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Campo Grande, 25 de setembro de 2026

MP denuncia 10 por esquema de tráfico com viatura oficial e falso fugitivo em Campo Grande

  • 25 de setembro, 2026
  • Polícia
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Acusação aponta que PM simulou busca por suspeito para retirar parte de carga de drogas de galpão. Policial penal teria transportado cocaína de Corumbá em veículo do Cope.

Antônio (policial penal) e Lucas (policial militar) presos pelo esquema (Foto: Reprodução).

O MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) denunciou dez pessoas por tráfico de drogas e associação para o tráfico no âmbito da Operação Rota Blindada. Entre os acusados estão um policial militar e um policial penal, apontados como integrantes de um esquema que teria usado uma viatura oficial do Cope (Comando de Operações Penitenciárias) para transportar entorpecentes de Corumbá a Campo Grande.

A denúncia também descreve uma suposta encenação durante a abordagem a um galpão na Vila Entroncamento, em Campo Grande. Conforme a acusação, o policial militar Lucas Villegas Campos teria criado a falsa informação de que um suspeito havia fugido pulando o muro do imóvel, o que teria afastado as demais equipes do local e permitido o furto de parte da carga antes da apreensão oficial. As acusações ainda serão analisadas pela Justiça, e os denunciados têm direito à ampla defesa e ao contraditório.

Falso fugitivo teria desviado equipes

Segundo o Ministério Público, a investigação teve origem na apreensão de drogas feita pela Polícia Militar em um galpão usado como entreposto em Campo Grande. No dia da ocorrência, Lucas Villegas estaria em um VW Jetta cinza descaracterizado, monitorando a chegada de uma carga enviada de Corumbá.

Durante a abordagem, conforme a denúncia, o policial militar teria afirmado que uma pessoa havia escapado pelo muro do galpão. A informação mobilizou os demais agentes para buscas nas proximidades, que teriam durado aproximadamente 40 minutos.

Nesse intervalo, de acordo com a acusação, Lucas teria retirado e colocado no próprio veículo parte dos entorpecentes que estavam no imóvel. A suspeita foi reforçada após a análise de imagens feitas no interior do galpão antes da chegada das equipes policiais.

O MPMS sustenta que os vídeos mostravam volumes de drogas que não apareceram posteriormente no auto oficial de apreensão. A apuração pericial, segundo a denúncia, identificou que parte da carga registrada nas imagens não foi contabilizada ao fim da ação.

Viatura do Cope no transporte

O policial penal Antônio Fernando Martins da Silva, conhecido como “Barba”, é apontado como responsável por transportar a droga de Corumbá até Campo Grande usando uma Ford Ranger preta oficial do Cope.

Conforme informações divulgadas durante as investigações, o policial penal teria admitido, em interrogatório, que receberia R$ 50 mil pelo chamado “frete seguro” — expressão usada para descrever o transporte da carga sob a proteção proporcionada pelo uso de uma viatura oficial. Reportagens sobre a segunda fase da operação indicaram que a carga investigada envolvia cerca de 300 quilos de cocaína.

O trajeto, segundo a denúncia, foi confirmado a partir do sistema AB Alerta Brasil, da PRF (Polícia Rodoviária Federal). O veículo oficial teria passado por um radar no quilômetro 709 da BR-262, em Corumbá, com intervalo de dois minutos em relação a um Chevrolet Ônix preto apontado como carro de apoio e batedor.

A investigação conduzida pela Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) já havia indicado que uma parte da carga transportada no veículo oficial não teria sido apreendida durante a operação no galpão. À época, a Polícia Civil também apontou Lucas Villegas como suspeito de ter se apropriado de parte dos entorpecentes.

João Vitor deitado em malas com drogas desviadas(Foto: Reprodução).

Divisão de funções no esquema

Na denúncia, o Ministério Público atribui tarefas específicas aos dez acusados:

-Lucas Villegas Campos, policial militar, é acusado de monitorar a chegada da droga, criar a falsa fuga durante a abordagem e retirar parte do entorpecente do galpão.

-Antônio Fernando Martins da Silva, policial penal, é apontado como motorista da viatura do Cope usada no transporte da carga.

-Diogo da Cruz Alexandre teria atuado como liderança operacional e viajado como passageiro no veículo oficial.

-Rodrigo de Brito Osório Moraes é acusado de coordenar a logística e alugar o galpão usado como entreposto na Vila Entroncamento.

-Diego Henrique de Souza Almeida seria o responsável por guardar o imóvel e abrir ou fechar o galpão, mediante pagamento de R$ 2 mil.

-Rodrigo de Souza Mattos Chalega é apontado como operador envolvido no manuseio e na conferência da droga.

-João Victor de Arruda Batista teria prestado apoio operacional no manuseio da carga.

-Mário Sérgio dos Santos Soares é descrito como “olheiro”, com atuação no descarregamento e em rondas pela vizinhança.

-Joel Lopes também é apontado como olheiro e responsável por vigiar o entorno do galpão.

-Luiz Otávio do Espírito Santo Valentin teria armazenado previamente a droga em imóveis de Corumbá.

Celulares tiveram fotos de drogas e armas

A denúncia cita ainda perícias feitas em celulares apreendidos ao longo da apuração. Um dos investigados, João Victor de Arruda Batista, teria afirmado em depoimento que apenas pegou carona até o galpão.

No entanto, conforme o MPMS, o aparelho dele continha imagens em que aparecia deitado sobre malas com skunk — variedade mais concentrada da maconha — e portando armas de fogo.

Em outros celulares, os investigadores encontraram fotos de pessoas armadas próximas a tabletes de cocaína e maconha, além de conversas e dados de geolocalização relacionados aos pontos de carregamento da carga na região de fronteira.

Operação teve duas fases

A apuração começou no fim de janeiro, depois que drogas foram localizadas no galpão utilizado pelo grupo. A primeira etapa da Operação Rota Blindada foi deflagrada em fevereiro e levou à prisão do policial penal Antônio Fernando Martins da Silva, suspeito de usar a estrutura pública para facilitar o transporte de entorpecentes.

Em abril, a Denar realizou a segunda fase da operação e cumpriu mandados em Mato Grosso do Sul, Paraná e outros locais ligados aos investigados. Na ocasião, foram expedidas oito prisões preventivas e 13 mandados de busca e apreensão; sete pessoas foram presas, enquanto um alvo permaneceu foragido. A ação também resultou na apreensão de veículos, dinheiro, cocaína e de uma embarcação estimada em R$ 400 mil.

Lucas Villegas, que já estava preso no Presídio Militar por outro inquérito, também foi alvo da Rota Blindada II. O outro caso, denominado Operação Lealdade Corrompida, apura o furto de drogas em uma residência no Bairro Parque dos Girassóis, em Campo Grande. Segundo a Polícia Civil, as investigações são distintas, embora ambas envolvam suspeitas de desvio de entorpecentes e tenham o policial militar entre os investigados.

Com o oferecimento da denúncia, o Ministério Público apresenta sua versão formal sobre a origem do desaparecimento de parte da droga apreendida no galpão: a suposta fuga forjada teria sido usada para afastar os policiais e possibilitar a retirada da carga antes da contabilização oficial.

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