Mulan: remake leal, corajoso e verdadeiro

Considero Mulan um estudo de caso fascinante em termos de refazer um filme com base no material original existente. Dependendo de como você cresceu com a história, você pode se identificar mais com o conto popular chinês ou mais com o clássico icônico da Disney.

Essa dualidade torna este remake live-action difícil de revisar pois alguns amam mais o conto original e outros preferem a versão Disney/1998.

Digo que é difícil no sentido de que uma grande parte de nossa expectativa já foi amplamente moldada por algo que foi ocidentalizado. No filme de animação de 1998, Mulan passa por uma “jornada de herói”, onde ela cavalga para a guerra e treina no caminho para se tornar uma grande guerreira ao lado de seus companheiros – um enredo clássico contado com um pano de fundo chinês. Porém o conto de Mulan original a retrata como uma mulher já hábil na luta, que já aprendeu tudo de artes marciais, combate com espada e arco e flecha, mas deve escondê-lo devido ao seu status social e, claro, por ser mulher. Na verdade, ela se tornou general e liderou o exército chinês por 12 anos, sem que ninguém soubesse que ela era uma mulher até que ela mesma revelasse a verdade.

Este Mulan de 2020 é uma tentativa corajosa de recontar o conto popular original. Isso joga fora o alívio cômico americano. Isso joga fora as canções pop. Essencialmente, ele remove tudo que o público ocidental conhece. Esse Mulan nos desafia a encontrar algo novo para apreciar, e funciona muito bem.

Entre algumas ​​adaptações, Mulan mantém sua premissa básica – Hua Mulan (Liu Yifei) é uma jovem corajosa que toma o lugar de seu pai e se apresenta como um homem para servir ao exército chinês, na esperança de derrotar os invasores de Rouran do Norte (agora liderados por Bori Khan em vez de Shan Yu).

Esta versão está muito mais interessada em momentos de auto-reflexão da personagem. É fácil transmitir a jornada de uma pessoa treinando e desenvolvendo suas habilidades e espírito de luta necessários; porém é muito mais difícil – e francamente, muito mais interessante – quando a pessoa já tem essas coisas, mas algo a impede. Com isso, vêm grandes mudanças fundamentais nos personagens.

Uma delas é sobre o pai de Mulan, Hua Zhou, interpretado pelo grande Tzi Ma. Tudo o que posso dizer é que o filme oferece a ele mais cenas com sua filha, permitindo-nos sentir ainda mais o amor de Mulan por seu pai e sua família. Isso permite que alguns momentos próximos ao final do filme sejam sentidos de uma maneira totalmente nova. E todas essas performances dos outros personagens são absorvidas e internalizadas por nossa estrela, Liu Yifei, que pra mim foi a escolha dos sonhos para Mulan. Ela vende a turbulência interna de Mulan em esconder a verdade e ser incapaz de mostrar ao mundo quem ela é, e ao mesmo tempo, ela comanda a tela com uma força tão elegante e importante.

Mas a verdadeira adição à história que salva a luta interna de Mulan de se tornar repetitiva é a introdução de Xian Lang (Gong Li), uma poderosa bruxa que muda de forma, para servir como seu contraponto. A relação entre Mulan e Xian Lang, as duas principais personagens femininas da trama, é tão fascinante que gostaria que mais do filme fosse sobre elas.

 

Mulan também se beneficia de aparecer na tela com uma gama deslumbrante de cores e atenção aos detalhes. Os designs de cenário e figurino alcançam um bom equilíbrio entre historicamente precisos e fantasiados como um mito. E mesmo com a maior parte da atenção do filme voltada para o drama humano, Caro oferece o suficiente dos grandes cenários de ação que esperamos em um remake live-action de Mulan. No geral, as cenas de ação destacam o admirável valor de produção do projeto. Atualmente é o filme mais caro já feito por uma diretora, e eu acredito que isso fica evidente. Cada local é bem executado com sua própria estética de cor distinta, e a ação que acompanha cada local é filmada e montada de forma coerente sem muita edição.

Com tanta atenção aos detalhes históricos e dedicação para ter um elenco totalmente asiático, eu quase queria que todo o Mulan fosse falado em mandarim.

Aqui, os produtores deram um grande passo em direção ao que era a lenda original, enquanto ainda mantinham a clássica celebração ocidental da individualidade e aceitação de si mesmo, e a capacitação emocional ainda funciona. Quando Mulan finalmente solta o cabelo e, metaforicamente e literalmente, tira a armadura, é o momento mais triunfante do filme. É a Mulher Maravilha cruzando a Terra de Ninguém. É o sabre de luz voando na mão de Rey. É a história que envolve a heroína, pois a heroína finalmente aceitou quem ela é.

Este Mulan, no papel, é uma história fundamentalmente diferente da versão de 1998 e pode atrair menos espectadores, pois o conflito é muito mais interno do que antes, mas o filme tem sucesso no que se propõe a fazer. A longo prazo, a versão de 1998 ainda sobreviverá a este remake, mas para mim, isso não é importante. O importante é que a juventude de hoje agora tem dois filmes distintos e emocionalmente estimulantes para crescer vendo.

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Il Processo: crime misterioso

Em Il Processo, como toda boa série de investigação, tudo começa com um assassinato. A descoberta do corpo da adolescente Angelica faz com que a promotoria pública italiana entre no caso. Quem assume as investigações é a promotora Elena Guerra. No entanto, ninguém sabe que ela tem uma ligação muito direta com a vítima. Se souberem, ela pode ser desligada do caso. Dessa forma, ela mantém segredo sobre o assunto.

Ao mesmo tempo, ela tem problemas conjugais: o marido Giovanni mora em Nova York e eles estão em crise. Ainda assim, ela precisa trabalhar e focar na situação. As pistas acabam levando a Linda Monaco, uma mulher da alta sociedade que é indiciada como principal suspeita do crime.

Para defendê-la no julgamento, Linda contrata Ruggero Barone, um advogado brilhante e que tem uma bela ficha de casos ganhos. Entretanto, ele acaba se envolvendo com a sua cliente de uma forma não muito recomendável. Ruggero acaba amarrado à história de Linda, ao mesmo tempo em que precisa provar que ela é inocente. Será mesmo que ela não tem culpa?

Nos 8 episódios de Il Processo, vemos um desfile de testemunhas que hora corroboram com a tese de que Linda é culpada mas, em outros momentos, aparece algo que coloca a tese em dúvida. Essa confusão prende o espectador até o final: afinal, quem matou Angelica?

O mais interessante em Il Processo é a forma como os personagens são desenvolvidos. Em determinado momento, a história principal — o julgamento — acaba eclipsado por um competente estudo de personagens. Cada um deles tem uma história paralela em desenvolvimento, nos fazendo pensar mais em seus destinos do que no julgamento em si.

Isso não quer dizer que Il Processo não tenha um enredo envolvente. Toda a história do assassinato e do julgamento poderia segurar a série tranquilamente. A opção, no entanto, foi mostrar ao espectador quem são aquelas pessoas que realizam o embate no tribunal. Cada uma delas tem seus problemas e precisa lidar com outras batalhas fora do ambiente do tribunal. São ótimos personagens.

Para que isso aconteça, é bom ressaltar o elenco coadjuvante. Não fosse por eles, Il Processo não teria tanta força. A construção desses personagens é muito bem feita, e conforme os episódios vão passando, isso fica evidente. Há o pai de Elena, um ex-juíz moralista. O marido de Linda. O ex-amor de Elena. São essas variações no roteiro que fazem com que a história ganhe nossa atenção nos detalhes, diferente de outras produções.

Il Processo é toda montada em cima de dois pontos de vista: o de Elena e o de Ruggero. A direção faz questão de ressaltar isso ao mudar até mesmo o formato de filmagem para cada uma dessas visões. Por isso, a série alterna entre o 16:9 e o 35:1 — uma de ângulos mais abertos, outro mais fechados.

Por mais que “séries de tribunal” não caiam sempre no gosto popular, vale a pena assistir Il Processo. Por ser uma série antológica, tem um final fechado e bastante satisfatório. É um excelente passatempo para a quarentena.

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Em cartaz na Netflix.

O Jardim Secreto: remake digno de aplausos

O romance clássico de Frances Hodgson Burnett, O Jardim Secreto, tem sido uma das histórias favoritas da indústria do cinema e da TV. Dar vida a ela em tela vem sendo comum por várias gerações desde sua publicação em 1911 e, embora a maioria tenha tido uma recepção super positiva, nenhum delas realmente procurou se separar do material de origem ou oferecer variantes exclusivas ou diferentes das adaptações anteriores. Marc Munden foi inovador e suas mudanças provam ser uma boa reviravolta na história.

A história deste remake se passa na Inglaterra durante um novo período, agora em 1947 e segue Mary Lennox (Dixie Egerickx), uma menina inglesa criada na Índia que, após a morte de seus pais devido a uma doença, vai viver com seu tio em uma mansão isolada. Inicialmente, parece perturbada com a perda de seus pais, a mudança no estilo de vida e os cuidadores desatentos porém, Mary descobre um jardim mágico na propriedade de seu tio que traz uma luz brilhante para a casa escura.

Uma das coisas mais legais sobre essa última adaptação do romance de Burnett é que, embora mude uma série de pontos da trama da história, todos eles não apenas permanecem no espírito do trabalho original, como também ajudam a elevar alguns de seus temas como a perda, o crescimento e a empatia. A evolução de Mary e sua conexão com o jardim é contada de uma forma convincente, graças a uma mistura de flashbacks e diálogos importantes. Embora possa ser um pouco parado para alguns espectadores mais jovens, a estrutura dessa história realmente parece uma maneira muito mais criativa de contar a história do que uma adaptação direta e é ainda mais reforçada pela bela direção de Munden. Com uma combinação de edição artística, paletas de cores requintadas e CGI incrível, cada tomada deste filme é certamente uma obra de arte para ser vista.

Enquanto Mary corre pelos corredores deprimentes da mansão sombria e pelas terras expansivas que a cercam, o script de Thorne encontra uma maneira de permanecer fiel ao material de origem ao mostrar Mary como um terror mimado e obstinado na mansão.

Um dos aspectos mais importantes do romance é a amizade de Mary com seu primo doente Colin (Edan Hayhurst) e o menino da aldeia Dickon (Amir Wilson) e como eles se ajudam a evoluir ao longo da história. O filme nos entrega doces momentos para provar que Mary sente que esses dois existem no mundo para ajudá-la a superar seus traumas e defeitos caprichosos.

Muito do desenvolvimento de Colin parece em linha com o de Mary na tela. Ambos são retratados como crianças bem-humoradas que só precisam de um ponto brilhante em suas vidas para superar sua solidão e tristeza, e que aprendem a mudar passando tempo uns com os outros no jardim. O desenvolvimento emocional visto na tela é notavelmente eficaz, principalmente graças à incrível atuação da jovem Dixie Egerickx no papel principal, bem como as fortes atuações de Amir Wilson e Edan Hayhurst. Egerickx dá vida a essa visão diferente de Mary de maneira maravilhosa, encontrando uma maneira de fazer uma transição brilhante entre a natureza emocionalmente endurecida e amarga de seu personagem para o lado imaginativo e esperançoso dela.

O Jardim Secreto ainda resume muito bem o espírito do romance icônico de Burnett e prova ser uma adaptação comovente e charmosa, com algumas boas torções nas mangas. Ele nos guia através da tragédia e da dor com um nível de maturidade que nos mostra esperança, magia e capacidade de encontrar o nosso caminho novamente.

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Disponível no iTunes.

El Robo del Siglo: o maior roubo da Argentina

É fácil imaginar que depois do que aconteceu em 13 de janeiro de 2006 na cidade de Acassuso, na grande Buenos Aires, mais de um diretor teria desejado fazer um filme sobre isso. Na ocasião, 5 homens realizaram um dos golpes mais incomuns já imaginados, roubando com sucesso uma agência do Banco Río com um plano mestre que enganou completamente as autoridades. Eles pegaram cerca de US $ 25 milhões e, embora tenham sido pegos, não ficaram muito tempo atrás das grades porque ninguém se feriu. No fim, as forças policiais ainda encontraram um bilhete no cofre do banco com um poema inspirado na mensagem deixada por outro assaltante num roubo na França. Assim, esse se tornou um dos roubos mais famosos do mundo, e o líder e ideólogo do golpe, Fernando Araujo, co-escreveu o roteiro do filme El Robo del Siglo.

Te asseguro, claro, o filme tem as licenças criativas esperadas para formar a tensão que qualquer história de roubo exige. Na adaptação dirigida por Ariel Winograd, parece que a polícia estava prestes a prender os ladrões, quando na verdade eles já haviam escapado por um buraco três horas antes de os agentes entrarem no banco. Nesse sentido, a adaptação cumpre os elementos de um clássico filme de assaltos, agregando-lhe o carisma inato de dois grandes atores como Guillermo Francella fazendo Mario Vitette Sellanes e Diego Peretti, interpretando o próprio Araujo. Não é um filme como qualquer outro visto antes e é extremamente divertido. Aqui Winograd consegue mesclar os diferentes tons com astúcia, sem se afastar de uma narrativa convencional, e com alguns ajustes que dão sabor à história.

Quando já está a todo vapor, o filme ainda faz algumas pausas para voltar no tempo e contar como eles estavam planejando o que vão mostrar. As pausas não obstruem a história, mas acrescentam informações pertinentes que dão um novo tom às cenas que se seguem, à medida que o filme continua.

O diretor Ariel Winograd claramente se inspira em alguns títulos semelhantes de filmes de Hollywood, clássicos e mais contemporâneos, como O Plano Perfeito (2006) de Spike Lee, o qual ele fez parte como membro da produção. O que torna seu trabalho superior ao mencionado, e se compara mais com outros filmes do mesmo gênero, como 11 Homens e 1 Segredo (2001) de Steven Soderbergh, é a sua ótima manipulação do humor, um gênero com o qual ele jogou muito no passado. Aqui ele se aproveita ao máximo de seus dois atores principais, que elevam o material a um nível muito competente, sem nunca serem cliches ou óbvios, e cujas interações constituem grande parte da comédia do filme. De um lado temos Peretti como o mentor do roubo; um simples professor de artes marciais, pintor e defensor do uso da maconha para atingir seus “estados de cannabis” de concentração. E por outro lado, temos Francella como Luis Vitette, que investiu seu próprio dinheiro e experiência como ladrão com a promessa de não ter que fazer mais pequenos roubos, como os que vinha cometendo até então.

Apesar de não ser uma novidade, El Robo del Siglo é uma grande adição ao gênero assalto pela forma como seus diferentes componentes se encaixam, sendo acompanhados por uma seleção musical popular de primeira linha. Certamente outras pesquisas ou trabalhos do tipo documental já terão contado melhor esse acontecimentos – o que é normal quando se trata de adaptações de fatos criminosos reais – mas o filme é quase uma homenagem a essas cinco figuras que provaram que com uma boa criatividade, nada possui limites de aplicação.

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Little Fires Everywhere: colisão de duas famílias

Little Fires Everywhere (Pequenos Incêndios em Todo Lugar) da Amazon Prime Video, de fato, começa com um incêndio. O drama se inicia com uma casa pegando fogo – “Haviam pequenos incêndios por toda parte”, diz um bombeiro, explicando que isso fora feito intencionalmente – o que configura o mistério central que flutua no pano de fundo da série de oito episódios. Mas, é claro, aqui também há fogos metafóricos fervendo por toda parte em muito mais drama.

Little Fires Everywhere, baseado no best-seller de Celeste N.G. de mesmo nome em 2017, ocorre no subúrbio afluente de Shaker Heights, Ohio. É Elena Richardson (Reese Witherspoon) que está em sua casa no momento do incêndio; e sua filha adolescente Izzy (Megan Stott), é que muitos assumem ser a jovem incendiária. A partir daí, a história volta alguns meses para quando Mia Warren (Kerry Washington), uma artista e mãe solteira, e sua filha adolescente Pearl (Lexi Underwood), chegam pela primeira vez em Shaker Heights. Elena chama a polícia quando as vê dormindo em um carro e, mais tarde, parte da culpa de ter feito isso resulta em alugar um lugar para as Warren. Há uma sensação desconfortável na maneira como Elena decide “ajudar” esta família negra; e por isso, não demora muito para que ela peça a Mia para trabalhar essencialmente como empregada – o que Elena vê como um favor a ela, e esclarece que a vaga significa, na verdade, “gerente da casa”, ou seja o que isso for.

Como você pode imaginar, Little Fires Everywhere preocupa-se fortemente com questões de classe e raça, e uma parte generosa da série entende bem como retratar esses assuntos tensos – especialmente através das lentes da maternidade. Mia e Pearl têm uma relação mãe & filha adorável e realista, na qual elas se amam profundamente, mas também batem cabeça constantemente. A grande fonte de tensão entre elas é a frequência com que se mudam. Pearl só quer ter uma vida normal e estável em um lugar só, mas Mia está sempre pronta para ir embora e recomeçar. É uma luta compreensível. Mia e Pearl também entram em conflito por causa da insistência de Pearl em ficar na casa dos Richardson com os filhos de Elena: Izzy, a pária rebelde que é agressiva e intimidada na escola; Moody (Gavin Lewis), que é gentil e imediatamente receptivo com Pearl (e que definitivamente tem uma queda por ela); Lexie, uma versão em miniatura de Elena que busca a perfeição e tem um relacionamento cada vez mais tenso com seu namorado negro; e Trip (Jordan Elsass), o atleta popular que constantemente só possui sexo como prioridade.

Existem razões compreensíveis pelas quais Mia não quer que Pearl faça amizade com os Richardsons – e muitas dessas, é claro, têm a ver com orgulho e não querer se sentir como um caso de caridade – mas ela está dividida entre proteger sua filha ou deixá-la ter uma vida que a faz feliz. E à medida que o destino das Warren e dos Richards ficam cada vez mais entrelaçados, Elena começa a investigar o passado de Mia e ao mesmo tempo, as crianças se tornam mais próximas e suas respectivas filhas começam a confiar nas mães uma das outras. Assim, a tensão só aumenta, chegando rapidamente a um ápice.

Em Little Fires Everywhere aprendemos desde cedo que cada uma dessas mulheres fez escolhas e fez sacrifícios. Cada uma delas tem seus próprios fardos e, tudo o que acontece aqui não pode deixar de ser inflamado pela questão racial. E as relações mãe-filha, o cerne deste drama, são sempre complicadas e nunca exatamente o que parecem.

5 pipocas!

Disponível na Amazon Prime Video.

37 Segundos: a sexualidade da pessoa com deficiência

Um ato de equilíbrio entre dependência e autodeterminação caracteriza a história de Yuma Takada (Mei Kayama) contada em 37 Segundos, um filme da diretora Hikari que ganhou o Panorama Audience Award em 2019. O filme começa com uma cena de Yuma no trem em Tóquio, com a cabeça na altura das virilhas de outro passageiro. Quando ela sai do trem, ela é revelada em uma cadeira de rodas – Yuma tem paralisia cerebral. Quando ela chega em casa, ela e sua mãe (Misuzu Kanno) tomam banho juntas. Este momento de ternura captura o melhor do intenso cuidado entre as duas, cujas complexidades se tornam mais aparentes ao longo do filme, enquanto a tomada de Yuma na altura do quadril prenuncia o foco do filme em sua curiosidade sexual emergente. Isso é algo que vai atrapalhar seu relacionamento com sua mãe protetora.

Yuma é uma talentosa artista de mangá. Ela trabalha para sua prima, a Srta. Sayaka (Minori Hagiwara) – mas fica claro que ela está explorando-a e levando todo o crédito por seu trabalho. Um empresário até encoraja a Srta. Sayaka a se declarar como tendo uma assistente deficiente, sugerindo que isso a tornaria mais popular, mas ela se recusa, saboreando assim sua fama sozinha. Conforme isso continua, aumenta sua dependência de Yuma. Ao mesmo tempo, Yuma começa a enviar seus quadrinhos para outras publicações em seu próprio nome mas, é rejeitada repetidamente, pois “seus desenhos se parecem muito com os da Srta. Sayaka”. Ficando sem opções, ela telefona então para uma publicação de hentai (quadrinhos eróticos) que está ansiosa para atrair mais leitoras do sexo feminino. Quando ela chega ao escritório com seus desenhos, uma editora, interpretada por Yuka Itaya, pergunta com suspeita se ela já fez sexo: uma pergunta que provavelmente não era feita a outros artistas “normais”. Enfim, quando Yuma diz que nunca fez, a editora responde “Achei que sim” e pede que ela volte quando tiver mais experiência sexual.

Assim começa o experimento sexual de Yuma. Ela tenta conhecer homens online e marca encontros com muitos estranhos. Mas, o candidato mais promissor eventualmente confessa: “Nunca pensei que me sentiria confortável com pessoas com deficiência”, e embora diga que é aberto e pareça sincero, não aceita tirar sua virgindade – mesmo assim o encontro a deixa animada. Como já estava arrumada e no centro da cidade, Yuma decide pegar o que veio buscar e contrata um trabalhador do sexo. Mas nada foi tão “didático” quanto ela imaginava. Ele chega dizendo a ela que cobra extra para meninas em cadeiras de rodas, se recusa a beijá-la quando ela pede educadamente e vai embora com nojo, dizendo que ele não pode “levantar”. A cena é incrivelmente dolorosa de assistir pois o tratamento que ele dá a Yuma é horrível.

Só que quando Yuma sai do seu quarto no motel, ela finalmente conhece alguém gentil: ao vê-la se esforçando para descer no prédio inacessível, uma mulher acompanhando um homem que também usa uma cadeira de rodas oferece a ela uma carona. A mulher (Makiki Watanabe) é uma assistente sexual; muitos dos clientes dela são deficientes, e assim ela se torna uma mentora de Yuma, cujos modelos femininos até agora são uma mãe super protetora e uma prima exploradora. Sua orientação é recebida de uma mulher experiente e versada nas diversas necessidades das pessoas com deficiência que discute a sexualidade livremente.

A mãe de Yuma a acha muito vulnerável para namorar e nem mesmo permite que ela use vestidos quando sai de casa sozinha. A voz de Yuma é suave e seus movimentos limitados, e como esses atributos sugerem incapacidade, os outros constantemente presumem que ela seja passiva e fraca, e não uma mulher crescida. A mãe de Yuma também acha que o sexo seria perigoso para ela, nunca considerando que poderia ser prazeroso ou desejável.

O experimento sexual de Yuma é motivado não só por seus próprios desejos, corpóreos ou românticos, mas também pela oportunidade e vontade de se tornar profissionalmente independente.

37 Segundos mostra que o que Yuma tem que superar é em grande parte a internalização de suposições capacitistas impostas a ela por seus familiares, e não por suas próprias limitações reais. O título do filme sugere que os trinta e sete segundos pelos quais Yuma não respirou ao nascer definem toda a sua história, mas ela pode colorir esse quadro. Yuma pôde aprender assim a explorar o mundo e a si mesma, com a ajuda de novos amigos, indo além dos limites que sua família impôs a ela. Inclusive, em busca de intimidade sexual, ela encontrou também uma série de relacionamentos íntimos não sexuais: com a assistente sexual, com um cuidador e até com parentes separados.

Depois de tanta aventura Yuma também entendeu que os impulsos superprotetores da mãe eram motivados pelo cuidado: um cuidado que ela precisa e aprecia. Mas agora, ela aprendeu a definir esse cuidado em seus próprios termos, o que exige que sua mãe reconheça seu livre arbítrio. Ela prova para a mãe que pode se vestir e se banhar e, finalmente, prova á editora que vale a pena publicar seus quadrinhos, mesmo que não sejam sexuais. Em outras palavras, ela mostra àqueles que duvidam dela por sua incapacidade de assimilar que sua maneira alternativa de fazer as coisas também é valiosa, e que um amor que permite o espaço para falhar e se machucar pode ser tão doce quanto tomar um banho.

5 pipocas!

Em cartaz na Netflix.

Perry Mason: um clássico revisitado

Perry Mason é uma minissérie em oito partes que é uma reformulação drástica de um dos primeiros clássicos da TV americana. Se trata de uma nova abordagem da série de tribunais. Desta vez, o icônico advogado de defesa é interpretado por Matthew Rhys de The Americans. Diz a lenda que o programa original apresentou muitos ingredientes inesquecíveis, começando com sua música tema que era imponente e séria. Porém, essa nova versão é muito diferente e igualmente muito boa.

O show é baseado nos romances de Erle Stanley Gardner. Neles, Perry era severo, conservador e fechado. Ele e sua equipe jurídica, a secretária Della Street e o investigador particular Paul Drake, raramente eram vistos em casa, apenas no trabalho – ninguém sabia do lado particular dos personagens como nesta nova abordagem. Gardner havia sido advogado por 20 anos antes de escrever o primeiro de seus 80 romances de Perry Mason.

O primeiro dos seis filmes de Perry Mason veio em 1934, mas foi a série de TV, mais do que qualquer outro meio, que glorificou Perry Mason como um drama de tribunal de excelência. Perry enfrentou o promotor público, Hamilton Burger, em todas as vezes e quase nunca perdeu um caso. E, normalmente, o caso era ganho quando Perry fazia uma testemunha ceder durante o interrogatório e, naquela primeira geração da TV, esse tipo de fórmula confiável era reconfortante e muito popular. E Perry Mason apresentou e aclimatou uma nação inteira de espectadores a termos de tribunal anteriormente desconhecidos como objeção, anulação e convocação para o júri.

Já este novo Perry Mason reimagina o material original de forma agressiva e eficaz. Algumas mudanças são feitas para dar aos personagens não apenas profundidade, mas maior relevância para a nova geração. Agora Paul Drake é um policial afro-americano casado que lida com o preconceito dentro e fora da área. Ele é interpretado por Chris Chalk. Já Della Street, interpretada por Juliet Rylance, é uma secretária, lésbica e tem aspirações para uma carreira própria no tribunal. Quando a conhecemos, ela está trabalhando para um advogado veterano chamado E.B. Jonathan, interpretado por John Lithgow, que não apenas apoia a iniciativa dela, mas também tenta ajudar Perry, um filho de amigos da família. Este novo Perry Mason é tudo, menos conservador ou bem-sucedido. Ele está morando fora de Los Angeles, na fazenda decadente que seus pais lhe deixaram quando morreram. A fazenda está em más condições, então E.B. aparece para lhe oferecer um trabalho potencialmente lucrativo de detetive particular.

Assim, quando o drama de Perry Mason começa, seu herói é um detetive, e não um advogado. E ao longo desses oito episódios, conforme um caso central do assassinato se desenvolve e vai a julgamento, as estrelas começam a se alinhar. Matthew Rhys interpreta os dois extremos de seu Perry Mason perfeitamente – o taciturno e o inconformista de tantos filmes noir, bem como o orador emocional de convocações para o júri.

O mistério de toda a temporada de Perry Mason gira em torno de uma imagem assustadora: um bebê morto com os olhos costurados abertos, vítima de um sequestro que dá terrivelmente errado. Mason tem a tarefa de descobrir quem matou o bebê e por quê, e o rastro de pistas o leva até o submundo da Cidade dos Anjos, que está repleta de policiais sujos, esposas traidoras e advogados arrogantes. A história oferece muitos tópicos de trama intrigantes para classificar … e mais do que alguns visuais horríveis ao longo do caminho.

Sinto que devo oferecer um aviso: este é um programa pesado e intenso; é impecavelmente trabalhado e surpreendentemente envolvente, no entanto, equilibrando os elementos do crime e investigando profundamente a psique perturbada de Mason. E para os fãs mais obstinados que seguirem, eventualmente evoluirá para um drama de tribunal que esperamos da marca. Quase parece a história da origem de um super-herói, com Mason mostrando dicas do advogado de defesa que ele viria a ser.

5 pipocas!

Em cartaz na programação da HBO e na HBO Go.

The Head: isolados no gelo

Em Ninguém Quer a Noite de 2015, a diretora Isabel Coixet já alertava:
quando a luz se apaga no Ártico, não são apenas as sombras que aparecem, mas também nossas verdades mais profundamente enterradas.

The Head é uma série dirigida por Jorge Dorado, a partir de um roteiro escrito pelos irmãos Álex e David Pastor. Nela se usam cenários nevados e gelados, do outro lado do globo, para construir um espetáculo de seis episódios, que giram em torno de mistério, terror e isolamento.

Essa série é para aqueles de nós que sofreram a mesma coisa em primeira mão ultimamente – sendo trancados em vossas casas por meses, graças à uma sangrenta pandemia – The Head fornece algum consolo, porque percebemos aqui que as coisas poderiam ser bem piores.

The Head começa com uma festa animada com a intenção de se despedir de alguns dos trabalhadores da estação de pesquisa polar que está voltando para seus países de origem – por sorte, no último dia de sol. Entre eles está o comandante Johan Berg (interpretado pelo dinamarquês Alexandre Willaume), cuja esposa Anikka (sua compatriota Laura Bach) ficará para trabalhar nesta remota tundra durante os meses sombrios de inverno que estão por vir. A escuridão será a única opção por meses.

Então, meses depois, quando o sol começa a brilhar mais uma vez, Berg retorna à base científica, preocupado porque não tem notícias de sua esposa há dias. Mas, para sua surpresa o que ele encontra é um mórbido e horrendo caminho de sinais inexplicados de violência, além de vários cadáveres e uma dos membros da equipe – a doutora Maggie (atriz escocesa Katharine O’Donnelly) – em um estado desastroso tanto emocional quanto mental. Só tem ela pra explicar toda a confusão agora.

– O que aconteceu?

É a partir daí que começa a investigação.

A garota começa a falar mas, não sabemos se ela está falando a verdade, é claro. O processo de juntar os pedaços do que aconteceu a essa equipe de dez seres humanos isolados na Antártica durante os meses de escuridão, acontece com a ajuda de constantes flashbacks. Ao entrelaçar o passado e o presente, além das memórias de felicidade conjugal dos protagonistas – que às vezes se mostram um pouco profundas e reveladoras, a estrutura dos primeiros episódios desta série é gradualmente construída.

– Quem teria e qual seria a motivação de assassinar todas as pessoas dali?

A vida na inóspita Antártida já rendeu muitas boas histórias. E esta é uma dessas.

5 pipocas!

Disponível na Globoplay.

Destacamento Blood: retorno ao Vietnã

Quando se trata de um filme de Spike Lee, seria tolice esperar uma zona livre de política. Lee é um cineasta ativista e nunca fingiu o contrário. Ele faz filmes que divertem e educam, mas, o mais importante, ele tenta desafiar. Alguns argumentaram que ele fala apenas para o público negro, mas eu argumentaria que ele está igualmente interessado em ser ouvido por telespectadores brancos. O problema é que alguns têm noções preconcebidas sobre Lee e sua mensagem e não estão dispostos a ouvir ou, se o fizerem, não querem ouvir..

É possível “superar a política” e só apreciar o filme?

Possivelmente não, porque os dois estão entrelaçados. Mas é possível assistir ao filme de uma perspectiva oposta e estar envolvido mesmo assim.

A Netflix tornou o lançamento de Destacamento Blood oportuno, pois chega como se fosse o destino final em um ponto de interrogação cultural, quando pessoas de todas as raças estão se engajando em um diálogo significativo sobre os mesmos temas raciais que o filme aborda. Esse foco não é um novo território para Spike Lee. Ele toca este tambor há décadas e, é raro um de seus filmes não se aprofundar em questões de relações raciais.

Destacamento Blood começa como um olhar pensativo – embora não necessariamente introspectivo, sobre como os soldados negros percebiam a Guerra do Vietnã através das lentes de meio século que se passaram desde seu auge. No olho da tempestade, era tudo sobre sobreviver e proteger os irmãos. Mas, a ironia amarga da experiência ficou clara: soldados negros estavam lutando e morrendo em um país estrangeiro por uma terra natal que os desvalorizava como pessoas e cidadãos. O filme oferece uma estatística reveladora: 11% da população dos Estados Unidos, por volta de 1970, eram negros, mas cerca de 35% dos homens que lutavam no Vietnã eram negros.

De cara Lee mostra o início dos anos 70 com uma série de sequências de flashback que lembram a Guerra do Vietnã pra nos botar a par do que será a aventura. Já a parte moderna da narrativa nos apresenta quatro sobreviventes do Vietnã: o jovial Melvin (Isiah Whitlock Jr.), o pensador Otis (Clarke Peters), o discreto Eddie (Norm Lewis) e o bravo e agressivo Paul (Delroy Lindo). O motivo do retorno ao país é localizar os restos mortais de seu capitão, Stormin ‘Norman (Chadwick Boseman) e recuperar um baú de barras de ouro da CIA que eles descobriram e esconderam na época da Guerra. Acompanhando os quatro soldados que retornam, está o filho de Paul, David (Jonathan Majors). Para ter sucesso em sua busca os soldados tem o auxílio de locais que de cara não parecem tão confiáveis assim – Tien (Le Y Lan), uma ex-prostituta que se relacionava com Otis; o útil guia turístico Vinh (Johnny Tri Nguyen) e um “empreendedor” estrangeiro (Jean Reno). No caminho ainda conheceram uma francesa idealista, Hedy (Melanie Thierry), envolvida na remoção de minas terrestres.

Quanto mais fundo entramos no filme, fica mais claro que isso é uma homenagem a filmes como Apocalypse Now, que é explicitamente referenciado aqui.

Destacamento Blood se utiliza de uma montagem que lembra as lutas pelos Direitos Civis da década de 1970. Vemos Muhammed Ali, Martin Luther King e Malcolm X, entre outros e em itálico Lee apresenta seu argumento: a hipocrisia dos homens negros que travam a guerra da América no Vietnã, enquanto seus irmãos dos EUA lutam para ter igualdade de condições em sua própria casa.

Para os flashbacks, Lee opta por não descartar os atores. Nas cenas antigas eles mesmos interpretam seus personagens como se fossem mais novos. Não tem nada de efeitos rejuvenescedores. Para ajudar a diferenciar as cenas da época da guerra e as que acontecem nos tempos modernos, Spike Lee muda as proporções da tela. O material da década de 1970 é apresentado 33: 1, enquanto que o material da década de 2010 é em 35: 1.

Os temas e as mensagens de Destacamento Blood são entregues com o poder de uma marreta, e a narrativa geral foi feita para chocar. O roteiro é redondo e repleto de artifícios que mudam o tom para melhor nos explicar seu argumento.

Este é um trabalho de paixão e raiva, e transmite pontos no subtexto que provocam uma resposta emocional e intelectual na gente que assiste.

Lee está pregando para o seu público? Não, ele prega para a sociedade. A sociedade que deve mudar pra melhor. Dando uma chance ao filme será difícil você discordar das coisas que Lee está dizendo, independentemente de sua raça, credo ou cor.

5 pipocas!

Em cartaz na Netflix

Adú: drama que une 3 histórias na África

Novo na Netflix, o filme espanhol Adu é um melodrama épico que une três histórias na África. É o segundo longa do diretor Salvador Calvo que teve sua estréia no drama com o ótimo longa de 2016, Os Últimos das Filipinas, que mostra possuir uma interessante narrativa. Em Adú usa a mesma fórmula.

– Conta logo quais são essas histórias, Pedroka.

Primeiro lhes dou um detalhe. Sem spoiler. Todas as histórias vão se conectar, de um jeito ou de outro; se liguem.

Melilla é uma cidade espanhola situada no Marrocos. Lá Tatou (Emilio Buale) é um dentre muitos numa grande multidão de imigrantes que tentam escalar a cerca da fronteira, ele está preso em um arame farpado e sangrando. Três guardas civis, Mateo (Alvaro Cervantes), Miguel (Miguel Fernandez) e Javi (Jesus Carroza) correm para o local; dois deles escalam a cerca na tentativa de libertar Tatou. Porém uma briga se segue. Miguel bate em Tatou com um cacetete, e Tatou cai para a morte.

Esse é o drama número 1. Lembrem-se da fronteira.

Enquanto isso, um pouco longe dali, existe uma reserva natural nos Camarões, perto de Mbouma. Pelas redondezas, Ali (Zayiddaya Dissou) e seu irmão mais novo Adu (Moustapha Oumarou) andam de bicicleta pelo caminho da selva, mas param quando ouvem alguns tiros. Eles rastejam pelo mato e testemunham caçadores furtivos mechendo em um elefante recém-morto para serrar suas presas e provavelmente vender as mesmas. Os caçadores avistam as crianças e as perseguem porém sem sucesso. Só que a noite, retornam com a intenção de silenciar os irmãos permanentemente. Por sorte, Ali e Adu escapam mas a mãe deles é morta. Começa aí a dura jornada de Adú.

Esse é o drama número 2. Lembrem-se da bicicleta.

Na mesma reserva nos Camarões, Gonzalo (Luis Tosar) fica cada vez mais enojado com as ações dos caçadores. Ele é um preservacionista rico e arrogante que têm direitos sob a propriedade de uma organização de caridade. Quando localiza o elefante morto sem as presas, Gonzalo também acha a bicicleta de Ali e Adu e dá de presente para a sua filha Sandra (Anna Castillo), que talvez tenha por volta de 18 ou 19 anos. As tensões são perigosas entre Gonzalo e os outros guardas florestais, e eles o expulsam do parque. Assim, ele volta para casa em Yaoundé enquanto briga frequentemente com Sandra, que está amarga por causa de seus longos afastamentos como pai.

Essa é o drama número 3. Lembrem-se das presas do elefante.

Com uma investigação e um processo judicial em andamento sobre a morte de Tatou, Mateo pondera se deve dizer a verdade sobre as ações de Miguel ou se mantém sua história combinada. Já Ali e Adu – que talvez tenham 10 e cinco anos, respectivamente – seguem em uma viagem transcontinental em direção a Paris, para encontrar o pai, se escondendo no compartimento do trem de pouso de um avião de passageiros. E Gonzalo está preocupado com a propensão de Sandra a ficar acordada a noite toda usando drogas nas festas.

Assim o filme segue destrinchando as histórias que se conectarão em certo ponto.

Adu é uma versão narrativamente reduzida de filmes como Babel, Magnolia, Crash: No Limite e outros, com várias histórias que precisam inevitavelmente se cruzar.

Teremos aqui também uma performance que vale a pena assistir. De vez em quando, um jovem ator que nunca vimos antes exibirá uma presença considerável na tela com aparentemente pouco esforço. Esse ator é Moustapha Oumarou como Adú. Nosso envolvimento emocional com o filme depende de sua capacidade de transmitir naturalmente emoções simples como inocência e desespero.

Salvador Calvo e o roteirista Alejandro Hernandez não demonstram interesse em inventar profundos sentimentos em Adú sem sentido. Tudo que acontece tem uma razão no destino dele. A história de Adu é a coisa mais eficaz do filme. Está repleto de perigos, separações e ansiedade sobrevivencialista. Inclusive é importante citar que, por sorte, o bem cruza o caminho de Adú. Ele conhece um adolescente fugitivo chamado Massar (Adam Nourou), que cuida dele como um irmão, e sua amizade explode com calor e vibração quando o resto do mundo não lhes oferece nada. Suas aventuras nascem de uma necessidade angustiantes e triste, porém iluminadas por pequenas vitórias. Se os outros dois tópicos da trama tendem a drama, a saga de Adu torna o filme muito mais digno de ser visto.

Adú é um mini-épico maravilhosamente fotografado, pensado e cativante.

5 pipocas!

Em cartaz na Netflix.