Blow The Man Down: meninas “casca grossa” de verdade

A descoberta de um corpo nas margens de Easter Cove, uma cidade localizada no estado do Maine, quebra a aparente tranquilidade dos habitantes deste pequeno município. Essa vila de pescadores, por trás de suas paisagens pitorescas, esconde uma série de segredos que parecem ter ficado ocultos por vários anos sob a espessa camada de neve que cobre o seu entorno. O canto de um grupo de pescadores dá-nos as boas-vindas a esta típica cidade norte-americana que imediatamente exala uma certa masculinidade. A imponente figura de um marinheiro, erguida no centro da cidade, saúda todos os que por ali passam diariamente, e projeta um ar de virilidade. No entanto, as primeiras aparências costumam enganar e, embora os homens ocupem as principais posições de autoridade, na realidade estão longe de serem os reais governantes da comunidade.

Blow The Man Down (“Explodindo O Homem”) é o longa-metragem de estreia de Bridget Savage Cole e Danielle Krudy, que, além de dirigirem, também estão encarregadas de escrever esta divertida “dramédia” negra de uma perspectiva feminina. Um thriller que às vezes evoca Fargo, dos irmãos Coen, principalmente na forma como retrata os reais interesses de quem vive nessas pacíficas cidades norte-americanas. Uma história surpreendente e imprevisível que aos poucos vai nos mostrando a verdadeira face de seus habitantes, bem como os segredos que escondem por trás da fachada imaculada de seus chalés.

Depois de enterrar sua mãe, Mary Beth Connolly (Morgan Saylor) decide ir ao bar para afogar suas mágoas e escapar por um tempo dos constantes sermões de sua irmã Priscilla (Sophie Lowe). Lá, a garota conhece Gorski, um homem de aparência perigosa. Depois de mais alguns drinques, a noite termina em tragédia, então Mary Beth procura desesperadamente por sua irmã em busca de apoio. Embora as jovens decidam manter o que aconteceu em segredo, seu comportamento começa a despertar suspeitas entre os residentes de Easter Cove, principalmente de Enid Devlin (Margo Martindale), a dona do bordel da cidade e melhor amiga de sua falecida mãe. É assim que as duas irmãs acabam se envolvendo em uma série de escândalos que as levam a descobrir os círculos de influência e poder que existem na pequena comunidade.

Além de nos mostrar a dupla face desses povos que presumem um estilo de vida pleno de harmonia e felicidade, Blow the Man Down também é uma história que aproveita para acabar com aquelas tradições da cultura norte-americana que hoje se encarregam de oprimir e restringir direitos e liberdades das mulheres. É um conto hilariante e cheio de suspense que inverte papéis e estereótipos para nos mostrar quem tem a vantagem.

5 pipocas!

Disponível no catálogo da Amazon Prime Video.

A Dama e O Vagabundo: um remake acolhedor

A lista de filmes originais da Disney Plus ainda não é tão extensa nesse início, ontem, 17 de Novembro de 2020. Ainda não há previsão de estréia da Marvel ou Star Wars – então nessa nova opção de streamingo só está disponível um punhado de adaptações de livros pré-adolescentes como A Extraordinária Garota Chamada Estrela e Timmy Fiasco, a aventura no gelo com Togo e uma nova versão de A Dama e O vagabundo (Lady and the Tramp).

Como o remake live-action não interessou para as grandes franquias de cinema, que preferem épicos de super-heróis, a Disney Plus se prontificou a abrigar o filme no streaming como seu novo lar. A Dama e O vagabundo é o primeiro a fazer parte dessa experiência. Não é uma tradução fiel do clássico animado, porém um regresso nostálgico à era de ouro dos anos 1920.

Este remake não é pra ser como O Rei Leão, gerado por computador no ano passado. Aqui temos cães da vida real, que se sentam, balançam as patas e atacam sob comando. Nem é preciso dizer que eles são adoráveis, e pra melhorar, a pós-produção e os responsáveis pelo CGI usaram seus melhores recursos para dar a impressão de que eles estão falando e se emocionando como os humanos.

A Dama e O vagabundo mantém o esqueleto de seu clássico. Um casal amável, Jim Querido (Thomas Mann) e Darling (Kiersey Clemons), mimam sem parar sua cocker spaniel inglês Dama (Tessa Thompson). Ela tem sua própria poltrona, com sua própria almofada bordada, e o casal até a deixa dormir em sua cama sem questionar. Só que para a surpresa da cachorrinha, seu status pomposo foi repentinamente anulado pela chegada de uma bebê.

– Quando o bebê entra, o cachorro sai.

Foi o que alertou Vagabundo (Justin Theroux), em quem Dama, encontra uma estranha companhia: um cão de rua que se orgulha de seu estilo de vida de solteiro.

Um dia, o casal viaja e pede para uma tia, Sarah (Yvette Nicole Brown), que cuide da cadela. Mas ela odeia cães, e depois de uma grande confusão, ela a deixa fugir.

É um remake refrescantemente humilde, que nos presenteia com um passeio pela cidade de Savannah, no sul dos EUA, do ponto de vista de um cão (o original de 55 se passava no oeste). O diretor Charlie Bean, recém-chegado na indústria com o filme Lego Ninjago, sabe que uma ótima performance dos intérpretes pode dar vida a um filme, e Tessa Thompson e Justin Theroux foram perfeitamente escolhidos para esse fim – eles não apenas têm química natural, como também encontram pequenas maneiras de renovar seus personagens para o século 21. A Dama de Thompson é mais teimosa do que sua antecessora e com uma pitada de ignorância mimada; já o Vagabundo de Theroux traz uma aspereza a lá Harrison Ford ao papel. Pense nele como um Han Solo de quatro patas – cínico e cansado. Além deles, Ashley Jensen e Sam Elliott são confiantemente charmosos como Jaqueline, uma terrier escocês, e Faro, um sabujo velhinho.

É importante citar também a preocupação com o politicamente correto da nova versão. A Canção do Gato Siamês, famosa do desenho de 55 foi retirada depois de se tornar alvo de polêmica por ser considerada um retrato problemático da cultura asiática, já que os felinos foram retratados com os olhos muito puxados e com dificuldades de pronúncia. A suposta xenofobia foi substituída por uma cena onde dois gatos Devon rex invadem a casa de Darling e derrubam enfeites de valor inestimável das prateleiras. A direção também excluiu do roteiro insinuações das diferenças de classe social entre cada um dos animais. Em vez disso, revelou-se uma postura pró-adoção de animais que, nos lembra que todo cachorro tem valor e merece amor. Isso é melhor resumido no modo como o filme lida com a cena do espaguete, onde um garçom (Arturo Castro) e o dono de um restaurante (F Murray Abraham), correm para colocar uma toalha numa mesa, com velas e o menu para dois cães vadios e ainda cantam Bella Notte. É um momento genuinamente doce, vinculado ao cuidado com todas as criaturas.

Há algo de acolhedor nesta nova versão de A Dama e O vagabundo.

5 pipocas!

Disponível no Disney Plus.

O Gambito da Rainha: essa guria joga pra c@#$%&0!

Se eu te descrever O Gambito da Rainha (The Queen’s Gambit) como: série da Netflix sobre vício, obsessão, trauma e xadrez, o primeiro julgamento que virá à sua mente provavelmente será “não é emocionante”. Mas essa adaptação de Scott Frank do romance de mesmo nome, de Walter Tevis, sem sombra de dúvida, exige absolutamente o uso da definição “emocionante”. Ancorada por um roteiro principal magnético, atuação de classe mundial e linguagem visual impecável, essa é uma das melhores séries do ano.

E é também, em sua essência, uma peça de esportes inusitada, pois, convenhamos, quando foi a última vez que você se empolgou com xadrez?

Conhecemos Elisabeth Harmon ainda criança, com 8 anos (Isla Johnson), numa situação em que, inacreditavelmente, saiu ilesa fisicamente de um acidente de carro que matou sua mãe. Como não sabiam quem era o pai, ela foi enviada para uma escola cristã de órfãos. E lá, ela descobriu 3 coisas: uma amizade com Jolene (Moses Ingram), a dependência química por tranquilizantes e uma paixão pelo xadrez – incentivada pelo zelador da escola, Sr. Shaibel (Bill Camp) que a ensinou tudo no porão.

Quando ela finalmente deixa a escola, ao ser adotada por Alma Wheatley (Marielle Heller), leva junto, na mala, essas duas últimas descobertas, além de um monte de livros de xadrez, um ego implacável, um trauma inexplorado e uma quantidade considerável de auto-punição. Mas é o jogo que a impulsiona para o mundo, tornando-a uma lenda do xadrez, e também, cada vez mais, uma dependente de pílulas e álcool.

Agora com 15 anos, interpretada por Anya Taylor-Joy, Beth tem muito com que lidar. A personalidade dela a partir daí vai se tornando cada vez mais fascinante. Ganha glamour inebriante, vaidade, mas também vulnerabilidade quando não ganha. Grande parte da história depende de como Beth está – às vezes ela fica mais sozinha, e às vezes cercada por muitas pessoas.

Mas o foco é quase todo no xadrez. Meu Deus, o xadrez! Por ser uma óbvia boa história de esporte, as sequências de xadrez são todas elétricas e cada uma à sua maneira. Ou vai te fazer prender a respiração por não entender xadrez, ou provavelmente te levará às lágrimas por entender muito bem o jogo.

Eu sei muito pouco sobre xadrez, mas de alguma forma O Gambito da Rainha me convenceu que posso aprender e me deslumbrou de uma vez.

5 pipocas!

Em cartaz na Netflix.

Jovens Bruxas – Nova Irmandade: a realidade dos adolescentes

Um dos melhores filmes de adolescente da década de 90 foi Jovens Bruxas (The Craft de 1996), com Robin Tunney, Fairuza Balk, Neve Campbell e Rachel True, como um quarteto de marginalizadas em uma escola paroquial chique que descobrem seus poderes de bruxas e causam todo tipo de destruição. Foi como se As Patricinhas de Beverly Hills conhecessem Carrie, A Estranha, e causassem uma loucura sobrenatural, abordando questões como bullying racista, violência doméstica e a dinâmica de poder entre as “guangues” sociais de adolescentes.

Nesse Jovens Bruxas – Nova Irmandade veremos a clássica premissa de filmes de terror onde pais e filhos começam do zero em uma nova casa onde tudo será melhor. Eunice (Michelle Monaghan) é a mãe de Lily (Cailee Spaeny); elas têm uma química incrível e estabelecem imediatamente uma dinâmica mãe-filha poderosa e amorosa, como evidenciado por sua empolgação cativante cantando Hand in My Pocket da Alanis Morissette em sua viagem para uma nova vida.

Lily prometeu manter a mente aberta nessa nova jornada de entrar na vida do novo namorado da mãe, Adam (David Duchovny) que tem 3 filhos: Jacob (Charles Vandervaart), Isaiah (Donald MacLean Jr.) e Abe (Julian Gray).

Dizer que os primeiros dias de Lily na escola são um turbilhão é um eufemismo. Ela experimenta um momento mortificante de constrangimento, estilo Carrie e é provocada pelo valentão Timmy (Nicholas Galitzine). Porém ela recebe apoio das futuras “almas gêmeas”; Frankie (Gideon Adlon), Lourdes (Zoey Luna) e Tabby (Lovie Simone), 3 bruxas novatas que estão procurando por uma quarta, necessária para completar o quarteto de magia Ar, Fogo, Água e Terra, que aumentaria seu poder coletivo.

O roteiro nos entrega então as esperadas cenas de filmes do ensino médio nos corredores e nas salas de aula, as festas obrigatórias e claro, o crescente elemento sobrenatural das meninas aprendendo a dominar seus respectivos conjuntos de habilidades. Então o verdadeiro drama começa quando elas lançam um feitiço em Timmy que, se transforma em um cara genti e doce, e conta um segredo inesperado, fazendo com que Lily se interesse por ele.

Eu só sei que uma nova tempestade de bruxas está se formando por causa de Jovens Bruxas – Nova Irmandade. Uma pura loucura de confrontos internos está prestes a acontecer com as adolescentes e, nesse ponto devemos torcer para elas. Essa nova geração é absolutamente cativante e natural com seu senso de moda excêntrico, seu humor sofisticado e sua genuína força e coragem. Elas são uma força a ser considerada, mesmo que não possam sequer apagar uma vela do outro lado da sala.

5 pipocas!

Em cartaz nos cinemas!

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert: um amor, um tabu

Fazendo sua estreia na TV com A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert (The Truth About The Harry Quebert Affair), o cineasta francês Jean-Jacques Annaud adapta o popular romance de Joël Dicker, com o mesmo nome, para esta série misteriosa de 10 episódios.

Harry Quebert (Patrick Dempsey) é um renomado professor literário e famoso autor, e seu aluno e pupilo, Marcus Goldman (Ben Schnetzer) tem bloqueio de escritor e passa os dias enrrolando seus agentes que insistem para ele criar uma continuação do seu primeiro best-seller. Em busca de inspiração, ele viaja então para o Maine para se reconectar com seu antigo professor, Quebert. No entanto, as coisas se complicam quando Harry é preso pelo assassinato de Nola Kellergan (Kristine Froseth), uma adolescente de 15 anos, que desapareceu nos anos 70. Marcus, e mais tarde, o sargento. Perry Gahalowood (Damon Wayans Jr.), vão investigar profundamente a vida dos habitantes da cidade do Maine para descobrir o que realmente aconteceu no verão de 1975.

Marcus parece, de início, incrivelmente arrogante pelo seu sucesso, e começa o drama ainda indigno de nosso apoio como o protagonista. Até porque ele não tinha a obrigação de se meter e nem ganharia nada com isso, já que tinha alcancado seu status sozinho. Consideramos que Harry, o respeitado gênio literário, é um homem gentil e humilde, acusado de um crime que não cometeu. Ele é inocente e Marcus é o único que pode provar isso.

Conforme tudo se desenrola, Marcus se torna nossos olhos e ouvidos enquanto descasca as camadas do homem que ele pensava que conhecia. O show habilmente entra e sai do passado e do presente: pré e pós obra literário; pré e pós sumiço de Nola.

O relacionamento entre Harry e Nola é um tabu, mas é explorado de uma forma que normalmente não vemos na tela. Está errado? Sim. Mas é bem tratado aqui, e não usado apenas como uma tática de choque ou para uma exploração gratuita. A primeira interação deles – na praia com ela dançando na chuva – mostra que a atração é mútua e óbvia. Proibida, sim, mas nunca usada com um efeito doentio. É só um encontro de mentes, mais do que qualquer outra coisa.

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert contém reviravoltas e nuances que nunca nos deixa adivinhar ou suspeitar de nada – este é um verdadeiro thriller policial pra fãs de carteirinha. A série nunca deixa de permanecer cheia de suspense e atuações de primeira linha. É continuamente absorvente.

5 pipocas!

Em cartaz na Globoplay.

Convenção das Bruxas: uma travessura de Halloween

Todos nós idolatramos as histórias que amávamos quando crianças. Como muitas pessoas da minha idade, Convenção das Bruxas (The Witches) de Roald Dahl têm grande importância como um filme clássico da Sessão da Tarde, embora um tanto traumatizante para alguns. A adaptação de Nicolas Roeg de 1990 foi um terror inesquecível; seus sinistros efeitos especiais só podiam ser vistos com as luzes acesas. O desafio de adaptar uma história tão querida para essa nova geração é, portanto, nada invejável – e Robert Zemeckis se saiu bem pra mim.

Esta versão de Convenção das Bruxas muda a história da Inglaterra para o sudeste dos Estados Unidos, mantendo os principais pontos da trama. Um jovem órfão (Jahzir Bruno) vai morar com sua avó (Octavia Spencer), depois que seus pais morrem num acidente de carro mas, quando uma bruxa local se interessa por ele, eles fogem para um hotel de luxo sem saber que a conferência anual das bruxas está sendo realizada lá.

Aqui muitos dos detalhes trágicos do livro, o filme de Zemeckis poliu e pintou com glitter. Removeram a ideia dos pesadelos assustadores em crianças bagunceiras e inocentes, substituíndo por um único exemplo de uma garota sendo transformada em algo inusitado. Também deixaram de lado a metamorfose de Anjelica Huston em uma monstruosidade demoníaca – uma imagem que se gravou nos cérebros de uma geração. Muito da escuridão ganhou suavidade, algo pelo qual Dahl sempre sentiu que as crianças tinham necessidade.

Esta é uma travessura totalmente mais família, e muitos dos elementos novos funcionam bem. Octavia Spencer é maravilhosa como vovó, transformada de uma octogenária norueguesa fumante inveterada e durona em uma pessoa temente a Deus, cheia de calor e sabedoria popular. O estilo de seu personagem vale o divertimento. Anne Hathaway como a Grande Bruxa Mor tem quase o mesmo sucesso do outro. Ela dá tudo de si, destruindo o cenário com um sotaque europeu.

Não é difícil imaginar que Dahl teria aprovado essa versão açucarada. Convenção das Bruxas de 2020 lança um feitiço que é totalmente difícil de resistir, principalmente porque todos na tela parecem estar se divertindo muito. Pode não ter roubado o lugar do original em meu coração mas, esta foi uma introdução emocionante ao mundo de Dahl e um divertido presente de Halloween.

5 pipocas!

Em cartaz nos cinemas!

A Maldição da Residência Hill: uma casa que engole vidas

O LIVRO (leitura opcional)

Quando Eleanor Vance encontra pela primeira vez a mansão homônima no livro de 1959 de Shirley Jackson, A Maldição da Residência Hill (The Haunting of Hill House), ela parece consumi-la antes mesmo de Eleanor entrar. A casa é “vil”, ela pensa; “Está doente”. Ela paira sobre nós, “enorme e escura”, torcendo nosso estômago e esfriando o ar ao seu redor. Quando Eleanor está na varanda da Residência Hill, ela vê tudo “em volta dela com pressa”, envolvendo-nos, engolindo-nos inteiros.

Residência Hill é menos um lar e mais um ataque de pânico, uma névoa de ansiedade e pavor perturba o estado fisiológico das pessoas. Mas ansiedade não é novidade para Eleanor, uma mulher tímida de 32 anos que passou os últimos 11 anos cuidando de sua mãe inválida. Eleanor acha extremamente difícil falar com estranhos, e seus pensamentos negativos sobre si mesma permeiam o livro, que é contado quase inteiramente de sua perspectiva. Eleanor ficou sem raízes após a morte de sua mãe, e veio para Residência Hill durante o verão para ajudar o Dr. Montague, um investigador de fenômenos paranormais que acredita que a casa é mal-assombrada. À medida que o romance avança, é difícil discernir onde termina a escuridão da Residência Hill e onde começa a agitação pessoal de Eleanor.

A Maldição da Residência Hill é superlativo em muitos aspectos. É uma obra de ficção de terror – e Stephen King e Neil Gaiman concordam com isso. O romance é um modelo de como provocar um terror profundo sem nunca revelar um fantasma ou um monstro específico. Mas A Maldição é também uma investigação assustadoramente afiada da psique feminina, enraizada na vida protegida e internalizada de Eleanor e em sua mente cada vez mais fragmentada. Casas mal-assombradas são repletas de simbolismos: elas significam que as casas – lugares que deveriam ser santuários e abrigos – podem ser corrompidas. Eleanor tem sentimentos ambíguos sobre a Residência Hill e sobre comunidade versus solidão; o confinamento versus liberdade.

Shirley Jackson, a autora, que sofria de agorafobia e muitas vezes se sentia oprimida por seu papel como esposa e mãe, parece associar seu próprio relacionamento conturbado com o conceito de casa em sua história. A Maldição da Residência Hill é tão assustador que a ansiedade de Jackson satura suas palavras. O leitor permanece preso na mente de Eleanor enquanto ela se desenrola, sentindo seu desconforto, dúvida e terror.

A SÉRIE

Já na nova série da Netflix, adaptada do romance de Shirley Jackson, o medo pode ter como antídoto a lógica, se puder se tornar uma renúncia voluntária de padrões razoáveis. A série é mais um exame genérico do luto e do trauma. Seus 10 episódios são elegantes, comoventes e sinistros, repletos de fantasmas literais e metafóricos.

Na série criada por Mike Flanagan, Hugh Crain (Henry Thomas) é o patriarca de uma família que se muda para a Residência Hill durante os anos 1980, com a intenção de restaurar a propriedade e vendê-la para receber o lucro depois. Ele e sua esposa, Olivia (Carla Gugino), têm cinco filhos, os quais começam a ter encontros estranhos enquanto moram na casa. Steven (Paxton Singleton) por ser mais velho, é o menos suscetível; Shirley (Lulu Wilson) aprende sobre a morte com gatinhos misteriosos; Theo (Mckenna Grace) pressente monstros e te conhece com um simples toque; e Luke (Julian Hilliard) e Nell (Violet McGraw) são gêmeos e os membros mais jovens da família, e são assombrados por fantasmas recorrentes: a Moça do Pescoço Torto e a Abigail.

Então, nos dias atuais, fica claro que os fantasmas da Residência Hill não são os únicos a atormentar os Crain. A mãe morreu em casa em um incidente que se torna um dos mistérios centrais da série, e o trauma desse evento se espalhou pela vida dos membros sobreviventes da família. Hugh mais velho (Timothy Hutton) agora está muito afastado de seus filhos, enquanto Steven (Michiel Huisman) irritou seus irmãos ao escrever uma ficção de terror de enorme sucesso que tira proveito da história sombria de sua família. Shirley (Elizabeth Reaser) transformou sua fixação em “resolver” a morte em uma carreira como agente funerário. Theo (Kate Siegel) é uma psicóloga que evita todos os relacionamentos. Luke (Oliver Jackson-Cohen) é um viciado em heroína em recuperação e Nell (Victoria Pedretti) começa a ver a Moça do Pescoço Torto novamente na idade adulta, após uma profunda perda pessoal.

Como convém ao gênero, Flanagan se apóia fortemente na narrativa visual. A Residência Hill é uma monstruosidade arquitetônica sem equilíbrio ou simetria em sua construção; e seus interiores são opacos e sem vida, como se a névoa que circunda o exterior também se infiltrasse para dentro.

A Maldição da Residência Hill esconde espectros e aparições em diferentes episódios como ovos de Páscoa assustadores para os espectadores encontrarem. O resultado, para os telespectadores, é que cada cena começa a parecer estar em um local escuro e assustado, cada suporte ou porta ou painel de vidro errante parece sugerir coisas que não estão realmente lá. A série dá seus sustos de forma imprevisível, silenciando o áudio para se preparar para pulos de susto.

Esta versão de A Maldição da Residência Hill, pega a concepção de Jackson da Residência Hill como uma lupa para a fragilidade humana e a neutraliza. O programa de Flanagan passa a melhor parte dos 10 episódios detalhando como uma casa amaldiçoada arruinou a vida de todos que a encontraram. O tema predominante é a dor e a sensação de medo que acompanham a casa- medo de perder as pessoas que você mais ama e medo de não ser capaz de protegê-las e, esse tipo de medo pode transformar as pessoas em loucos.

5 pipocas!

Em cartaz na Netflix.

Os 7 de Chicago: o julgamento do século

Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7), de Aaron Sorkin, estreia em um momento em que a temperatura política nos Estados Unidos está praticamente em ebulição. É baseado no notório julgamento de 1969 em que sete (originalmente oito) réus foram acusados pelo Departamento de Justiça do presidente Richard Nixon de conspiração para incitar a violência na Convenção Nacional Democrata de 1968. Embora Sorkin tenha originalmente escrito o roteiro em 2007, foi inevitável que o filme só agora esteja sendo promovido, como uma imagem espelhada da agitação civil que está acontecendo hoje nos EUA.

Como diretor e roteirista, Sorkin, por vontade própria, foca a essência do filme nas discussões dos seus personagens em um espaço confinado e escondido em Chicago, como em seu sucesso da TV: The West Wing. Seu novo filme prende bastante, pois corta a burocracia dos procedimentos do julgamento – incluindo documentários de época e flashbacks dos confrontos de rua entre os manifestantes, a polícia e a Guarda Nacional – e mira sua essência na ação, por isso suas melhores cenas acontecem dentro do Tribunal Distrital de Chicago.

Sorkin transforma o famoso teatrinho político em uma vitrine para um grupo heterogêneo de réus manifestantes, entre eles, Jerry Rubin (Jeremy Strong), co-fundador do Partido Radical Internacional da Juventude (Yippies); Abbie Hoffman (Sacha Baron Cohen), outro instigador brincalhão Yippie cujas travessuras no tribunal obviamente são valiosas para a mídia sensacionalista; e Tom Hayden (Eddie Redmayne), co-fundador do grupo, um tanto mais polido, de Estudantes Unidos por uma Sociedade Democrática, que, em meio a essa balburdia de ideologias, se destaca como a única voz da razão.

Quem os defende é o advogado William Kunstler, interpretado por Mark Rylance, que com sua peruca de cabelos compridos aparenta ser, intencionalmente, um hippie aposentado. Já Yahya Abdul-Mateen II interpreta o co-fundador do Black Panther Party, Bobby Seale, cujas explosões de raiva no tribunal levam o nêmesis dos réus, o juiz Julius Hoffman (Frank Langella) a amarrá-lo e amordaçá-lo, eventualmente, para impedir que ele se pronuncie sobre o caso.

Sorkin muitas vezes tenta suavizar e agilizar os procedimentos reais do julgamento.

Algumas das melhores falas do filme foram, de certo modo, escritas para Sacha Baron Cohen (o famoso Borat). Quando, por exemplo, o juiz Julius pergunta a Abbie se ele está familiarizado com o conceito de desacato ao tribunal, sua resposta irônica é: – Isso é praticamente uma religião para mim, senhor. Sorkin “exagera” na alegria grave dentro do tribunal para mostrar que, na verdade, Abbie é o único personagem cuja exibição claramente apoia uma preocupação mais profunda. Tanto que, quando em determinado momento, ele é questionado sobre qual seria seu preço para cancelar a “revolução”, ele responde simplesmente com: – Minha vida.

Claramente Sorkin vê Os 7 de Chicago como um alicerce da dissidência coerente contra governos opressores. Ele também os vê como exemplos – esta é sua versão de um filme de super-herói. Para Sorkin, o protesto é a maior virtude americana. Ele até fecha o filme com o grito de guerra dos manifestantes de Chicago: O mundo inteiro está assistindo.

Este filme vem para confirmar que, mesmo antes da pandemia, as coisas não mudaram realmente para melhor e, os abusos dos direitos civis, injustiça racial e o nepotismo ainda acontecem desenfreadamente. Mas, é claro, existem grandes diferenças em relação àquela época – sem a Guerra do Vietnã, por exemplo, é inconcebível que a contracultura tenha surgido como surgiu.

Os 7 de Chicago expressa o nosso anseio de justiça. Representa a santificação de uma época e de um povo cujo espírito Sorkin vê como nossa única salvação.

5 pipocas!

Em cartaz na Netflix.

Bom Dia, Verônica: o abuso doméstico mata

A série Bom Dia, Verônica adapta o romance do autor Raphael Montes sobre uma subestimada escrivã da polícia civil que investiga dois casos de violência doméstica – ela é desvalorizada por ser mulher e, é claro, porque seus casos envolvem violência contra mulheres. A série nacional aborda claramente um assunto relevante, mas pode fazê-lo de uma forma dramaticamente atraente?

Pode, e muito!

Verônica (Tânia Müller) é escrivã na delegacia de Homicídios em São Paulo e trabalha sob o comando do chefe Wilson Carvana (Antônio Grassi), que por acaso é seu padrinho. Carvana supervisiona talvez a força policial mais desleixada de todos os tempos; é o que prova a cena que se desenrola: um pai enlutado de uma vítima de estupro está sentado no escritório e dois policiais devem conduzi-lo para fora antes que o criminoso chegue. Enquanto isso, uma mulher chateada, Marta Campos (Júlia Ianina), está sentada no escritório de Carvana, mas ele a dispensa. Nisso, os policiais arrastam o estuprador, só que o pai zangado puxa uma arma para ele, e um detetive a arranca de sua mão, fazendoa-a voar para longe e a chorosa Marta a pega. Verônica vê e pede que ela desista mas, antes que ela possa intervir, Marta dá um tiro na própria cabeça.

Já em outro lugar do mesmo drama, Janete (Camila Morgado) e seu marido Claudio (Eduardo Moscovis) voltam para casa. Ela se senta com cautela e tira a pulseira do hospital de seu pulso. Ele entrega então a ela um comprimido e um copo d’água. Muitas mulheres abortam, ele garante. O episódio exibe então cenas assustadoras e dominadoras de Claudio e uma subserviência acovardada de Janete.

SPOILERS! Se não quiser pule os próximos 2 parágrafos.

Lá na investigação sobre Marta, Verônica descobre que ela foi abusada por um idiota em série que conheceu por meio de um serviço de namoro online. Então, ela divulga na imprensa um número de disque-denúncia e pede às mulheres que enfrentam violência doméstica que liguem para ela. Janete está vendo e anota o número. Depois escondendo-o em um livro de palavras cruzadas.

E finalmente chega o momento que dá corpo ao drama principal: uma jovem chega a São Paulo, tendo deixado para trás a mãe e a filha em busca de emprego. Janete então se aproxima dela, oferecendo-lhe um serviço de empregada doméstica. Ela, muito feliz, aceita. Elas caminham até o carro onde Cláudio a apaga com um taser e a joga no porta-malas.

Bom Dia, Verônica é bem intencionada e comovente em sua abordagem do tema violência contra mulher. Tânia Müller interpreta a personagem com seriedade suficiente para manter a produção pegando fogo. Alguns traumas do passado de Verônica provarão que ela possui um ponto de vista sólido com relação aos temas feministas da série. Com certeza parece que ela está preparada para ser uma heroína conscienciosa e moralmente prudente.

5 pipocas!

Em cartaz na Netflix.

King – Uma História de Vingança: viver para vingar em LA

O diretor belga Fabrice Du Welz faz sua estreia na língua inglesa com um cenário novo noir de Los Angeles em King – Uma História de Vingança (Message from the King), um filme de vingança taciturno e corajoso voltado para uma ação clássica do cinema americano de outrora, quando a desprezível metrópole era a favorita para párias da sociedade.

A obra é um pequeno exemplo desagradável das várias camadas de decadência da cidade através das lentes de um estranho em uma terra estranha. Ao receber uma mensagem de voz desesperada de Bianca, sua irmã distante, um homem sul-africano, Jacob (Chadwick Boseman), da classe trabalhadora, chega à Cidade dos Anjos para descobrir que ela desapareceu, e seu marido e seu enteado também não foram encontrados em lugar nenhum.

Vasculhando seus escassos pertences, ele encontra mais pistas que o levam a indagar um proeminente dentista da cidade porém os questionamentos logo passam a irritar algumas outras pessoas importantes. Os verdadeiros estereótipos da bandidagem nos mostra aqui que toda essa gentalha é exploradora: nada muito chocante, é claro.

Em King – Uma História de Vingança, nosso saudoso Pantera Negra, nos entrega uma de suas performances mais convincentes. Seus atos ficam cada vez mais agressivos conforme aumenta suas raiva ao descobrir mais – incluindo o uso de uma série de objetos inusitados como arma. Nesse pedaço da aventura, Jacob se torna o novo Charles Bronson. Tudo ficará assustador e poético enquanto nos são mostradas as realidades melancólicas de Los Angeles e uma população abundante de residentes transitórios.

Há uma energia misteriosa e perturbadora em Uma História de Vingança, lembrando algo um pouco mais vintage e mas também um pouco mais formidável.

Du Welz não acaba caminhando para o comum, ele inova e detalha as profundas camadas de degradação que levaram uma irmã desaparecida a um ponto sem volta, e trás coração de escuridão vivo raivoso aos céus salpicados de sol de Los Angeles.

5 pipocas!

Em cartaz na Netflix.