Mandetta manda indireta para Bolsonaro após vitória de Lula

Demitido durante a pandemia, o ex-ministro da Saúde virou desafeto do presidente da República

O ex-ministro da saúde, Henrique Mandetta (União Brasil), publicou uma indireta para o presidente Jair Bolsonaro (PL), após o candidato à reeleição perder as eleições para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno. No Instagram, o médico postou uma foto do medicamento Hidroxicloroquina, apoiado pelo presidente durante a pandemia de covid-19 mesmo sem comprovação científica de sua eficácia para a doença.

Mandetta publicou indireta para Bolsonaro Foto: Instagram/Fátima Meira/Futura Press / Reprodução

Em abril de 2020, Mandetta anunciou o pedido de demissão do cargo, que ocupava desde o início do mandato de Bolsonaro. Em meio a crise sanitária no País, ele alegou ter saído do ministério por causa de divergências entre as decisões do governo e as orientações dos órgãos mundiais competentes. E os dois se tornaram desafetos desde então.

No Twitter, o ex-ministro já tinha alfinetado Bolsonaro, exaltando a veracidade das urnas eletrônicas e parabenizando a vitória de Lula.

“Parabéns ao Lula, eleito pelo povo brasileiro. Vida longa à democracia. Viva às urnas eletrônicas. Viva ao respeito à vida”, escreveu o ex-ministro.

Nesta eleição, Mandetta ficou na segunda colocação para o Senado Federal do Mato Grosso do Sul com 15,46% dos votos válidos. Com o resultado, acabou ficando sem o cargo, que ficou com a ex-ministra da Agricultura e Pecuária Teresa Cristina (PL).

Vídeo: Sindicato transforma evento de saúde em palanque para Mandetta

Agentes comunitários de saúde e de combate a endemias foram convocados pelo sindicato para debaterem sobre assuntos inerentes a categoria, mas foram surpreendidos. O evento na verdade se tratava de uma reunião política de Mandetta, candidato ao Senado. Muitos revelaram que foram obrigados a ir. Com medo de represálias seguiram a determinação, mas fizerem questão de registrar o encontro que teve discurso político e distribuição de adesivos do pré-candidato ao Senado

Reunião que mobilizou mais de mil agentes comunitários de saúde e de combate a endemias de todo o Estado para tratar de assuntos de interesse corporativo de ambas as categorias, acabou se transformando em evento político-partidário na manhã de ontem em Campo Grande, em pleno horário de expediente e com o conhecimento da prefeitura de Campo Grande.

Henrique Mandetta e Ilda Correia, presidente da Conacs: parceria sólida (Reprodução).

Discurso sem qualquer relação com o evento e distribuição de adesivos do pré-candidato Henrique Mandetta, que concorre ao Senado, reduziu a mero palanque eleitoral o que deveria marcar relevante vitória do movimento sindical sul-mato-grossense na defesa dos interesses dos agentes.

A reunião ocorreu ontem, às 8h30, no ginásio de esportes do Colégio Auxiliadora. A convocação foi feita pela presidente da Confederação Nacional dos Agentes Comunitários de Saúde e Agentes de Combate a Endemias (Conacs), Ilda Angélica Correia.

No convite, ela discorre sobre a aprovação e promulgação da Proposta de Emenda Constitucional 09/22, que garante o piso salarial nacional de dois salários mínimos (R$ 2.424,00 em 2022), aos agentes comunitários de saúde e de combate às endemias.

Mais adiante, justifica a importância do comparecimento de todos ao evento para tratar da implementação dos termos da EC 120/22 nos municípios de Mato Grosso do Sul, já anunciando a presença no evento do ex-ministro bolsonarista da Saúde Luis Henrique Mandetta, que em palestra iria discorrer sobre o tema “ACS e ACES fundamentais ao SUS”.

Distribuição de adesivos

Os vídeos de servidores de ambas as categorias com críticas à transformação do evento sindical em político-partidário, situação escancarada logo que os ACS e ACE entravam no ginásio, em cuja porta de entrada estavam dispostos sobre uma mesa centenas de adesivos da pré-candidatura de Henrique Mandetta ao Senado.

A transformação de evento sindical em ato político-partidário também recebeu críticas do presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de Campo Grande (Sisem), Marcos Tabosa. Ele disse que os agentes de combate a endemias “foram obrigados a participar” e que o sindicato repudia a transformação, em evento político, de uma reunião que tinha como foco apenas a questão salarial dos agentes.

Parte do discurso de Mandetta, que no palco permaneceu durante algum tempo abraçado a Ilda Angélica Correia, não teve nenhuma relação com o motivo da convocação e muito menos com o Sistema Único de Saúde (SUS), justificativa de sua presença no evento.

“Na época falaram assim: mas ele nunca foi vereador, prefeito ou deputado estadual, como é que ele vai sair [candidato] a deputado federal? Eu vou”, diz Mandetta, para logo ao final desse trecho de sua fala, concluir: “Quem me colocou [no Congresso Nacional] como deputado federal em 2014 foram os agentes de saúde e de combate a endemias”, sendo aplaudido por algumas pessoas.

Para o presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de Campo Grande (Sisem), Marcos Tabosa, a conquista do piso nacional não tem nada a ver com o pré-candidato Henrique Mandetta. “Trata-se de uma luta que ocorreu em nível nacional, graças à mobilização de ambas aas categorias. Foram anos de intenso trabalho sindical”, disse o sindicalista.

Ontem, Mandetta disse ter conversado com a prefeita de Campo Grande, com quem teria tratado desse assunto, e que no encontro ele foi informado que o pagamento poderia ser feito ainda no mês de julho, com valores retroativos ao mês de maio.

Sobre essa possibilidade de o pagamento ser feito ainda em julho, em folha suplementar, Marcos Tabosa diz não acreditar. “Acho difícil. O pagamento deve ser feito mesmo apenas em agosto. Existe dinheiro do governo federal para essa finalidade.

Mandetta confirma pré-candidatura ao Senado pelo União Brasil

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta confirmou nesta terça-feira (21) que é pré-candidato ao Senado, por Mato Grosso do Sul, nas eleições deste ano. O médico deve sair como nome pelo União Brasil. “Sempre foi, é e será. Vamos vencer!”, disse Mandetta ao ser questionado sobre a pré-candidatura.

O ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta — Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Mato Grosso do Sul deve ter na disputa pela vaga ao Senado dois ex-ministros. Agora com o nome de Mandetta nas prévias, Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento também é nome cotado como pré-candidata ao Senado, pelo Partido Progressista (PP).

De um lado a ex-ministra da agricultura e fiel apoiadora do atual presidente, Tereza Cristina (PP), e do outro, Mandetta que ficou à frente do Ministério da Saúde, mas resolveu abandonar o cargo após ter divergências com Bolsonaro logo no começo da pandemia da covid-19.

Ex-deputado federal, Mandetta esteve à frente do Ministério da Saúde desde o início do governo Bolsonaro, em janeiro de 2019, e ganhou maior visibilidade com a crise provocada pelo novo coronavírus. Mandetta foi demitido em abril de 2020.