o DOC, porque opera 24 horas por dia sob o princípio da Liquidação em Tempo Real (LBTR), isto é, o processamento instantâneo e individual de uma transação, sem “somar tudo ao fim do dia”, como são os sistemas tradicionais.

No caso do sistema de pagamentos do BRICS, as transações também se fariam de forma instantânea, mas sob uma rede blockchain, um registro digital descentralizado que armazena informações em blocos “encadeados” (o que garante segurança), distribuídos entre vários computadores e protegido por criptografia avançada, sem depender de um governo específico.

A proposta, ainda em desenvolvimento, combina interesses geopolíticos, financeiros e tecnológicos, entre a redução de custos operacionais de transações e a ampliação da autonomia monetária dos países membros.

Dados recentes de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) indicam que os países do bloco já representam cerca de um terço do PIB global (em paridade de poder de compra), além de mais de 30% do comércio mundial.

No entanto, estão integrados ao bloco a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, países intensivos em petróleo, o que torna mais evidente a incapacidade de fugir do regime dolarizado que media a formação de preços das commodities energéticas no mercado internacional.

O Irã, nação que está sob as investidas de EUA e Israel, também faz parte do bloco. O país já estabelece, desde 2023, o chamado “Rial Digital”, método de pagamento alternativo ao dinheiro e aos cartões tradicionais. Trata-se de uma moeda digital transferida sem intermediação bancária, direto do comprador ao pagador.

Ela funciona de maneira similar ao Drex, versão digital do real anunciada pelo Banco Central do Brasil para liquidar transações grandes de forma direta (sem intermediação bancária).

Avanços nos diálogos
Segundo um relatório técnico elaborado pelo Banco Central brasileiro, a intenção do “PIX dos BRICS” não seria, no entanto, substituir os sistemas de pagamentos já existentes, mas apenas conectar de maneira independente suas infraestruturas de pagamentos estrangeiras, como o PIX brasileiro, o CIPS chinês (China Cross-Border Interbank Payment System, sistema de pagamentos internacionais em renminbi) e o UPI indiano (Unified Payments Interface, que funciona de forma similar ao PIX).

Essa arquitetura permitiria que o comércio entre países fosse feito a partir de transações quase instantâneas, e sem necessidade de compensação via bancos correspondentes em dólar.

Na prática, portanto, seria uma rede multilateral baseada nas moedas locais, mas com transações diretas.

Essa espécie de iniciativa não combate de forma direta o predomínio dólar como moeda de referência internacional, mas serviria para reduzir a dependência do SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), o sistema de pagamentos interbancário que permite a diferentes países liquidarem transações uns com os outros em dólares.

Apesar do crescimento do uso de moedas locais em acordos bilaterais, especialmente entre países emergentes, o dólar ainda responde por cerca de 80% das transações cambiais do mundo e, de acordo com dados do Monitor de Dominância do Dólar do Atlantic Council, compõe 58% das reservas globais de valor.

Enquanto 2025 foi um ano de estruturação técnica da proposta dos BRICS, 2026 deve trazer testes mais concretos da iniciativa.

Já na metade do ano passado, a “Força-Tarefa de Pagamentos” do BRICS avançou nas definições de “interoperabilidade” do sistema, que foi considerado “prioridade estratégica” do grupo na Declaração de líderes assinada durante os encontros do Rio em 2025.

“Encarregamos nossos ministros das finanças e governadores dos bancos centrais de continuar a discussão sobre a Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços dos BRICS e reconhecemos o progresso alcançado pela Força-Tarefa de Pagamentos dos BRICS (BPTF) na identificação de possíveis caminhos para apoiar a continuidade das discussões sobre o potencial para maior interoperabilidade dos sistemas de pagamento dos BRICS”, afirma o documento. De acordo com o BRICS Expert Council Rússia, até 65% do comércio intra-BRICS já ocorre em moedas locais.

Apesar disso, “a maioria das moedas dos BRICS — com exceção do yuan chinês — sofre com liquidez limitada”, diz o Conselho, e “os sistemas de liquidação existentes permanecem integrados à infraestrutura ocidental”.

Isto é, mesmo quando as transações são realizadas em moedas locais, “algumas transações são processadas por meio de contas correspondentes em bancos dos EUA”.

Em 2026, quando a Índia assume papel central na condução do bloco, acredita-se que a pauta da integração entre moedas digitais de bancos centrais deve voltar de forma mais enfática, especialmente durante a 18ª Cúpula do BRICS, sediada no país.

“À medida que a Índia se prepara para sediar a cúpula dos BRICS ainda este ano, o foco estará em um sistema de pagamento que conecte moedas digitais nacionais”, afirma o Asia Times.

“Na cúpula, um item crucial da pauta sinaliza uma possível mudança: desenvolver um sistema de pagamento BRICS baseado em moedas digitais interoperáveis de bancos centrais (CBDCs).”

Diferente de uma ‘moeda comum’
Não cabe, no entanto, confundir o atual projeto do BRICS com a adoção de uma “moeda comum” para as transações do bloco.

O debate, que tomou força ao longo de 2024, foi suavizado, em parte, pelas constantes ameaças do presidente norte-americano, Donald Trump, que, ao reassumir a presidência dos EUA em 2025, disse que aplicaria “tarifas de 100%” sobre os produtos do BRICS caso a “moeda única” do bloco fosse adotada em detrimento do dólar.

A intenção é adotar moedas nacionais em formato digital e realizar transações par a par (feitas de um país a outro sem necessidade de sistemas financeiros internacionais como intermediários).

Apesar disso, o novo sistema pode ser um passo importante para a “desdolarização”, mesmo sem substituir a moeda norte-americana.

O movimento é mais uma redução gradual da dependência estrutural de transações baseadas em dólar e, por conseguinte, da infraestrutura que suporta a moeda, sujeita aos interesses de seu emissor, os EUA.

A preferência por moedas locais acaba por enfraquecer o regime dolarizado ao aumentar a circulação de moedas alternativas e a soberania econômica entre países do Sul Global, sobretudo entre China e Índia, segunda e quarta maiores economias do mundo, respectivamente. Entre os dois países, as transações em moeda local ultrapassam 80%.

Com informações do Portal Revista Forum

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