Raised By Wolves: um recomeço para a humanidade

A primeira temporada de Criadas por Lobos (Raised By Wolves) da HBO Max é cautelosa no seu ritmo, mas ainda é cheia de ação e algo que todos os geeks de ficção científica vão adorar! Sem mencionar que o suspense vai fazer você implorar pela segunda temporada.

No mundo de Criadas por Lobos os personagens tentam entender o mundo sombrio e aterrorizante ao seu redor voltando-se para histórias antigas em vez de alguma evidência científica. Para os Mitraicos, essas histórias são sobre a adoração de um criador que eles chamam de Sol, uma entidade que eles insistem ser a força motriz benevolente por trás de sua missão, não importa o quão terríveis e estranhas as coisas se tornem em Kepler-22B – o lugar onde querem construir um “novo” mundo. Só que lá, antes deles já chegaram Mãe (Amanda Collin) e Pai (Abubakar Salim) com alguns embriões, e eles tentarão criar os filhos com uma história diferente, mesmo se acabarem sendo vítimas da mesma fé cega em sua compreensão da “missão”. Em especial a fé da Mãe no seu criador ancião ateu que a transformou de uma máquina de guerra em uma mãe emocionalmente engajada, cega em seu julgamento, tornará impossível para ela ver como suas escolhas estão colocando sua família em risco.

E para melhorar o drama, estão infiltrados com os Mitraicos dois impostores Ateus que deveriam ficar na Terra, Marcus (Travis Fimmel, o Ragnar de Vikings) e Sue (Niamh Algar). Eles roubaram a identidade de um casal Mitraico, e o filho deles, para ter acesso a Arca que iria para Kepler-22B.

A série pode ser melhor entendida como alegoria, e o episódio “O Início”, confirma que uma forma que os espectadores podem entender o que acontece com a Mãe e Pai é uma espécie de queda em desgraça.

Kepler-22B não é o novo Jardim do Éden e a curiosidade de Mãe pela máquina Mitraica que ela encontra, faz com que ela seja infectada por algum tipo de vírus malicioso, e o bebê que ela carregava dentro dela, que as crianças religiosas da Terra veriam como um presente sagrado do Sol, e os ateus veriam como um crescimento maravilhoso da tecnologia, acaba se transformando numa cobra horrível.

O mundo de Criadas por Lobos é muitas vezes assustadoramente desolador e parte dessa sensação, deriva da atuação fenomenal da Mãe. Com seu corte de cabelo de duende e traços delicados que podem suavizar e rosnar quase ao mesmo tempo, Amanda Collin se parece com Mia Farrow em O bebê de Rosemary. Na verdade, o nascimento do bebê cobra é totalmente horripilante, não apenas a forma como a serpente escapa de sua boca, mas a forma como ela se aninha assustadoramente dentro dela, sugando seu seio como um parasita.

A história explora como as coisas que veremos acontecer repetidamente em Kepler-22B não são aleatórias e nem o resultado de um Sol benevolente. Apesar de seus sistemas de crenças diferentes, tanto os Mitraicos quanto os Ateus acreditavam que os humanos eram basicamente o centro do universo. Os espectadores serão envolvidos nesta visão míope de mundo, pois temos lutado para dar sentido a uma teia cada vez mais bizarra e complexa de pistas misteriosas que continuamos tentando organizar em algum tipo de estrutura coerente. Teremos aqui uma ideia muito mais sinistra: que qualquer ser consciente que esteja brincando com intrusos humanos ou andróides, está na verdade desinteressado em suas motivações. Em vez disso, a estranha e poderosa força que move este planeta novo está simplesmente aproveitando as esperanças e sonhos de sua presa em um esforço para esculpir uma nova vida.

Em outras palavras, a natureza tem um curso que pouco tem a ver com as pessoas. Na verdade, essa nova humanidade é tão sem importância no mundo de Keppler-22B que está literalmente se transformando em estranhas criaturas. Só o tempo dirá se o sacrifício da Mãe e do Pai foi realmente no melhor interesse de seus filhos, e se a fé deles em sua missão e um no outro conseguiu permanecer intacta.

5 pipocas!

Presságios de Um Crime: clarividência e crimes…

A dica de hoje volta para 2016.

O suspense serial killer Presságios de Um Crime (Solace) ficou preso no limbo do desenvolvimento por mais de uma década – tanto tempo que em um ponto sua história foi lançada como uma possível sequência de Se7en. O filme parece uma sobra de uma era anterior, quando policiais perseguiam gênios loucos em telas multiplex aparentemente todo fim de semana. Mas, como sobras, Presságios de Um Crime retém uma quantidade razoável de sabor, graças aos ingredientes de alta qualidade.

Anthony Hopkins, que ajudou a popularizar esse gênero com sua vitória no Oscar por Silêncio dos Inocentes, interpreta John Clancy, um clarividente cansado do mundo, chamado por um velho amigo policial (Jeffrey Dean Morgan, o Negan de TWD) para ajudar em um caso difícil. Colin Farrell interpreta Charles Ambrose, o vilão da peça, que aparece no meio do filme como um assassino psíquico que visa os doentes terminais.

Grande parte de Presságios de Um Crime consiste em uma investigação sobre charadas, furos na parte de trrás da cabeça, vestidos com os detalhes floridos comuns referentes a esses tipos de filmes e programas de TV: as cenas de crime são elaboradamente sangrentas, as pistas poéticas e as conversas são filosóficas sobre a vida e morte. O diretor Afonso Poyart retira um toque visual do presente compartilhado de Clancy e Ambrose, usando montagens e efeitos especiais para mostrar a eles a possibilidade de imaginar o futuro possível de todos que os encontrarem.

O enredo de Presságios de Um Crime não é nada genérico – e sim, muito bom – e deve ser levado a sério, provavelmente por isso que o filme demorou tanto para sair. Tem estilo e apelo de retrocesso. Mais importante, ele tem Hopkins e Farrell, trazendo um toque de classe a um jogo familiar de gato e rato.

5 pipocas!

Em cartaz na Amazon Prime Video.

Sombra Lunar: viagem no tempo repaginada

Como um cordeiro seguindo um caminho estridentemente para o matadouro, o thriller da Netflix Sombra Lunar (In the Shadow of the Moon) é uma vida implorando para ser vivida. É um filme tão estranho e pesado que é impossível terminar de assistir sem exibir algum tipo de reação visceral extrema: aborrecimento, perplexidade, choque ou incredulidade e, imagino que o diretor Jim Mickle reagiu com empatia por alguns personagens. Enquanto pensava nisso, eu cocei minha cabeça e também me encontrei estranhamente encantado com essa loucura descarada – um filme que mira as estrelas com sucesso.

A primeira cena se passa em 2024, numa breve provocação de um futuro repleto de anarquia e janelas de escritórios quebradas, nos mostrando uma rua cheia de caos evidente. Somos então levados de volta a 1988 para a investigação de uma série bizarra de mortes difíceis de explicar, onde cada vítima sangra repentinamente durante seus dias de trabalho, sem nenhum suspeito à vista. Com ambições de se tornar um detetive, o oficial Thomas Lockhart (Boyd Holbrook) se infiltra na investigação, e logo encontra pistas sobre uma jovem assassina que foge da sua captura com facilidade.

Dizer muito mais seria, na minha opinião, um spoiler. Em seguida, o filme começa a fazer o uso total de um salto no tempo, investindo numa indefinibilidade que muda o estilo de um suspense policial para a ficção científica, recheada por uma parábola social. Daí tudo fica imprevisível, porém melhor de muitas maneiras e ainda esmagadoramente previsível em outras, mas abraça clichês enquanto traça um caminho incomum, onde o policial obstinadamente obsessivo esquece seus deveres como pai e foca sua existência na busca por respostas. Vira um cara visivelmente sério mas, frustrantemente tímido às vezes, especialmente perto do final.

Uma das críticas mais comuns hoje em dia é que muitos filmes originais da Netflix são repletos de uma monotonia esmagadora, cada um parecendo tão barato e anonimamente montado quanto o outro. Mas aqui a diferença é notável. Além de ser atrativo, há nesse longa uma estética clara e nítida, especialmente no primeiro ato atmosférico do set passados nos anos 80, e o diretor trabalhou duro para fornecer a melhor ambientação. Parece um filme real com um estilo distinto e uma série de sequências de ação divertidas, coreografadas com cuidado.

Sombra Lunar é uma obsessão adorável – se é que isso existe. Suas ambições são fáceis de criticar, mas difíceis de não admirar, é um filme maluco com grandes ideias em mente.

5 pipocas!

Em cartaz na Netflix.

Enola Holmes: ela é mais que demais

Não será surpresa para ninguém saber que a teimosa irmã adolescente de Sherlock Holmes, Enola Holmes, não aparece em nenhum lugar nas histórias ou romances originais de Arthur Conan Doyle; o personagem foi criado pela romancista Nancy Springer em 2006. Apesar de décadas e décadas de imitadores, de tentativas de recriar seus contos de Holmes ou expandí-los, suas “novas versões” geralmente fracassam porque nunca alcançam sua sensibilidade peculiar e ordenada. Eu não li os livros de Springer, então não posso falar sobre seu trabalho, mas felizmente, Enola Holmes, o filme, nem tenta parecer uma história de Sherlock Holmes. É inteligente o suficiente para ser muito diferente, e esse mérito pertence à nossa jovem estrela, Millie Bobby Brown.

Como Enola, Brown traz uma exuberância superalimentada para o papel de uma jovem de 16 anos que, após anos sendo educada em casa (literatura, história, ciência e até combate) por sua mãe independente, Miss Holmes(Helena Bonham-Carter), descobre um dia que aquela querida mãe desapareceu. Ao voltar para casa, seus irmãos mais velhos, o detetive superstar Sherlock (Henry Cavill) e o almofadinha certinho Mycroft (Sam Claflin), parecem menos interessados no paradeiro da sua mãe do que no fato de Enola não ter ido à escola, onde ela iria, é claro aprender coisas como postura adequada e como ser uma boa esposa. Mycroft fica indignado, enquanto Sherlock se resguarda mas, sabemos, é claro, que Enola nunca aceitaria tal destino. Hábil em decifrar códigos e quebra-cabeças de palavras, ela descobre que sua mãe deixou algum dinheiro e pistas e assim, foge para Londres para localizá-la.

No trem para Londres, Enola encontra um belo jovem lorde, o Visconde Tewkesbury (Louis Partridge), que está fugindo de sua família, no mesmo momento histórico em que um polêmico projeto de reforma está para ser votado no Parlamento Inglês – a luta das sufragistas surgindo como pano de fundo e que conectará tudo. Nisso, ainda na capital, Enola junta pistas adicionais e aprende um pouco mais sobre as atividades secretas subterrâneas de sua mãe.

Na realidade, a narrativa é apenas uma fachada. A verdadeira atração aqui é a atuação de Millie como Enola. A insistente leveza da personagem pode parecer fácil de conseguir, mas não é: ninguém na história parece estar em perigo real, o que a torna uma aventura divertida. Não estamos tão preocupados com o que pode acontecer a Enola, mas sim com as coisas novas e divertidas que ela pode dizer ou fazer a seguir. Millie é maravilhosa vendendo a ética do poder feminino do filme com a quantidade certa de diversão, enquanto mantém algo doce e sincero no coração do personagem. Ela transmite a energia de uma criança descobrindo o mundo.

Acima de tudo, Enola Holmes foi ensinada a ser autossuficiente e não aceitar o que a Inglaterra vitoriana tinha reservado para as mulheres jovens, ou seja, a servidão irracional. Embora a moça seja mais jovem que Sherlock, seus poderes de observação são quase tão agudos quanto os dele. Ela é muito esperta, perita em quebrar códigos e, uma vez que finalmente domina suas habilidades, nada pode se esconder dela. E agora, depois de sua primeira investigação, esta jovem detetive está preparada para ser o centro de sua própria série de filmes.

Até porque o Sherlock Holmes aqui é só um bobão que observa a irmã acontecer – e só por causa disso, eu dou uma pipoca a menos na avaliação.

4 pipocas!

Em cartaz na Netflix.

O Diabo De Cada Dia: um conto de vários horrores

O Diabo De Cada Dia (The Devil All the Time), da Netflix, é um filme de isolamento devastador; a floresta que cerca essas cidades parece faminta, pronta para se fechar. Há uma poeira espessa no ar. A primeira coisa que ouvimos já de cara, é uma voz lenta e sombria. Ela nos apresenta a época de 1957, e dois lugares: Knockemstiff, Ohio, e Coal Creek, West Virginia. A tal voz pertence a Donald Ray Pollock, o próprio autor americano que escreveu esse conto “gótico do meio-oeste”. Antonio Campos aqui é quem o adapta para a tela. Pollock, como o narrador, é sábio, estranho e ocasionalmente desbocado (ele sugere que um de seus personagens “cheirava pior do que um motorista de caminhão). Você pode imaginá-lo contando essa história sentado em uma velha cadeira de balanço, na varanda de uma casa de família.

O filme segue várias histórias interligadas, estendidas entre essas duas cidades totalmente empobrecidas. O epicentro dos eventos é a família Russell, marginalizada em Knockemstiff pela simples razão de que “todos estão ligados por sangue ou por uma calamidade esquecida por Deus”. O pai, Willard (Bill Skarsgard), é um veterano da Guerra do Pacífico, que numa volta pra casa traumática, ganhou imenso zelo pela fé cristã. Ele espera que isso proteja sua esposa Charlotte (Haley Bennett) e seu filho, Arvin (Michael Banks Repeta). Já a mãe de Willard, Emma, esperava que ele se casasse com Helen (Mia Wasikowska), uma órfã local, mas ela se apaixona por um evangelista, Roy (Harry Melling), cujo truque é derrubar um balde de aranhas em sua cabeça para provar que Deus levou embora seus medos.

Então, reencontramos Arvin agora quando ele é mais velho (interpretado por Tom Holland), e aqui nesse ponto ele é o confidente íntimo e protetor da filha de Helen, Lenora (Eliza Scanlen), uma menina tímida e nervosa que é totalmente devotada à mãe adotiva (vó de Arvin) e à Deus. Ao mesmo tempo, dois assassinos percorrem as estradas entre as duas cidades. Sandy (Riley Keough), a “isca”, e Carl (Jason Clarke), o “atirador”, que seduzem os caronas, fazendo eles posarem para fotos sexuais com Sandy e, em seguida, acabando com suas vidas. Já Robert Pattinson faz uma aparição tardia como um pastor fajuto, Preston. Com um sotaque caipira e voz ofegante de tanto pregar, o ator sabe como se tornar uma presença realmente desagradável.

 

Esses personagens vivem sob os olhos de um Deus indiferente: morrem por ele, matam por ele, e usam seu nome para proteger suas hipocrisias. “Esta era a única religião verdadeira ali”, diz Pollock sobre a sede de sangue de Carl e todos os outros. “Somente na presença da morte poderiam sentir a presença de algo como Deus”. O elenco escalado por Campos é uma coleção dos olhos com a aparência mais assombrada de Hollywood. Skarsgard, Keough e Wasikowska parecem cadáveres zumbis ambulantes.

Há muito para desvendar em O Diabo De Cada Dia, mas a história é bem ritmada e ganha impulso narrativo conforme os vários tópicos aparentemente não relacionados se aproximam cada vez mais em um curso de colisão. O diretor Antonio Campos opta por um tom sério; os únicos exemplos de humor irônico podem ser encontrados na narração de Pollock. Os detalhes de época são impecáveis e o filme merece notas altas por seu estabelecimento perfeito de tempo e lugar.

O Diabo De Cada Dia é ousado em sua abordagem desse material ultra violento e triste. A produção resultante é envolvente, e nada convencional – é uma história bem contada cujo cenário evocativo e performances vivas se combinam para produzir um quadro sombrio e desolador.

5 pipocas!

Em cartaz na Netflix.

Swallow: distúrbio surreal

Considere o mármore. Considere a tachinha. Considere a pilha.

O escritor e diretor Carlo Mirabella-Davis pede ao público que considere a forma e a textura desses itens. O seu peso, e até o seu gosto. Cada um desses objetos, e outros, são ingeridos por Hunter (Haley Bennett, na sua impressionante estréia no cinema), a dona de casa problemática que é o centro de Swallow.

A premissa de Swallow é perturbadora o suficiente para um espectador assumir, é isso, esse é o filme. E isso é apenas a metade.

As reviravoltas são surpreendentes e, eventualmente, profundamente gratificantes, com uma performance fascinante de Haley Bennett que caminha em um território inesperado. Dirigido com confiança, é chocante considerar que esse é o primeiro longa-metragem de Mirabella-Davis. E é inusitado perceber que um filme que aborda diretamente a bagunça das expectativas femininas foi dirigido por um homem.

Em entrevistas, Mirabella-Davis revelou as maneiras pelas quais ele pessoalmente estudou as noções de gênero e as restrições nela contidas, tanto com os membros de sua família quanto com ele. A sensibilidade e a compreensão surgem neste retrato empático de uma linda mulher presa em uma bela prisão, onde sua única saída é engolir.

Hunter parece ter tudo: um casamento com o belo filho único de uma família indescritivelmente rica e uma mansão moderna à beira do lago. Seus dias são passados esbanjando saias e sapatos caríssimos, jogando Candy Crush e cuidadosamente preparando o jantar para o marido, esperando uma migalha de validação. Quando ela engravida, de repente ela é a posse mais valiosa da família, mas as agressões passivas continuam. Um dia, ela para para considerar o mármore, a tachinha, a bateria e a partir daí tudo segue ladeira abaixo.

Apesar do exterior perfeitamente projetado, o interior de Hunter se agita, não apenas pelos itens perigosos que ela engole, mas também pelos traumas geracionais que são arrancados dela, de dentro para fora. À medida que sua aflição aumenta, os médicos a diagnosticam como compulsiva e isso destrói seu casamento. Seu marido e sogros controlam ainda mais sua vida e a compulsão de Hunter fica mais forte.

O desempenho magistral de Bennett é absolutamente fascinante em sua pura fisicalidade. Suas bochechas parecem coradas de sol, e embora ela esteja hipnoticamente imóvel e equilibrada, são rápidas e espontâneas suas explosões de movimento que nos mantêm na beirada de nossos assentos.

O diretor de fotografia Katelin Arizmendi traz uma estética legal, limpa e altamente estilizada, iluminada com luz natural abundante. Emoldurada por esse luxo opressivo, Hunter, com seu cabelo loiro, voz calma e guarda-roupa anacrônico, é o acessório ou animal de estimação perfeito; preso atrás do vidro, paredes invisíveis a mantêm refém. Sob esse prisma, sua compulsão de engolir faz sentido como um pequeno ato secreto de autonomia corporal.

Há uma emoção de descoberta assistindo Swallow que lentamente se revela muito mais do que apenas um estudo de uma dona de casa entediada sofrendo silenciosamente com uma compulsão histérica. É um filme notavelmente rebelde, repleto de uma espécie de energia astuta e anárquica da qual se deseja beber avidamente enquanto se abre sua casca dura.

5 pipocas!

Blinded By The Light: o rock transcende barreiras

É um sinal do poder da cultura o fato de que vários grandes filmes foram lançados nos últimos anos para homenagear músicos de rock clássico, como Bohemian Rhapsody narrando Mercury e o Queen, Rocketman saudando Elton John e Yesterday relembrando os Beatles.

Agora é a vez do nosso Boss (Chefe em inglês): Blinded by the Light celebra a música magistral de Bruce Springsteen, um dos poetas mais prolíficos do nosso tempo.

Isso mesmo, um poeta.

O filme estreou em Sundance, inspirado na história verídica do jornalista britânico-paquistanês Sarfraz Manzoor, que escreveu artigos entusiasmados sobre Springsteen, incluindo um livro de memórias exclusivo “Saudações de Bury Park: Raça, Religião e Rock N ‘Roll”.

Passado em Luton, na Inglaterra em 1987, a história segue um adolescente britânico-paquistanês chamado Javed (Viveik Kalra), cuja vida muda quando seu amigo Roops (Aaron Phagura) o empresta uma fita cassete de Bruce Springsteen. Sua família e amigos muçulmanos não conseguem entender o que ele tem em comum com o cantor de Born in the U.S.A., mas ele insiste que há inspiração universal nas letras do Boss.

Muitos críticos de cinema traçaram paralelos entre o ator principal desse, Viveik Kalra, e a estrela de Yesterday, Himesh Patel, visto que ambos são atores britânicos charmosos de ascendência indiana estrelando um par de mistos musicais, mas é aí que as semelhanças param. Na verdade, esses são dois filmes muito diferentes, porém ambos ótimos por si só.

– Primeiro: Javed não é um músico esforçado, mas sim um aspirante a jornalista. Sim, ele contribui com letras ocasionais para seu amigo roqueiro Matt (Dean-Charles Chapman), mas ele quer principalmente escrever para o jornal da escola, estagiar no The Herald e estudar na Universidade de Manchester. Seu maior defensor é a professora Sra. Clay, interpretada por Hayley Atwell, aquela que foi a alma gêmea de Chris Evans na saga Vingadores, sabe?

– Segundo: Javed não entra em um mundo de fantasia como Yesterday, onde os Beatles de repente não existem. Em vez disso, ele existe em um mundo dolorosamente real, onde Springsteen é seu único raio de sol em meio a marchas neonazistas, grafites anti-muçulmanos, bullying no pátio de escola, russos invadindo o Afeganistão e a situação econômica de sua própria família durante a administração de Margaret Thatcher.

– E terceiro: um dos seus arcos de personagem não é apenas sobre amor, embora ele tenha uma química adorável com a estudante ativista Eliza (Nell Williams), cujos pais desaprovam que ela namore um muçulmano. É mais sobre seu relacionamento com sua família e a discussão com seu pai severo Malik (Kuvinder Ghir) e sua mãe subserviente Noor (Meera Ganatra).

Essa dinâmica familiar alimenta os rumos do filme, e esse é um tema comum para o diretor Gurinder Chadha, que nasceu no Quênia governado pelos britânicos durante a diáspora indiana antes de crescer para fazer filmes sobre índianos que viviam na Inglaterra. Seu exemplo mais famoso foi o aclamado filme Driblando o Destino de 2002, sobre uma jovem indiana que se esforça para jogar futebol como o astro britânico David Beckham.

Blinded by the Light representa uma história tão doce e fácil de se relacionar que merece ser vista, pelo menos, por qualquer um que tenha demonstrado um pouco de fé de que existe magia nas artes – seja na música, ou em um teatro.

5 pipocas!

Nada Ortodoxa: o radicalismo religioso não tá com nada

No meio do primeiro episódio de Nada Ortodoxa, a nova minissérie da Netflix em quatro partes sobre a fuga de uma mulher de dezenove anos de idade de sua comunidade hassídica no Brooklyn, vemos o cabelo real da protagonista pela primeira vez.

Shira Haas, uma atriz israelense, interpreta Esty Shapiro (abreviação de Esther) que, em determinada cena metafórica reveladora fica na beira do Großer Wannsee, um grande lago coberto de areia no sudoeste de Berlim, a cidade para a qual ela fugiu. É um dia ensolarado de verão e todas as jovens brincam de maiô. Esty, por outro lado, ainda está vestida com sua gola alta, saia preta na altura da panturrilha e uma peruca marrom que usava como nova esposa em Williamsburg. As mulheres hassídicas casadas não devem mostrar seus cabelos em público; elas também não deveriam nadar com homens. Quando Esty finalmente entra na água – ainda completamente vestida – ela tira suas madeixas sintéticas, revelando um couro cabeludo cortado por baixo e seu mergulho na água parece um sacrilégio e um batismo de libertação dos pecados.

Nada Ortodoxa é baseado nas memórias de Deborah Feldman, que deixou a seita Satmar de judeus hassídicos em Williamsburg para se estabelecer em Berlim. E Feldman consultou os criadores do programa para garantir que a representação da comunidade insípida hassídica fosse a mais precisa possível.

As cenas de Nada Ortodoxa que mostram Williamsburg são principalmente em iídiche – e prestam atenção nos pouco convincentes rituais da vida hassídica. Para que você tenha a mínima noção, em um flashbacks da noite do casamento de Esty, com o reservado e infantil Yanky, vemos um desfile de homens com chapéus de peles de shtreimel liderando o noivo. Já a noiva, está de olhos fechados com um véu opaco, semelhante a uma tenda, que cobre sua cabeça durante toda a cerimônia. E ainda vemos homens e mulheres dançando separadamente com uma cortina pálida pendurada entre eles. Os primeiros momentos dos noivos sozinhos só dura 7 minutos. Mais tarde, Esty chora quando sua tia raspa seus longos cabelos castanhos dourados. Momento triste após uma festa fria.

Esse aspecto quase documentário de Nada Ortodoxa pode parecer gratuito ou esquisito, mas nos mostra como o radicalismo é aprisionador.

Nada Ortodoxa tem uma narrativa hollywoodizada: seja nO vôo de Esty do Brooklyn para Berlim nos dá a sensação de um suspense; ou na perseguição de gato e rato de Yanky e seu primo malandro Moishe.

Enquanto Esty flutua de costas no lago Wannsee, lá no inicio da série, você pode sentir como é para ela ser medrosa e ao mesmo tempo livre.

5 pipocas!

Em cartaz na Netflix.

Pacto de Fuga: a maior fuga da história do Chile

Uma página dupla de tablóide com a fotografia de uma mulher seminua que se autodenomina Papaya Dorada é o caminho para a salvação de 49 presidiários da Cadeia Pública de Santiago em 1988. Eles são presidiários da Frente Patriótica Manuel Rodríguez (FPMR) e do Partido Comunista (PC) e, um ano e meio depois de sua prisão, serão as estrelas da maior fuga em massa da história do Chile por meio de um túnel cavado com uma chave de fenda.

A impressão colorida da moça num jornal cobre o buraco no teto onde os presos políticos guardam sujeira e pedras desde que decidem fazer o túnel.

Não demora muito para que os próprios presos percebam que o plano de fuga inicial deve mudar. Dos cento e poucos propostos originalmente por León Vargas e Rafael Jiménez, apenas metade deverá conseguir. Eles terão que escolher entre os mais próximos e os mais confiáveis. E para ajudar mais ainda, um terremoto que quase desabou o túnel de 70 metros de comprimento por 70 centímetros de diâmetro acelera o plano de fuga.

Essa obra de 135 minutos é estrelado por Benjamín Vicuña como Léon Vargas e Roberto Farías no papel de Rafael Jiménez, os dois líderes da operação de fuga, conhecida como “Operación Exito”. Ambos são ativos no FPMR e apresentam feridas que nunca cicatrizam. Não só fracassaram no ataque a Pinochet em 1986, uma das razões de sua condição de presos políticos, mas também têm uma vida pessoal semi-estilhaçada ou simplesmente inexistente: Vargas teve sua família morta e Jiménez foi deixado por sua esposa Militante comunista como ele.

O filme é uma ficcionalização baseada em acontecimentos reais e nenhum dos nomes corresponde aos reais. É provável que algumas cenas não correspondam à fotografia exata do ocorrido, mas o diretor David Albala já disse em outras ocasiões que Pacto de Fuga é um filme de suspense e ação sustentado por uma contingência na qual é inspirado. Quer dizer, a ficção aqui sempre impera.

Pacto de Fuga tem um pouco mais inibido seu significado político e é, antes de tudo, uma narrativa das relações humanas, com lealdades e traições em meio a uma convivência difícil.

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Dark Waters: o lucro importa mais que a vida?

É surpreendente ver o diretor Todd Haynes se interessar por um projeto de investigação ambiental, afinal, ele é um pioneiro do novo cinema Queer (voltado às questões LGBTQI+) com preferência por melodramas exuberantes como Longe do Paraíso (2002) e Carol (2015).

Dark Waters é sobre a lenta e horripilante descoberta de que a empresa química DuPont, por décadas, escondeu seu uso do PFOA ácido, produzido pelo homem, causador de câncer – e que agora se acredita estar presente na corrente sanguínea de 99 por cento de toda criatura viva do planeta. Incluindo seres humanos. Felizmente, para a grande maioria, está em um nível muito baixo para causar danos, porém, aqueles que trabalham no cerne da produção da DuPont ou vivem nas proximidades de suas instalações não tiveram tanta sorte.

O filme mostra todo o trabalho de Robert Bilott (Mark Ruffalo), um advogado de Cincinnati que passou da defesa de empresas químicas para liderar a acusação contra suas práticas corruptas. Dark Waters começa quando Bilott é abordado por Wilbur Tennant (Bill Camp com uma voz cansada e sufocada pela serragem), um fazendeiro vindo do estado natal do advogado, West Virginia. Tennant insiste que a DuPont despejou resíduos químicos em seu riacho local e, por sua vez, matou 190 de suas vacas. E enquanto Bilott investiga as acusacões, a extensão medonha das ações da empresa se mostram cruéis – eles empurraram veneno para todos os lares americanos por anos sem serem descobertos. Assim, quando fica claro que Bilott pretende expor a verdade, o sorriso desaparece do rosto do presidente-executivo da DuPont (Victor Garber) e uma carranca colérica toma seu lugar. Esta empresa está pronta para usar todos os truques sujos na manga.

Mark Ruffalo não apresenta Bilott como o herói, mas sim, como um homem que foi despertado para o mundo da decência moral, apenas para ser recompensado com impotência e raiva ineficaz. Uma parte de sua missão é motivada pela lealdade às suas raízes de cidade pequena, e seus inimigos logo usam isso como uma arma contra ele, rotulando-o de “um caipira”.

Dark Waters mostra-nos um mundo de ganância inescrupulosa e cheiros pútridos – uma espécie de purgatório terreno. Um cachorro repleto de tumores perseguindo o próprio rabo no quintal, cheio de raiva: é o retrato da sujeira da indústria.

5 pipocas!

Em cartaz na Amazon Prime Video.