Palm Springs: o novo Feitiço do Tempo

Lembrem-se: no clássico de Harold Ramis, em 1993, Groundhog Day (Dia da Marmota ou Feitiço do Tempo no Brasil), o Phil de Bill Murray faz tudo sozinho. Ele é o único condenado a repetir o mesmo dia, PARA SEMPRE, enquanto os habitantes de Punxsutawney e a produtora de Phil – e eventual interesse amoroso, Rita (Andie MacDowell) e seu cinegrafista Larry (Chris Elliott) estão alheios a seus papéis na viagem espiritual de Phil.

Seria loucura discutir sobre o inteligente, charmoso e engraçado Palm Springs sem notar a influência óbvia do Feitiço do Tempo, mas existem variações no tema principal porque Nyles, de Andy Samberg, não é o único repetindo o mesmo dia em um loop contínuo. Bem, ele ficou sozinho por centenas e centenas de dias, mas agora ele tem uma companhia, após arrastar inadvertidamente uma estranha chamada Sarah (Cristin Milioti) para o vórtice – e posso dizer que Sarah não está feliz com isso e essa afirmação é o mínimo pra descrever sua reação.

Como em Feitiço do Tempo (e em No Limite do Amanhã e em A Morte Te Dá Parabéns e em Boneca Russa), Palm Springs é uma comédia/drama com um toque metafísico, mas essa fórmula raramente foi explorada com tanto sucesso assim.

Esse é um dos filmes mais engraçados do ano e também um dos filmes mais românticos, graças ao toque certeiro do diretor Max Barbakow, as performances imensamente encantadoras de Andy Samberg e Cristin Milioti e também por ter um ótimo elenco de apoio liderado por J.K Simmons, Peter Gallagher e Camila Mendes. Este é um daqueles filmes em que parece que os cineastas e os atores se divertiram tanto quanto nós fazendo o filme.

Na verdade, Palm Springs já começa com Nyles de Samberg preso nas mesmas 24 horas – um sábado, 9 de novembro, o dia do casamento de Tala (Camila Mendes) e Abe (Tyler Hoechlin). Nyles está lá como a sua namorada, Misty (Meredith Hagne), uma modelo irritantemente consumidora do Instagram que acorda Nyles, relutantemente concorda em fazer sexo com ele e depois interrompe o ato porque ela “não quer borrar sua maquiagem no grande dia”.

Isto acontece todo dia. Toda manhã.

A primeira vez que vemos Nyles andando pela elegante recepção do casamento ao ar livre, fica claro que ele, em algum nível, chegou a aceitar e até abraçar sua situação inexplicável de loop infinito. Ele está vestido com um shorts amarelo inadequado, uma camisa havaiana brilhante e adora chocar os convidados e os funcionários com o quanto ele sabe sobre suas vidas. Em meio a isso é que entra Sarah: a irmã mais velha da noiva, que reage bem mal a ser presa no ciclo do tempo e previsivelmente tenta escapar da armadilha dirigindo centenas de quilômetros para sua casa em Austin – apenas para acordar novamente no hotel na manhã do casamento.

Samberg e Milioti têm uma química perfeita, pois seus personagens brigam, brincam e reclamam, mas acabam formando uma aliança e, é claro, consideram até uma possibilidade de romance. Nyles perdeu a esperança de quebrar o feitiço ou mesmo tentar entendê-lo; porém Sarah estuda Física Quântica em busca de uma solução do mundo real. Ela inclusive se questiona: “isso é uma coisa de karma?”.

Palm Springs é um voo de fantasia deliciosamente romântico com sal suficiente para evitar que você se entedie e uma história que prova que há espaço para mais filmes com a premissa de Feitiço do Tempo.

5 pipocas!

Em cartaz na Hulu.

Greyhound: na adversidade a gente luta

Greyhound é um filme interessante: um thriller da Segunda Guerra Mundial que não aspira ser ganhador de vários Oscar porém nos prende. A maioria das produções realizadas sobre o início da década de 1940 – mesmo aquelas feitas por diretores de grande sucesso – têm durações tão inchadas quanto suas ambições grandiosas. Greyhound, no entanto, é uma experiência mais precisa e íntima – um relato dos movimentos e contramedidas executados pelo capitão do USS Keeling (codinome de Greyhound) durante uma travessia do Atlântico Norte no início de 1942. Limitando o desenvolvimento do personagem a um mínimo – de suas crenças religiosas e seu desejo de se casar com sua namorada, o comandante Ernest Krause (Tom Hanks) é uma personalidade majoritariamente genérica militar. Mas, suas ações de combate, no entanto, que são apresentadas em detalhes, são tudo menos genéricas – são estratégias calculadas.

Empregar um ator com a simpatia inerente de Hanks oferece um atalho útil para estabelecer a identificação do público. A reputação de Hanks preenche muitos dos espaços deixados no roteiro, “enganando” o público a pensar que saberemos mais sobre Krause do que o filme apresenta. Isso permite menos cenas de histórico, fazendo com que o filme entre na história mais rapidamente.

Greyhound é um filme apresentado da perspectiva daqueles a bordo de um destróier. A maioria dos dispositivos estilísticos esperados – a atmosfera claustrofóbica, o aumento da tensão, e as ondas de perigo – estão presentes, mas, em vez de os personagens serem confinados em um longo tubo de charuto, eles ficam presos em um barco que flutua pelas ondas, procurando espiar por baixo da superfície e identificar algum perigo à espreita.

Embora não seja estritamente baseado em eventos históricos específicos, Greyhound se inspira nos incidentes da vida real da Batalha do Atlântico, conforme detalhado no romance de 1955 de C.S. Forester, The Good Shepherd. Ao destilar a essência do livro de 270 páginas em algo adequado para um filme, o também roteirista do longa, Tom Hanks, decidiu se concentrar nos elementos de combate. Os vários navios têm tanto caráter quanto os homens que os controlam. Já o “vilão”, um submarino alemão chamado Gray Wolf, é representado por uma voz sem corpo.

Para Krause, um oficial da Marinha em sua primeira missão em guerra, a missão é guiar um comboio de 37 navios aliados do outro lado do Atlântico até Liverpool. Além do USS Keeling de Krauss, o grupo de acompanhantes é composto pelos destróieres britânicos HMS James (Harry) e HMS Victor (Eagle) e o canadense HMCS Dodge (Dickie). Uma vez que os navios entram no “Poço Negro”, a parte do oceano onde não há cobertura de proteção aérea, eles se tornam vítimas de submarinos alemães. Depois de sair vitorioso após o primeiro encontro com o inimigo, Krause descobre que eles atraíram a atenção de uma “matilha” e, como em qualquer caçada, ocorre um jogo de gato e rato com os atacantes escolhendo membros aleatórios do comboio aparentemente à vontade.

Quem quer um filme de guerra impecavelmente detalhado ou algo rico em desenvolvimento de personagens não o encontrará aqui – ele é mais inclinado para curtir na Sessão da Tarde. Inclusive, para quem deseja aprender mais sobre o fictício Krause, o romance citado The Good Shepherd preencherá essa necessidade – está escrito inteiramente da perspectiva dele.

Greyhound é um exemplo simples de um tipo de filme de guerra mais antiquado, focado numa batalha. O roteiro de Hanks é um exemplo de narrativa econômica, porém o resultado final são 75 minutos emocionantes.

5 pipocas!

Em cartaz na Apple TV+.

The Old Guard: a imortalidade em discussão

O conceito de imortalidade não é um material novo para histórias em quadrinhos ou ficção científica/fantasia, mas a seriedade com que ela é tratada em The Old Guard é atípica. O filme, baseado na série de graphic novel de Greg Rucka e Leandro Fernandez, não usa simplesmente a imortalidade como base do super-heroísmo de seus personagens, mas explora as desvantagens da condição: a infindável quantidade dos anos que se passam, a solidão de não ousar se aproximar de outra pessoa, a dor de ver amados envelhecer, morrer. Para um mortal, a morte é algo a ser temido e evitado. Para um imortal, é algo a ser almejado, perseguido e abraçado.

A Old Guard (Velha Guarda) é basicamente um quarteto de imortais que se uniram com o louvável objetivo de tentar, da melhor maneira possível, fazer a diferença para o bem na trajetória da história. De dentro para fora, eles não têm certeza do seu sucesso e, como resultado, há dúvidas em sua missão. Do lado de fora, o ex-analista da CIA Copley (Chiwetel Ejiofor), que acompanhou dolorosamente suas pegadas através da história moderna e antiga, não vê essa incerteza – para ele a missão funciona e muito.

Andy (Charlize Theron) é a mais antiga do grupo. Além dela,veremos os amantes Joe (Marwan Kenzari) e Nicky (Luca Marinelli) que se juntaram a ela na época das Cruzadas; e Booker (Matthias Schoenaerts) que é do século XIX. No momento, eles estão sendo caçados por um cruel CEO da Big Pharma, o cara mau chamado Merrick. Merrick recrutou Copley sob falsos pretextos. Copley vê isso como uma oportunidade para ajudar a humanidade, mas Merrick vê principalmente lucro. Enquanto isso, o quarteto tem outros problemas. Eles não apenas descobriram a existência de outra imortal – uma fuzileiro naval chamado Nilo (KiKi Layne) que misteriosamente não morre quando sua garganta é cortada, como também já perceberam que Andy está mostrando sinais alarmantes de perder sua capacidade de regenerar e continuar vivendo. Imortais podem morrer sim quando o seu tempo acabar. Isso já aconteceu uma vez antes e pode estar acontecendo novamente. Além disso, Andy é assombrada pela sentença proferida à sua melhor amiga, Quynh (Van Veronica Ngo), durante os julgamentos das bruxas de Salem.

The Old Guard combina a inteligência de um conto dramático de ficção científica e fantasia bem escrito com a ação e a aventura de um filme de grande orçamento.

As cenas de ação têm as qualidades superproduzidas e a coreografia frenética de Atômica (que Theron fez em 2017). A diretora Gina Prince-Bythewood é capaz de manter um fluxo suave, incorporando material de apoio e desenvolvendo nos relacionamentos interpessoais. A qualidade que Prince-Bythewood incorpora às histórias menores baseadas nos personagens dá maior profundidade à The Old Guard.

A atuação forte de todos os cinco atores principais – Theron, KiKi Layne, Marwan Kenzari, Luca Marinelli e Matthias Schoenaerts – permite que as principais instâncias da química se incendeiem. Isso inclui a relação mentora/aluna entre Andy e Nilo, o romance de séculos entre Joe e Nicky e a amizade alegre de Andy e Booker. Theron dá a Andy muita multidimensionalidade – o peso dos séculos a desgastou e criou profundas cavernas de insegurança dentro dela. A culpa por duas perdas pessoais devastadoras e todas as vidas que ela teve que levar a fazem ansiar pela paz que lhe foi negada.

A expressão mais palpável do que significa ser imortal é fornecida por Booker quando ele explica a Nile por que ela não pode entrar em contato com sua família. Ele menciona seus dois filhos e, sem ser específico, detalha o que acontece quando um ente querido seu se sente traído por ele não poder morrer. Igualmente convincente, embora por razões diferentes, é a descrição de Andy do destino de Quynh: sua localização é desconhecida, ela foi presa em um caixão de ferro subaquático, afogando-se repetidamente a cada minuto por 500 anos. É o tipo de tormento horrível que apenas um imortal pode experimentar e prova que às vezes viver para sempre pode ser o pior tipo de maldição.

A Old Guard, como convém a uma adaptação cinematográfica de uma história em quadrinhos tem um sabor de equipe de super-heróis. Embora o filme apresente um capítulo relativamente completo de uma saga mais longa, os tópicos pendentes sugerem parcelas futuras, ou seja, uma sequência. Se as sequências forem feitas com a mesma mistura igual de narrativa baseada em personagem e ação chocante, o The Old Guard poderá representar a próxima franquia para nos animar.

5 pipocas!

Em cartaz na Netflix.

Babyteeth: romance de uma garota adolescente com câncer

A dor de crescer nunca desaparece neste drama adolescente australiano silenciosamente eletrizante chamado Babyteeth (dente de leite).

Embora seja fácil revirar os olhos para a narrativa quase corriqueira familiar com a qual Babyteeth trabalha – a adolescente doente terminal se apaixona pelo cara errado – de alguma forma consegue evitar a maioria dos clichês de gênero, graças a uma mentalidade que não tem medo de ser confuso, frustrante e, às vezes, sombriamente cômico.

A adolescente terminalmente doente aqui é Milla Finlay (Eliza Scanlen), uma adolescente de 16 anos que luta contra o câncer constantemente procurando viver sua vida sem as restrições de seu diagnóstico. Seus pais,Henry (Ben Mendelsohn), e Anna (Essie Davis) são tão amorosos e solidários quanto podem, mas, fora dos cuidados diários de Milla, há mais de uma série de problemas borbulhando na superfície do ser de Milla.

Um dos problemas, inclusive, é que Henry é psiquiatra e trata a própria esposa – enchendo ela de remédios pra superar a dor da doença de Milla.

Em um encontro descontrolado que quase resulta em Milla sendo acidentalmente empurrada nos trilhos de trem, Moses (Toby Wallace) literalmente colide com ela. Em qualquer outro filme, Moisés talvez fosse iluminado por uma luz desejável, mas aqui ele está metido com drogas e vestido aos trapos com um rabo de rato – nem de cavalo é. Ele é essencialmente um sem-teto e, e como aprendemos, não é altamente confiável, porém há algo em sua sinceridade que ilumina Milla, puxando-a para fora do torpor que ela anteriormente sucumbiu.

Seja um ato rebelde contra os costumes da classe média alta ou uma atração genuína – suspeitamos que seja um híbrido de ambos – Milla convida imediatamente Moses, de 23 anos, a entrar em sua vida doméstica, para grande desgosto dos pais que não compreendem; uma das sequências de destaque do filme é o primeiro jantar “em família”, onde Anna, sob a influência de qualquer coquetel de drogas que recebeu do marido, não esconde sua descrença por Moses.

Embora exista muita frustração com o quanto Milla está apaixonada por Moses – o roteiro escrito por Rita Kalnejais geralmente mostra a ingenuidade de Milla – assim entendemos a necessidade de sua energia caóticae, graças a uma interpretação forte e muito humana de Toby Wallace, somos incapazes de odiar Moses tanto quanto queremos. Há uma doçura em sua performance, e é por isso que entendemos por que Henry e Anna aparentemente permitem sua posição na vida de Milla.

 

Já Eliza Scanlen é maravilhosa em um papel que, nas mãos de uma atriz menor, poderia ter sido exagerado em tragédia ou preciosidade. E Ben Mendelsohn e Essie Davis são pais que nos levam pra dentro da casa. Por mais fortes que sejam, ainda são vulneráveis: os dois navegam organicamente pelas águas não testadas tentando não romper o relacionamento da filha. Individualmente, eles compartilham momentos com Moses que revelam quão profundo é seu amor por Milla, indo contra os instintos dos pais e abraçando-o, sabendo que ele é o que fará com que ela lute para permanecer viva.

Babyteeth tem muita ressonância emocional e mordida rápida para justificar o investimento. E além de seus ingredientes estelares, o fato de um filme australiano, encabeçado, escrito e dirigido por mulheres (Shannon Murphy) estar recebendo um lançamento de destaque é motivo suficiente para comemorar.

5 pipocas!

Burden: uma história que nunca foi tão apropriada

Baseado em uma história verdadeira surpreendente e complexa, Burden é um filme que aparece no momento mais apropriado. Depois de George Floyd, a problemática racial nos EUA e no mundo está nos holofotes até hoje e não parece ter fim. No Brasil, o Movimento Julho das Pretas, em sua oitava edição, trás o lema: Em defesa de vidas negras, pelo bem viver.

Em 1996, Michael Burden era um jovem que morava em Laurens, na Carolina do Sul. Ele tinha um emprego como repositor, e estava em meio a demolição e construção do que parecia um estabelecimento comercial comum a principio. E ainda nos é apresentado o seu vínculo intenso e estreito com um homem e a sua família que o criou como seu filho. Como quase todo mundo que ele chamava de amigo, Burden também era um membro totalmente inserido na Ku Klux Klan.

Porém, a vida de Burden chega a uma crise quando ele conhece Judy, uma mãe solteira da qual ele foi encarregado de recuperar uma televisão para ser a garantia de um aluguel atrasado. Os dois entraram rapidamente em um relacionamento, com Judy e seu filho se tornando a família que Burden talvez estivesse desejando a vida toda.

Judy sentia repulsa pelo racismo o qual Burden e seus amigos representavam. Tornou-se óbvio para Burden que ele teria que escolher entre a KKK e seu novo amor. E Burden escolheu Judy. Consequentemente a vida ficou difícil para os dois.

Agora ignorado por seus velhos amigos e ainda sofrendo da desconfiança por parte da população negra da cidade, Burden rapidamente se viu desempregado, despejado de seu lar de aluguel – imóvel que pertencia a membros da Ku Klux, e completamente sozinho.

O resgate de Burden veio na figura menos esperada: a de um pregador batista negro, o reverendo Kennedy, que acolheu ele e Judy em sua própria casa, encontrou um trabalho pra Burden e, eventualmente, inspirou sua renúncia à antiga vida e uma redenção gradual e contínua.

Sem essa escrita forte e um elenco poderoso, um filme como Burden poderia facilmente entrar em colapso com a modinha e o “mais do mesmo” autoconsciente. Porém, o escritor e diretor Andrew Heckler não trabalhou por 20 anos para fazer com que este filme fosse feito a toa. Seu roteiro é basicamente uma coisa inabalável, com muitos momentos em que você fica estremecido com a pura insensibilidade e ignorância que sustentam a pseudo-ideologia da Ku Klux Klan.

Temos aqui Garrett Hedlund como Burden, Forest Whitaker como o pregador Kennedy e Andrea Riseborough como Judy. Além do veterano Tom Wilkinson como o líder Klan singularmente repugnante que criou Burden e que agora planeja abrir um museu Klan na cidade.

Andrew Heckler teve uma formação excepcionalmente forte para dar vida a esta história.

Burden não é perfeito e ocasionalmente prega um pouco mais avidamente pro lado do coral anti-racista. Mas, nesse momento trágico da história americana, pareceu-me um filme válido e convincente que merece ser visto.

5 pipocas!

Contágio: premonição bizarra do cinema

A primeira dica é pra combinar com a pandemia e te ensinar a se proteger.

Atualmente no topo das paradas de downloads e streaming, Contágio (lançado em 2011) oferece uma visão do mundo em meio a um surto mortal de um vírus. Existem algumas semelhanças estranhas com nossa situação de coronavírus atual, e assisti-lo pode deixar você com uma sensação catártica de como as coisas podem acontecer nos próximos meses. O filme é uma obra de classe A, com o diretor Steven Soderbergh reimaginando o gênero de desastre famoso na década de 1970.

O elenco repleto de estrelas encontra seus personagens envolvidos em uma série de traços narrativos entrelaçados, enquanto todo mundo tenta lidar com o caos.

Claramente é um filme de referência para quem está em busca de respostas ou esperança.

O filme começa com Beth Emhoff (Gwyneth Paltrow) retornando de Hong Kong para casa nos subúrbios de Minneapolis. Inicialmente sentindo-se só resfriada, ela acaba rapidamente desenvolvendo febre e horas depois cai com uma convulsão na frente do marido Mitch (Matt Damon). Ao mesmo tempo, várias pessoas em Hong Kong sofrem um destino idêntico, enquanto um surto ganha força em Chicago, onde Beth esteve uma escala antes de voltar para casa. À medida que fica claro que um vírus mortal está em ação, a epidemiologista da OMS, Dra. Leonora Orantes (Marion Cotillard) é designada a encontrar a fonte da infecção.

Uma segunda vertente narrativa é a corrida pela cura. Trabalhando no Centro de Controle de Doenças (CDC), o Dr. Ellis Cheever (Lawrence Fishburne) envia a Dra. Erin Mears (Kate Winslet) para as linhas de frente da infecção, enquanto a Dra. Ally Hextall (Jennifer Ehle) tenta isolar o vírus em um laboratório, num primeiro passo para a criação de uma vacina, e ela recebe ajuda de um pesquisador externo da Universidade da Califórnia, Dr. Sussman (Elliot Gould).

Ainda há a narrativa das “autoridades que tomam decisões difíceis”: Cheever e seu chefe rabugento, Lyle Haggerty (Bryan Cranston), são vistos com frequência dando instruções à mídia e precisam conciliar seus deveres com o amor pela família, amigos e colegas.

Já Jude Law, entra com a narrativa da teoria da conspiração com um retrato bizarro de Alan Krumwiede, um blogueiro maluco com um terrível sotaque australiano que afirma que o CDC está mentindo e que ele tem uma cura para a doença. Enquanto todos esses tópicos se desenrolam, Matt Damon fornece a perspectiva do homem comum, isolado em sua casa suburbana e testemunhando o lento colapso da sociedade ao seu redor.

A configuração do filme contém quase que uma premonição. Soderbergh ilustra a propagação da doença exatamente como conhecemos hoje: doutores explicam que tocar o rosto com as mãos é um dos motivos da rápida disseminação. Outras imagens frequentes são de pessoas usando máscaras, prédios médicos criticamente lotados, ruas vazias e os mapas documentam o progresso da pandemia. Talvez a semelhança mais assustadora com a nossa situação real seja quando a investigação do CDC revela que o vírus passou para os humanos a partir de morcegos e porcos na China.

É um relato fascinante do bom, do mau e do feio comportamento que vem com as rápidas mudanças sociais. Além de Law – que parece completamente deslocado canalizando uma espécie de Julian Assange – o elenco é excelente.

Os trágicos flashbacks de Paltrow fornecem uma sensação estranha da vulnerabilidade que compartilhamos em uma vida social movimentada que já parece estranhamente distante hoje.

Escrito por Scott Z. Burns (que também escreveu O Informante para Soderbergh e Damon), a extensa pesquisa especializada que baseou a história ajuda Soderbergh a estabelecer uma sensação autêntica, quase documental.

Se Contágio não o convencer da necessidade de ficar em casa, não tenho certeza mais do que o fará.

5 pipocas!

Em cartaz na Amazon Prime Video.