USDA aposta em medidas regulatórias e de mitigação de risco. Esta crise pode gerar reflexos no mercado mundial e abrir espaço para o Brasil.

O setor pecuário dos Estados Unidos atravessa o momento mais delicado das últimas sete décadas, com o rebanho bovino reduzido ao menor nível desde 1951. Apesar do cenário crítico, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) confirmou que não oferecerá, por ora, subsídios diretos para estimular a recomposição do gado.
O esclarecimento foi feito por Colin Woodall, CEO da National Cattlemen’s Beef Association (NCBA), durante entrevista ao programa AgriTalk, em 25 de setembro. Segundo ele, os rumores sobre pagamentos para retenção de bezerras ou recompra de vacas não procedem: “Não há programa de incentivo financeiro. Independentemente do que você tenha ouvido, esse programa não existe.”
Expectativas frustradas
Dias antes, a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, havia sinalizado que um plano “significativo” seria lançado em breve, gerando expectativa imediata no setor. No entanto, em pronunciamento durante o Ag Outlook Forum, ela descartou qualquer programa de pagamento direto, afirmando que “a intervenção governamental pode facilmente atrapalhar o mercado”.
O USDA deve priorizar medidas estruturais, como ampliação de áreas produtivas, maior oferta de ferramentas de gestão de risco e programas para atrair jovens à atividade. O anúncio detalhado está previsto para outubro.

Crise estrutural
A queda histórica do rebanho é resultado de uma combinação de fatores: secas prolongadas, alta nos custos de alimentação, pressões regulatórias e liquidação antecipada de animais diante da queda nas margens.
Com oferta restrita, os preços da carne bovina e do gado atingiram recordes nos EUA. Empresas como a Tyson Foods indicam que alguns produtores já iniciaram a recomposição dos rebanhos, mas o processo pode levar até dois anos.
O USDA também avalia retomar, até 2025, as importações de gado mexicano, suspensas por risco sanitário ligado ao parasita New World screwworm.
Reflexos para o Brasil e o mercado global
A crise norte-americana ocorre no mesmo momento em que Brasil e Austrália também atravessam fases críticas do ciclo da pecuária, com ajustes de rebanho. Essa coincidência de movimentos pressiona o mercado internacional e pode elevar os preços globais da carne bovina.
Para o Brasil, maior exportador mundial do produto, abre-se uma janela de oportunidade. A escassez de gado nos EUA tende a aumentar a demanda por carne importada, o que pode beneficiar frigoríficos brasileiros em mercados estratégicos, especialmente Ásia e Oriente Médio.
No entanto, especialistas alertam que o Brasil também precisa lidar com desafios internos, como custos de produção, exigências ambientais e oscilação cambial, que podem limitar parte desse ganho de competitividade.
Perspectivas
Enquanto os EUA apostam em medidas regulatórias em vez de subsídios, o setor global observa com atenção os desdobramentos. A pressão da demanda sobre uma oferta mundial restrita indica que os preços da carne bovina devem seguir elevados no curto prazo, ampliando a relevância do Brasil no abastecimento internacional.






