The Mandalorian: a grande e maravilhosa galáxia Star Wars

O Mandaloriano (The Mandalorian) é a série “sucesso de bilheteria” do Disney Plus. Criada por Jon Favreau, é um spin-off de ficção científica, óbvio, de Guerra nas Estrelas (Star Wars para os bilíngues). São 2 temporadas pra você aproveitar toda a galáxia.

Temporada 1

Situada cinco anos após O Retorno dos Jedi – significando que o Império caiu e a Nova República está em ascensão – esta aventura intergaláctica gira em torno de um misterioso caçador de recompensas que NUNCA tira o capacete, Din Djarin (Pedro Pascal), um órfão que foi resgatado e criado por guerreiros Mandalorianos.

O grande drama do show é que, quando ele se recusa a abrir mão de um prêmio misterioso em troca do bebê poderoso e conhecido como A Criança (Bebê Yoda), para O Cliente (Werner Herzog), Mando se torna seu protetor, auxiliado por um Ugnaught com cara de porco, Kuiil (dublado por Nick Nolte); pelo assassino andróide IG-11 (dublado por Taika Waititi); e a mercenária solitária Cara Dune (ex-lutadora de MMA Gina Carano).

O principal adversário de Mando é o Senhor da Guerra do Império, Moff Gideon (Giancarlo Esposito), que possui um Darksaber, a arma popularizada da franquia.

Há 8 episódios na primeira tempo e o encontro com cada um dos personagens acontece separadamente; incluindo a aparição de Carl Weathers (O Apollo Creed de Rocky), que interpreta o chefe da guilda dos caçadores de recompensa, Greef Karga.

Temporada 2

As apostas agora aumentaram, os personagens de todo o Universo Star Wars apareceram e, acima de tudo, nossa dupla principal teve algum desenvolvimento pessoal, nunca se perdendo na enxurrada de novos enredos. O Mandaloriano Dinn Djarin, foi encarregado de “devolver sua carga”, a criança cujo nome ele não sabe, para seu povo: os Jedi. Ele começa então a procurar outros raros Mandalorianos que ele acredita que podem ajudá-lo a encontrar os Jedi.

O Mandaloriano (Pedro Pascal) chega de volta a Tatooine, seguindo a pista de um avistamento de outro Mandaloriano que pode ter informações para ele sobre como levar A Criança” de volta aos Jedi e é nessa toada que seguiremos.

E outra…

Vocês nem vão acreditar em quem aparece no final.

– E o que você achou no geral, Pedroka?

O showrunner Jon Favreau estava determinado a criar uma saga mergulhada na tradição do passado enquanto apresentava personagens inteiramente novos. As filmagens utilizam a nova tecnologia de parede de vídeo LED, introduzida pela primeira vez em O Rei Leão do ano passado. Cada cena foi capturada visualmente pelo supervisor de efeitos Robert Legato, três vezes vencedor do Oscar. Ao contrário da tela verde tradicional, os atores agora podem ver o plano de fundo e os cinegrafistas podem combinar as perspectivas e a paralaxe da câmera para parecer que estão no local.

Depois de duas temporadas de O Mandaloriano (The Mandalorian) sendo de tão alta qualidade, estou ansioso para ver o que mais está reservado para Star Wars no Disney Plus.

5 pipocas!

Disponível no Disney Plus.

Tio Frank: quebrando velhos tabus

Paul Bettany (O Visão, de Vingadores: Guerra Infinita) demonstra toda sua habilidade dramática ao entregar-nos o personagem principal de Tio Frank (Uncle Frank), um longa roadtrip bonito e bem representado da Amazon Prime. Escrito e dirigido por Alan Ball – cujos primeiros trabalhos como roteirista incluem Beleza Americana e a série vampiresca da HBO True Blood – a trama conta a história de um homem gay de quase 50 anos na América dos 70’s que tenta dar sentido à sua vida depois de uma perda.

Frank é um professor universitário hábil nas boas maneiras que mora em Nova York, a quilômetros de distância de sua família profundamente conservadora na Carolina do Sul. Mas ele também é o tio favorito de Beth (Sophia Lillis, de It A Coisa), uma adolescente cheia de esperança e geniosa que sonha escapar da sua pequena cidade natal para morar na cidade grande. Em uma de suas raras visitas a antiga casa, Frank sugere que ela continue seus estudos na Universidade de Nova York, já que ele é um docente respeitado na instituição de ensino.

Só quando eles chegam à Nova York Beth percebe que um dos motivos pelos quais seu tio está afastado da família por tanto tempo é o fato dele ser gay. Inicialmente relutante em assumi-la, Frank esconde sua sexualidade de Beth – bem como seu relacionamento de longa data com Walid (Peter Macdissi, de True Blood), um outro exilado de uma família muçulmana rígida. Quando o seu pai desaprovador Mac (Stephen Root) morre repentinamente, Frank embarca em uma viagem agitada para casa na Carolina do Norte junto com Beth, mas a viagem fica ainda mais complicada quando Wally decide, em segredo, acompanhá-los, na esperança de finalmente conhecer a família do companheiro.

Como em seus outros trabalhos, Alan Ball tem a capacidade de combinar humor e drama, tornando a “degustação” interessante. Seu cenário de 1970 é habilmente detalhado, e ele reflete lindamente o amor entre Frank e Wally, dois homens que fizeram enormes sacrifícios apenas para desfrutar de uma existência “semi-normal” um com o outro.

Tio Frank merece uma indicação ao Oscar, ou até mais. Charmoso, engraçado e comovente, esse filme é um pedaço extremamente evocativo da cultura americana retrô e um conto de roadtrip altamente divertido.

5 pipocas!

Disponível na Amazon Prime Video.

O Silenciamento: caçando um serial killer

O Silenciamento (The Silencing) já começa com uma cena arrepiante do corpo de uma jovem flutuando na correntesa um riacho entre as montanhas do Minnesota. Isso é que define o cenário para sua narrativa sombria e arrepiante em uma cidade misteriosamente pacata. Neste condado pouco povoado, todos se conhecem mas, ainda assim, há sempre uma sensação de mal-estar e corrente de medo à espreita no ar.

E pra piorar um assassino misterioso têm estado em liberdade matando jovens mulheres por razões desconhecidas.

Quem poderá ajudar?!

O ex-caçador e agora anjo da guarda do denso Santuário de Vida Selvagem Gwen Swanson, Rayburn Swanson (Nikolaj Coster-Waldau, o Jaime Lannister de Game of Thrones) perdeu sua filha adolescente Gwen (Brielle Robillard) há cinco anos. Sua única missão de vida agora é salvar os animais afastando os caçadores e procurar sua filha desaparecida. Rayburn há muito desistiu da polícia local para encontrar sua menina.

A nova xerife do condado Alice Gustafson (Annabelle Wallis) está esperançosa de que ela resolverá o caso que manteve a cidade no limite por anos. Ela tenta ser a heroína pois vive com um ressentimento antigo por causa seu irmão mais novo problemático, Brooks (Hero Fiennes Tiffin), que possui tendências criminosas.

O diretor Robin Pront e o escritor Micah Ranum construíram com sucesso uma atmosfera medonha com a ajuda de seu famoso diretor de fotografia Manuel Dacosse. Eles não se intimidam em nos aproximar do assassino, que está sempre disfarçado e se camuflando na floresta. Os bosques fechados e os espaços escuros da cidade são muito bem utilizados como personagens próprios. Eles simbolizam a natureza horrível do crime e de seu autor. O que também funciona são as relações interpessoais entre os personagens e o drama humano em meio a todo o crime. A relação entre Alice e seu irmão é especialmente interessante devido às suas individualidades conflitantes. A ação se torna bastante selvagem ao longo do caminho. A narração da história é adequadamente tensa. Robin Pront usa aquele suspense clássico de uma saga contra serial killers com performances poderosas, um ritmo consistente e uma condução arrepiante que faz toda a diferença.

Nikolaj Coster-Waldau lidera como um caçador implacável, que está no caminho da redenção após perder sua filha. Ele traz convicção para seu papel fisicamente desafiador de um Rayburn ressentido, mas teimoso.

O clímax da trama, na verdade é o seu anticlímax. O acúmulo de suspense é extremamente eficaz e imprevisível, e a revelação é explosiva.

O Silenciamento é uma daquelas sagas de serial killers que pede uma grande vingança.

5 pipocas!

Togo: um dogzinho do balacobaco

A Disney Plus, mesmo em tempos de pandemia, tem a capacidade de criar homéricas aventuras que nos dão esperança perante ás adversidades. Togo chega ao serviço de streaming como um conto verdadeiro e também traiçoeiro de um grosseirão homem das montanhas do Alasca e seu fiel Husky Siberiano.

Aviso: o show é altamente recomendado para degustação em família.

Durante o inverno de 1925, uma epidemia de difteria mortal ameaçou as crianças de Nome, no Alasca. E como uma nevasca horrível estava se formando, era impossível conseguir receber o soro necessário de avião. Foi quando o veterano musher (corredor de trenós puxados por cachorros) norueguês Leonhard Seppala (Willem Dafoe), foi convidado a ajudar e decidiu empreender-se na perigosa jornada com sua equipe de cães de trenó.

Se a história te soa familiar, sim, essa angustiante corrida histórica de 1084 km pelo Alasca já foi filmada anteriormente como o filme em animação Balto (1995), comemorando o cão que completou a parte final da “aventura do soro” e acabou homenageado com uma estátua no Central Park em Nova York, mais tarde naquele ano.

Mas Balto correu apenas os 80 km finais; foi o heróico Togo de 12 anos que liderou a maior parte da jornada, incluindo a travessia do Norton Sound, de 240km congelado, para economizar tempo. Somente em 2001 que Togo ganhou seu próprio monumento de mármore no Parque Seward do Lower East Side.

O roteirista Tom Flynn trabalhou em conjunto com o diretor Ericson Core. As filmagens duraram 4 meses em Alberta, Canadá, perto do Lago Louise, nas montanhas rochosas, lidando com condições difíceis: mau tempo, ventos fortes e temperatura de 50 graus abaixo de zero, levando tudo ao congelamento. Esse revezamento em prol da vida de crianças, conforme representado no longa, acabou inspirando a corrida de cães de trenó Iditarod Trail, o evento esportivo mais célebre do Alasca.

Depois de sua notável “Corrida de Soro”, Togo ainda viveu mais quatro anos, morrendo aos 16 anos em 1929.

Para prestar atenção: há uma citação que Seppala profere enquanto seus cães estão cruzando o lago gelado que é uma versão editada do famoso discurso do Dia de São Crispim, de Henrique V, da obra de Shakespeare.

Togo é uma emocionante ode ao impossível sendo possível e que corrigiu um erro nos livros de história.

5 pipocas!

Disponível no Disney Plus!

Maudie – sua vida e sua arte: gentileza pura

Se você adorar arte e der uma pesquisada sobre a do Canadá, encontrará diversas referências à Maude Lewis. E se você ama uma história de determinação, criatividade e destemor, você vai adorar Maudie: sua vida e sua arte; a história de sua trajetória pessoal e artística foi trazida para as telonas. Dirigido pela diretora Aisling Walsh, e estrelado por Sally Hawkins e Ethan Hawke, respectivamente como Maudie e Everett, o filme segue as experiências adultas e a parceria da artista folk com o recluso homem que se tornaria seu marido e companheiro de vida.

Maudie Lewis foi uma artista autodidata que viveu toda sua infância com um caso cada vez mais desafiador de artrite juvenil. Ela viveu com sua família até os 20 anos pintando todos os dias mas, quando seus pais faleceram, ela foi enviada para morar com sua tia Ida (Gabrielle Rose). O desejo de independência a levou a responder um anúncio de serviço como empregada doméstica de Everett Lewis, um pescador e faz-tudo local, que queria alguém para cuidar de sua casa sem água encanada, nem eletricidade.
Maudie queria mesmo é ter um sentimento de pertencimento e isso, a duras penas, os levou a se casarem em 1938 e construírem uma vida simples juntos, onde ela pintava todos os dias, e Everett mantinha a casa enquanto barganhava com turistas e colecionadores o preço dos quadrinhos originais que ela criava.

O filme captura a dureza do ambiente em que essas belas e alegres pinturas foram criadas, bem como os desafios que Maude enfrentou por causa de suas dificuldades físicas e das pessoas ao seu redor. É um filme lento porém lírico, como um estudo da determinação e força de vontade de Maudie para encontrar alegria em cada dia que teve a sua frente. A obra, dessa forma, torna-se um lembrete para que façamos o mesmo que ela; lutemos, principalmente aqueles de nós que nunca enfrentamos os desafios físicos e financeiros que ela enfrentou.

Maudie tinha uma visão única de expressar a alegria dos prazeres simples da vida diária. Ao longo de sua caminhada, ela pintou a própria casinha deles, por dentro e por fora, e hoje, sua casa se tornou parte da exposição Maudie Lewis: a Galeria de Arte da Nova Escócia.

Sally e Ethan, ambos atores já premiados, tiveram ótimas performances. Mas Sally como Maudie, dificilmente será ignorada no longa. Ela entregou um otimismo teimoso e atitude séria de uma forma que é inspiradora. Sem nunca representar só por simpatia, ela deu a Maudie um nível de dignidade que poucos outros atores poderiam ter alcançado. Se assistirmos vídeos antigos da verdadeira Maudie Lewis, ficamos impressionados com a semelhança entre a atriz e a artista, tanto no falar quanto no andar, e é claro, no modo como encontrou a felicidade naquela casinha, apenas pintando todos os dias, com um cigarro em uma das mãos e um pincel na outra.

Existem tão poucas artistas mulheres sendo representadas em filmes que é adorável ter este testamento cinematográfico de uma das grandes heroínas do Canadá. Maudie: sua vida e sua arte é um filme que prestou um serviço a todos nós. Não é o maior sucesso da década mas certamente pode causar um baque nas nossas atitudes frente a situações desanimadoras.

5 pipocas!

Disponível na Netflix.

Era Uma Vez um Sonho: aqueles que conseguiram superar as adversidades

O pequeno J.D. Vance (Owen Asztalos) está farto. A vida que ele aguenta nunca lhe deu trégua. Não houve um único momento em que foi capaz de respirar em paz sem ter que lidar com uma tragédia. Seja o colapso de sua mãe Bev (Amy Adams), a morte do avô (Bo Hopkins), a severidade de sua avó (Glenn Close) ou a falta de oportunidades, ele simplesmente não aguenta mais. E parece que o melhor mesmo é abandonar tudo de uma vez.

Em Era Uma Vez um Sonho (Hillbilly Elegy), o diretor Ron Howard, o criador de Apollo 13 (1995) e Rush: Paixão e Glória (2013), apresenta uma história sobre aqueles que tiveram que ser resgatados; sobre aqueles que perderam tudo, até o desejo de continuar lutando. Conheceremos o doloroso presente de J.D. Vance (Gabriel Basso como adulto), um acadêmico de Direito, que tem uma entrevista de estágio marcada mas, descobre que sua mãe Bev, teve overdose de heroína. Através de J.D. e sua irmã Lindsay (Haley Bennett), acabamos entendendo como eles e a família ficaram presos em um beco que hoje não permite que eles tenham paz.

Com eles, estamos em um abismo onde as pessoas sobrevivem com vale-refeição e a boa vontade de outras pessoas. A desesperança que nos cerca é tão grande que parece que aqui não há nada pelo qual valha a pena lutar.

O drama desta história é tal que sentimos vontade de entrar na tela pra ajudar. Em um longa de cerca de duas horas, há alguns momentos tensos que podem até cansar as pessoas na frente da tela, no entanto essa dor é o fio condutor da trama. É um filme que trata com condescendência e muita realidade a problemáticas das drogas em uma sociedade que foge vida quando é desafiada. No entanto, todos nós já passamos por uma época em que a desesperança tenta nos sufocar e é aí que devemos nos agarrar as esperanças.

Glenn Close interpreta uma senhora que, embora tenha enfrentado grandes dores ao longo da vida, não se deixou desmoronar. Amy Adams, por sua vez, interpreta uma mãe solteira cuja instabilidade emocional a leva a se envolver no mundo das drogas. Aqui estamos em uma espiral de drama e dor que arrasta seus protagonistas para o fundo. Com esta adversidade como pano de fundo, este filme torna-se o melhor cenário para as suas duas atrizes estrelas brilharem; e talvez já estejamos em um ponto em que rotular a atuação de Close ou Adams com palavras como “surpreendente” ou “comovente” seja um pouco desnecessário, já que elas sempre impressionam.

Era Uma Vez um Sonho é mais um filme de ótima qualidade impecavelmente filnado que conseguiu transcender o tempo com suas histórias e seus olhares.

5 pipocas!

Disponível na Netflix.

The Undoing: quem matou Elena Alves?

Você conseguiria adivinhar a identidade de um assassino?

Em The Undoing, da HBO, parecem haver tantas soluções possíveis para este enigma que nós nos sentimos jogando Retetive. Não há necessidade de existir um vencedor aqui. Só queremos a resposta. Em qualquer caso, a identidade do assassino é o x da questão; é a verdade.

Foi o Doutor Engomadinho, com algum objeto, no estúdio da vítima/artista? Foi o jovem Riquinho, que não largava a caixa do violino, em uma birra de adolescente? Seria o bilionário Sílvio Santos, com uma cara feia, naquele edifício chique na parte nobre de NY? Até os últimos minutos desse show, eu estava convencido de que o assassino era a Mariana Ximenes com 20 anos a mais, vestindo um casaco verde contra o frio.

Quando vi o trailler de The Undoing, rotulei: “Um drama sobre duas pessoas de grande privilégio, ambos médicos, morando em Manhattan”. Ninguém seria preso, imaginei. Mas ao acompanhar os 6 episódios, felizmente percebi que, mais pessoas estão começando a entender e reconhecer as disparidades de privilégios e talvez a impunidade possa ter fim um dia.

The Undoing tem muito a ver com privilégios: racial, de classe, econômico, educacional, profissional e herdado.

Jonathan (Hugh Grant) é um oncologista pediátrico em um prestigioso hospital de Manhattan, porém quando a artista Elena Alves (Matilda De Angelis) aparece morta, descobre-se que existia um suposto affair dela com o Dr., então ele se torna um presidiário que luta por sua vida como qualquer outro prisioneiro no pátio de uma prisão. Já Grace (Nicole Kidman) é uma terapeuta da saúde mental que aconselha muito bem seus pacientes mas que, parece perder sua própria orientação mental quando também acaba sendo investigada como suspeita do assassinato da tal mulher.

Por causa desse escândalo midiático, ela deixou de trabalhar, e por não poder se manter com um filho ainda criança para criar, Harry (Noah Jupe)), passou a ser muito dependente emocional e financeiramente de seu pai Franklin (Donald Sutherland).

E não ignorem a excelência artística das atuações, do roteiro e da direção.

O poder do desempenho de Kidman é sua capacidade de alternar entre vários eus. Ela é terapeuta, esposa, mãe e filha. À medida que o eixo de orientação de Grace muda com quase cada nova informação que ela recebe sobre a vida secreta de seu marido e os perigos recém-descobertos para ela e seu filho, Kidman comunica as mudanças em Grace por meio de tudo, desde a fala até a linguagem corporal e a aparência. É uma atuação magistral.

Já Grant, para aqueles que pensavam que ele era capaz apenas de uma comédia romântica leve, The Undoing é uma revelação com ele. A série deu a ele a chance de impressionar quem antes não estava impressionado com seu alcance dramático.

E como a cereja do bolo de atuações, Sutherland como o pai rico de Grace, é uma mistura fascinante de amor e ameaça.

Enfim, o resultado de The Undoing pra mim foi, um retrato de um patriarcado em declínio tentando se reunir para uma última batalha em um mundo sério.

5 pipocas!

Em cartaz na HBO.

Se liguem nas reprises.

Folklore – The Long Pond Studio Sessions: um milagre da Ação de Graças

Foi Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos e o que o mundo ganhou de presente?

Uma aventura no meio da floresta com Taylor Swift, em uma cabana rústica isolada no interior do estado de Nova York, apresentando seu novo álbum, de uma forma mais pessoal, sincera e simplesmente notável, Folklore. Foi o primeiro encontro cara a cara da estrela pop com seus colaboradores, Aaron Dessner do The National e Jack Antonoff. Eles trabalharam juntos à distância para gravar este álbum logo nos primeiros dias da pandemia.

Taylor percebe muito bem o momento certo de surpreender e cronometrou esse movimento perfeitamente. Nos podemos vê-la nesse projeto da forma mais inesperada possível; perdida no interior de NY, vestindo xadrez e quase sem maquiagem nenhuma, ao natural. Como ela mesmo diz no começo da produção,

The Long Pond Studio Sessions é a transformação de uma pequena miragem da pandemia em um espetáculo verdadeiro.

“Precisava disso para perceber que Folklore é mesmo um álbum de verdade”.

Não poderíamos considerar esse show apenas uma nota de rodapé do álbum original – a apresentação é uma declaração musical profunda por si só, cheia de sonoridade acústica despojada e simplória. Não importa quanto o público já tenha absorvido Folklore em sua essência desde o dia em que ela o lançou em julho, aqui todas as músicas parecem novas. E é bem mais que uma performance: ela divide conosca o teor das canções, falando sobre elas na varanda ou no quintal, ao lado do celeiro. Esse compartilhamento aberto é revelador e nos mostra, neste cenário livre, o nível do gênio de Swift.

A revelação do significado das letras vai muito mais além do que “a música quer dizer isso e ponto”. Ela basicamente pensa em voz alta e não apenas diz “como” escreveu, mas o “por que” ela precisou escrever canções tão tristes assim. Quando o isolamente começou TODOS, inclusive os artistas se viram no mesmo barco da apatia e falta de propósito então sentar e trabalhar fez ela transbordar no que ela mais ama, a criação de boa música.

DESTRINCHANDO ALGUMAS FAIXAS

“Illicit Affairs” vai muito além do original e vira praticamente uma música nova. Ela se aprofunda na raiva feminista em “Mad Woman” e fala sobre a luta pós-vício de alguém em “This Is Me Trying”. Ela conta porque “My Tears Ricochet” virou a faixa 5. Em “Seven”, ela realmente amplia a imagem de si mesma como uma criança tendo acessos de raiva.

Já “August” é um momento icônico que fala sobre um suposto triângulo amoroso – Taylor deixa no ar a ideia de que a Augusta da canção pode ser a poetisa romântica Augusta Leigh, irmã de Lord Byron.

Já “Mirrorball” é uma balada pouco notada que engloba o pico emocional do Folklore e mostra que há muitas músicasno álbum que fazem referência umas às outras, ou possuem paralelos líricos. “Mirrorball” resume que a pessoa interior de Taylor nunca se sentiu um talento mas ela tenta, ou seja, é um paralelo direto com “This Is Me Trying”.

Todos os personagens e cenários de Folklore soam como canções introspectivas porque todos estamos presos a nós mesmos nessa pandemia e nos vemos diariamente num mesmo espelho emocional que pode refletir diferentes emoções em um curto período de tempo.

Folklore – The Long Pond Studio Sessions nos leva a lugares, musicalmente, nunca explorados por Taylor Swift antes.

5 pipocas!

Disponível no Disney Plus.

Monsters and Men: os negros e a polícia

Bed-Stuy, um bairro do Brooklyn (NY), é o local do filme de estreia de Reinaldo Marcus Green.

Monsters and Men (Monstros e Homens) mostra o racismo e a brutalidade policial, mas os aborda de uma maneira muito diferente. Este é um drama reflexivo em que três personagens reagem a um assassinato na vizinhança. São diferentes protagonistas cujas vidas se sobrepõem. É muito bem interpretado e lida com dramas familiares de uma maneira sutil e sensível.

Um homem, Darius Larson, foi baleado por um policial em uma esquina, e lá, Manny Ortega (Anthony Ramos), um jovem trabalhador, filmou todo o incidente em seu celular, e ele fica agoniado, pensando se deve ou não postar sua filmagem online. Já o policial negro Dennis (John David Washington) tem que decidir se coloca sua carreira em risco ao expor seus colegas brancos corruptos envolvidos ou fecha os olhos. E por fim, o jovem atleta do ensino médio Zyrick (Kelvin Harrison Jr) enfrenta um dilema semelhante: seu pai, um policial, está pressionando-o a seguir a carreira de jogador profissional de beisebol, mas ele deseja se juntar à campanha contra o assassinato em questão.

Este é um raro filme policial em que a violência é reduzida ao mínimo. Green preenche o filme com close-ups de seus 3 protagonistas principais parecendo angustiados enquanto tentam dar sentido ao ato aleatório de barbárie que desequilibrou as suas vidas. O diretor está tão interessado nas relações familiares quanto nos acontecimentos nas ruas. Grande parte da história se desenrola em ambientes íntimos, nas casas dos 3 personagens principais. Além do tiroteio, visto rapidamente nas imagens do celular de Manny, há pouca violência explícita. O que acontece repetidamente é um assédio por parte dos policiais. Por nenhuma razão óbvia, eles começam a parar e revistar os transeuntes, forçando-os a mostrar todos os seus pertences e, em seguida, mandá-los embora com um delicado “bom dia”.

O escritor-diretor Green foca é nas relações entre maridos e esposas, pais e filhos.

O pai policial de Zyrick, por exemplo, está desesperado para vê-lo ter sucesso como jogador de beisebol. Ele sente um prazer óbvio e indireto com os sucessos do garoto, bajulando os olheiros e treinadores que parecem estar oferecendo a seu filho uma entrada pra uma vida melhor. Mas, para ele, a violência e a corrupção sempre estarão existindo, então Zyrick deveria se concentrar em sua carreira esportiva e só.

Se dá ênfase nas experiências pessoais de cada personagem, além de mostrar um pouco do quadro político. Nisso, Green arrisca influenciar a raiva e a indignação em nós em relação ao cerne do drama.

Porém dedica-se alguns minutos para um retrato da polícia. Há um funeral de um policial morto em serviços e vemos seus camaradas aflitos. Embora haja bandidos racistas na força, também há homens como Dennis, que são totalmente dedicados ao trabalho.

Mas o que torna Monsters and Men um filme de estreia tão distinto, e explica por que ganhou o Prêmio Especial do Júri em Sundance por excelente primeiro longa-metragem, é a maneira perspicaz e delicada com que Green expõe seus pontos. Por exemplo, quando o filho de Dennis quer usar uma de suas camisas de moletom do departamento de polícia para ir à escola para o “Dia do Orgulho dos Pais”, Dennis tenta proibir isso. Em momentos como este, percebemos que ele sente tanto vergonha quanto orgulho pela escolha da profissão.

E muitos policiais devem se sentir assim.

5 pipocas!

A Maldição da Mansão Bly: o peso das memórias e dos pecados

Aos poucos, Mike Flanagan está deixando uma marca no gênero terror. Seja em filmes como O Espelho ou Jogo Perigoso, ou em histórias que precisam ser desenvolvidas pela televisão, como A Maldição da Residência Hill, seu trabalho no gênero tem sido notável. Agora ele nos traz uma nova abordagem para uma casa mal-assombrada com a série A Maldição da Mansão Bly.

A voz de Flanagan como criador de histórias de terror está focada na dor do fantasma, na dor da morte e nos pecados dos vivos e dos mortos. O interesse do diretor está na maneira como todos carregamos essas memórias “mortas” nos ombros. Esses exemplos podem ser vistos em pequenas doses em Ouija: A Origem do Mal, nos filmes já mencionados, bem como em Doutor Sono, naturalmente.

O caso desta A Maldição da Mansão Bly, assim como na outra A Maldição da Residência Hill, é semelhante: na história temos uma casa que parece mal-assombrada e uma família que tem comportamentos estranhos. Flora (Amelie Bea Smith) e Miles (Benjamin Evan Ainsworth) são dois irmãos que sofreram com a morte dos pais e que, agora vivem sob a tutela de várias pessoas, a começar pelo tio Henry (Henry Thomas) que nunca pisa em casa. Ele deixa isso para a governanta, Sra. Hannah Grose (T’Nia Miller), o chef e motorista Owen (Rahul Kohli), a jardineira Jamie (Amelia Eve) e a nova babá Dani (Victoria Pedretti).

A primeira coisa que podemos notar em A Maldição da Mansão Bly é que Flanagan continua a apostar e contar com o elenco do outro título. O que mantém o nível de atuação “perfeitamente esplêndido”. Desde o primeiro episódio vemos fantasmas se escondendo pela casa. Passamos a vê-los ameaçadores, como uma figura do presente que não deixa os nossos protagonistas sozinhos nunca, especialmente Dani, que alcança um desempenho extremamente emocional à medida que avançamos na história, até chegarmos a um episódio de partir o coração.

O pecado que Dani carrega é enorme e impossível para ela sustentar sozinha. Na mansão, essa memória torna-se maior e definitivamente mais presente através de um fantasma misterioso com lentes redondas, totalmente iluminado, mas que fica imóvel, como uma figura que não a abandona.

A história então começa a brincar com o tempo: entre o passado e o presente, aprendemos cada vez mais sobre os personagens que habitam a mansão. Esta é uma vantagem para essa série que pode ser vista continuamente, pois é algo de que muitos programas parecem não tirar proveito. Flanagan e companhia usam esses saltos de tempo a seu favor, incorporando pausas focadas num personagem só entre os episódios.

Nisso é que conhecemos o mistério dos acontecimentos com a babá anterior a Dani, Rebecca Jessel (Tahirah Sharif) que confiou, até demais, na pessoa errada: o espertinho Peter Quint (Oliver Jackson-Cohen).

– E porque a casa é amaldiçoada, Pedroka?! Sugiro que assista pra saber, né?

Essa história mede o peso e a carga dos espíritos no submundo, e o que os arrasta e os ancora para continuar no nosso mundo. Não humaniza-se a morte, mas sim o morto, sua dor, sua tristeza e o que o tempo faz à própria memória. Tudo isso será explorado nos seus 9 episódios – incluíndo o motivo de porque a casa é tão maldita. Embora esta seja uma série de terror, A Maldição da Mansão Bly é principalmente um drama melancólico e nostálgico sobre as memórias que nos mantêm presos a nossa mais profunda dor.

5 pipocas!

Disponível na Netflix.