Relatos do Mundo: aventura incidental

Houve uma época – e essa era a década de 1970 – em que uma pesquisa da revista Time nomeou o âncora Walter Cronkite, da CBS, como “o homem mais confiável dos EUA”, sendo assim o grande responsável pela ocupação de jornalista virar febre.

Se tivéssemos de conduzir, então, uma pesquisa sobre os atores mais confiáveis dos EUA, eu argumentaria que Tom Hanks estaria bem perto do topo da lista – e Hanks foi perfeitamente escalado como uma espécie de âncora de notícias de 1870 no filme corajoso e visceral de Paul Greengrass, Relatos do Mundo (News of the World), um filme de viagem difícil pelo Texas que é reproduzido como um híbrido dos filmes de John Wayne (Rastros de Ódio e Bravura Indômita de 69), e até me lembrou um pouco do recente O Céu da Meia-Noite de George Clooney.

Nesta estreia em um filme de faroeste, Hanks faz o capitão Jefferson Kyle Kidd, um veterano da Guerra Civil que lutou pela Infantaria Confederada e sofreu ferimentos externos, então a única maneira de ganhar a vida foi cavalgar de cidade em cidade no estado bruto e áspero do Texas, literalmente lendo as notícias do mundo para os habitantes da cidade a 10 centavos por pessoa, trazendo-lhes os últimos desenvolvimentos de perto e de longe; sejam eles um surto de meningite, uma tragédia em uma mina de carvão ou um acidente mortal de balsa.

Mas sua vida nômade solitária é interrompida quando ele encontra uma menina de 10 anos chamada Johanna (Helena Zengel), que passou grande parte de sua vida como prisioneira da tribo Kiowa e foi deixada com as autoridades depois que seus captores foram mortos. Jefferson assume então a responsabilidade de transportar a menina para seus únicos parentes sobreviventes na distante região montanhosa de Castroville, e assim começam uma longa e árdua jornada com Johanna, profundamente desconfiada desse homem estranho, e sem falar uma palavra em inglês.

Sabemos que esses dois enfrentarão obstáculos quase intransponíveis ao longo do caminho, e o diretor Greengrass faz um excelente trabalho ao aumentar o suspense, fazendo Jefferson lidar com um homem racista chamado Sr. Farley (Thomas Francis Murphy) em uma cidade que força Jefferson a ler propagandas Fake News ou envolvendo-o em um tiroteio prolongado e mortal com um bando de bandidos nojentos liderados por Almay (Michael Angelo Covino) que quer capturar Johanna e transformá-la em uma criança prostituta.

Relatos do Mundo tem um ritmo bastante deliberado que permite a inevitável ligação entre nós, o cansado e duro, mas de bom coração Jefferson e a selvagem e rebelde Johanna, que passa a confiar ali, talvez no primeiro adulto que já lhe mostrou compaixão ou bondade. Jefferson cometeu atrocidades terríveis em sua vida e conheceu grandes tragédias, e os primeiros 10 anos de Johanna nesta Terra foram cheios de horror e tristeza, porém, embora eles não percebam a princípio, cada um é a última melhor esperança de salvação do outro.

5 pipocas!

Disponível na Netflix a partir de 10 de Fevereiro ou pra alugar em dólar na Amazon Prime Video norte-americana.

Promising Young Woman: doce vingança

Sem spoiler, revelo de início que há uma cena em Promising Young Woman (Mulher Jovem Promissora) em que Cassandra (Carey Mulligan), uma barista de 29 anos determinada a endireitar predadores sexuais, está conversando com uma de suas “vítimas”, e ele expressa que ser acusado de má conduta sexual é o “pior pesadelo de um homem’. Ao que ela responde: “E você sabe qual é o de uma mulher?”.

O papo é sobre uma “piada” famosa de Margaret Atwood, uma ativista velada, a qual qualquer jovem que passe tempo suficiente em blogs feministas (o que eu presumo que seja o público-alvo deste filme) se familiariza instantaneamente. Atwood pergunta a um amigo do sexo masculino por que os homens se sentem ameaçados pelas mulheres. “Eles têm medo de que as mulheres riam deles”, ele responde. Mas quando Atwood pergunta às mulheres por que elas se sentem ameaçadas pelos homens, a resposta é precisa: “Temos medo de ser mortas”.

É uma história de fantasia estupro e vingança que nunca usa as palavras “estupro” ou “agressão” ou mesmo “consentimento”; é sobre o que acontece quando o sistema de justiça falha – e a punição fica nas mãos dos sobreviventes ou de seus aliados.

Esse sólido filme de estreia é do roteirista e diretor Emerald Fennell, mais conhecido por produzir a segunda temporada da série de TV Killing Eve. Promising Young Woman destaca os vários tipos de homens que as mulheres modernas costumam encontrar: o cara que conta a você sobre o próprio romance de baixa qualidade enquanto cita Charles Bukowski, o cara que se oferece para dar uma carona para casa ou o cara que insiste que ele é um dos legais.

A galeria de caras idiotas que Fennell mostra será reconhecida por qualquer mulher que saiba alguma coisa sobre o namoro contemporâneo, e seus encontros com suspeitos cafajestes é quase um costume aqui.

De dia, Cassandra leva uma vida pouco ambiciosa. Ela trabalha sem rumo em uma cafeteria com sua gerente e única amiga, Gail (Laverne Cox) e mora em casa com seus pais, que estão claramente preocupados com a forma como sua filha está passando seu tempo livre desde que misteriosamente abandonou a faculdade de medicina anos atrás. E eles estão certos em se preocupar.

Todo fim de semana, Cassandra sai para bares e discotecas, onde finge estar extremamente bêbada, com o objetivo de ser levada para casa por predadores sexuais que percebam a oportunidade. Por quê? Bem, Cassandra quer ensinar-lhes uma lição mas, nunca vemos exatamente como ela faz isso. Pela maneira como ela os registrou em um misterioso caderno, vemos que Cassandra fez isso tantas vezes que seu ato é corriqueiro e ficamos tentando descobrir qual é a estratégia.

Agora quando Cassandra começa a namorar um ex-colega de faculdade de medicina, Ryan (Bo Burnham), o filme começa a se transformar em algo estimulante. Finalmente começamos a entender os motivos de Cassandra fazer isso, permitindo que os riscos dramáticos aumentem, mas de uma forma que faz a parte anterior do filme parecer frívola em comparação. Uma vez que o jogo final da história ficou mais claro, ela mantém os espectadores no limite e no all-in, deixando você francamente grato por vermos como o sistema de justiça está realmente quebrado.

Mulligan interpreta uma dura Cassandra com a determinação controlada de uma mulher que não tem nada a perder, de uma forma que torna o filme uma fantasia sombria plausível. Na vida real, sabemos o que realmente acontece com os homens que cometem o que muitos chaman de “erros de embriaguez” – e como as mulheres que ficam arrasadas por causa dessas ações.

Promising Young Woman é um conto atual que parece, em última instância, catártico de uma forma muito real, mas onde o tom de abertura parece leve demais para a gravidade gritante de seu desfecho.

5 pipocas!

WandaVision: uma sitcom de super-heróis

Estou tendo um treco tentando escrever sobre WandaVision que estreou no Disney+.

O primeiro projeto de televisão da Marvel Studios desde que a empresa encerrou seu relacionamento com a Netflix é definitivamente focado num afastamento radical do estilo da Marvel. WandaVision está tão enraizado em comédias de televisão clássicas que o roteirista Jac Schaeffer e o diretor Matt Shankman tiveram a idéia de dar início à série encaixando a tela ampla e colorida do logotipo do Marvel Studios nas dimensões quadradas em preto e branco da televisão da Idade de Ouro e comprimir o jingle Dolby Digital em som mono diminuto.

A enérgica sequência de crédito que se segue nos leva à América dos anos 50, quando Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) e seu marido Vision (Paul Bettany) se mudam para um subúrbio parecido com o do The Dick Van Dyke Show. E quero dizer isso literalmente pois a casa deles é idêntica aquela que Dick (Rob Petrie) e Mary (Laura Petrie) chamavam de lar.

Visão está vivendo feliz com Wanda na pacata cidade de Westview e está trabalhando das 9h às 17h, o que ninguém entende completamente, e todas as noites ele volta para casa para Wanda para lidar com algum problema doméstico maluco na frente de um público de estúdio ao vivo. Só que as coisas absolutamente não são o que parecem – e isso demonstra um enredo muito mais complexo do que uma simples paródia. Os episódios incluem ainda comerciais de produtos da Stark Industries apresentados como a Top Therm e oferecendo chamadas de retorno para outras coisas relacionadas a Marvel.

– Mas, a quem se dirigem esses comerciais de TV?

WandaVision leva então mais dois episódios antes de começar a oferecer a mais vaga das respostas – e à medida que avança, também anda pelas décadas seguintes com jingles de séries dos anos 60 e 70, além de nos apresentar uma mulher chamada Geraldine (Teyonah Parris), que sempre se envolve nas desventuras de nossos heróis. Mas como a Disney só disponibilizou esses 3 episódios, ainda há perguntas:

– Vão rolar outros jingles? O que aconteceu com o sotaque Sokoviano de Wanda?

Tudo o que posso ter certeza, neste ponto, é que há muito mais acontecendo fora de Westview do que Wanda ou Vision parecem perceber – Geraldine não é o nome verdadeiro daquela mulher). E não saber, honestamente, é ótimo.

WandaVision é o tipo de coisa que a Marvel fez sabendo que sua base de fãs vai confiar neles para dar um grande salto conceitual nas histórias da Feiticeira Escarlate e do Visão – e parece que as pessoas por trás da história sabem que estão fazendo isso. Pela primeira vez em muito, muito tempo, não tenho ideia do que esperar de uma coisa da Marvel, e isso é uma boa surpresa.

5 pipocas!

Disponível no Disney+.

The Quarry: escondendo um pecado

Esse drama sombrio é baseado na ideia de que uma pequena cidade não é o melhor lugar para tentar manter segredos; The Quarry (A Pedreira) de Scott Teems coloca Moore (Michael Shannon), um chefe de polícia do Texas contra um suposto pregador recém-chegado The Man (Shea Whigham) que não é quem ele afirma ser estar. Celia (Catalina Sandino Moreno) e Valentin (Bobby Soto) são os outros personagens excelentes.

Suas performances sensíveis vão gerar faíscas num filme forte que nos transformará em um mordedor de unhas ambulante e por isso é provável que o longa receba críticas respeitosas e tenha boas perspectivas na arena da arte.

Conhecemos o personagem sem nome de Whigham quando ele foi achado, quase morto depois de caminhar por dias, na beira da estrada. O motorista da van David (Bruno Bichir), a caminho de um novo trabalho de pregação perto da Costa do Golfo, alimenta o estranho e lhe dá uma carona. Mas seus questionamentos tornam-se muito intrusivos no momento errado, e o homem estranho impulsivo o mata. Ele esconde então o corpo descuidadamente em uma pedreira, e assim adota sua identidade quando chega na pequena comunidade de Bevel.

Lá pergunta pra um garoto onde é a única Igreja do vilarejo, ele indica o caminho, e um adulto chama por ele. Mas um garoto sozinho a noite?!

Quando a van do David falso é assaltada pelo traficante de drogas local Valentin e o tal garoto, Poco (Alvaro Martinez), um tipo de atenção indesejável vem em sua direção pois ele terá de ir na polícia denunciar. Mas a desconfiança será crucial. Até a senhoria dos pregadores que vão e vêm, Celia, observa em várias ocasiões que ele não é como os outros pregadores que ela conheceu e não está claro exatamente o que ela quis dizer com isso.

O chefe de polícia Moore fica feliz em perseguir os irmãos pela denúncia de roubo, e quando ele encontra o corpo do verdadeiro David ele atribui o assassinato a eles também. Mas por algumas coincidências improváveis, Poco e Valentin têm certeza de que sabem quem é o verdadeiro assassino, e Moore pode em breve levar a sério essas afirmações.

Em Shannon, o diretor Teems tem um ator bem equipado para projetar um espectro de suspeitas, que vai da curiosidade moderada à insistência feroz de que vai conseguir seu assassino. E o roteiro, de Teems e Andrew Brotzman, dá ao artista virtuoso um caminho fácil. O perigo de que o David falso seja exposto cria tanto suspense que você não pára quieto no sofá.

Isso tudo torna fácil nos conectar com o que Whigham tem que interpretar: um cara taciturno e culpado prestes a ter um colapso lento. Ele é só um um fugitivo comum ou um homem fugindo de algo de que se envergonha? Pra nos deixar em dúvida entregam-nos alguém que passa a pegar versículos bíblicos apropriados para ler diante de uma pequena congregação que nem mesmo entende o que ele está dizendo.

The Quarry mostra que a mentira realmente tem perna curta e o carma vai te fazer pagar.

5 pipocas!

Disponível na Amazon Prime Video.

Céu da Meia-Noite: é preciso ter esperança

George Clooney dirige e estrela Céu da Meia-Noite (Midnight Sky), uma adaptação para Netflix super sensacional e extremamente atenciosa do romance de 2016 de Lily Brooks-Dalton, Good Morning, Midnight. Clooney, com uma barba grisalha luxuosa, interpreta o cientista Augustine Lofthouse, vivendo com câncer terminal e passando seus últimos dias em um centro de pesquisa remoto no Ártico em 2049, poucas semanas depois que um cataclisma não especificado destruiu a vida na Terra e transformou o planeta num deserto completo e inabitável.

Augustine tenta entrar em contato com quaisquer missões espaciais existentes para avisá-los o destino que se abateu sobre a Terra e, eventualmente, faz contato com o Aether, uma nave que retorna de uma missão para explorar uma das luas habitáveis ​​de Júpiter. Mas seu equipamento de rádio é muito fraco para que seu sinal chegue adequadamente à nave – com uma tripulação que inclui Sully (Felicity Jones), Comandante Adewole (David Oyelowo), Mitchell (Kyle Chandler), Sanchez (Demián Bichir) e Maya (Tiffany Boone).

O cientista parte então através do ártico hostil e selvagem para alcançar outra base onde ele espera encontrar uma antena mais poderosa. Acompanhando-o na viagem, está uma jovem, Iris (Caoilinn Springall), que ele encontra na base, aparentemente deixada para trás durante a evacuação de emergência.

Há uma ironia nessa chegada de tantos filmes apocalípticos nesses tempos longos e sombrios em que o mundo real tem sido assolado nos fazendo encarar tudo com um espírito desafiador e preocupado. O filme pode ser desconfortável para muitos no clima atual, só que este é um filme que não se preocupa com espetáculos vazios e emoções falsas e baratas; esse longa é uma história discreta e contemplativa que oferece um cenário desesperador e sem esperança mas, que consegue imbuí-lo com um senso real do espírito lutador da humanidade, mesmo em face da extinção total. O grisalho Clooney interpreta uma figura exausta, mancando ao redor da base ártica deserta com apenas a esperança de falar com o espaço para mantê-los vivos. Mas a descoberta da garota, sem vontade ou incapaz de falar, parece dar-lhe a força de que precisa para seguir em frente, apesar de sua alma enfraquecida e saúde debilitada.

Céu da Meia-Noite é um conto simples e muitas vezes pesado, pontuado por alguns cenários assustadores. Clooney e a garota quase morrendo no gelo e uma caminhada espacial perigosa para reparar os danos causados ​​por meteoros ao Aether é de parar o coração – mas é uma peça absorvente, contemplativa e belamente dirigida que pede ao público que persista enquanto se desenvolve rumo a um clímax que é ao mesmo tempo extremamente emocional e surpreendentemente edificante.

5 pipocas!

Disponível na Netflix.

Vida Após a Morte: há um antes e depois?

Vida Após a Morte (Surviving Death) é um documentário dirigido por Ricki Stern (de Surviving Jeffrey Epstein) baseado em um livro de Leslie Kean, que examina as diferentes maneiras pelas quais as pessoas vivenciaram a ideia de que a morte não é o fim da vida. Quer sejam os milhões que tiveram experiências de quase morte (EQMs), médiuns que afirmam falar com os mortos, a ideia de reencarnação ou pessoas que veem sinais ou pessoas reais direto do além, Stern procura levar esses fenômenos a sério, tendo uma visão jornalística do estudo da vida após a morte.

ZONA DE SPOILERS

De cara nos mostra uma médica – a última pessoa que poderia crer nisso.

Essa mulher que anda de caiaque é um dos muitos exemplos do doc com uma abordagem jornalística de Stern, conversando com pessoas que tiveram essas experiências e que poderiam não acreditar anteriormente nesses conceitos. Mas essa mulher, Mary Neal, uma cirurgiã ortopédica de coluna, teve uma experiência de quase morte em 1999, imobilizada sob a água depois de se acidentar com seu caiaque em uma cachoeira íngreme.

Ela se afogou e parou de respirar por mais de 30 minutos, e a EQM que ela teve foi bastante vívida, com cores que ela nunca tinha visto antes, com um abraço caloroso que muitos relataram e um sentimento avassalador de pertencer e de desmoronar ao mesmo tempo, enquanto nos expande. Como médica, ela nunca esteve inclinada a pensar na consciência como algo mais que limitado pelo estado físico do cérebro. Mas depois de sua experiência, as coisas mudaram profundamente.

Mas tem mais.

O próximo tópico introduzido, por exemplo, são premonições. Depois um exame de duas partes dos médiuns – em que cada um tira suas próprias conclusões e por aí vai. Veremos que pode se pedir recados dos mortos, entenderemos os fantasmas e suas aparições, gente beirando a morte que vê parentes já falecido e até crianças que recordam de suas vida anteriores, incluindo como morreram.

FIM DOS SPOILERS

Serão contadas em Vida Após a Morte muitas histórias semelhantes tanto sobre EQMs, quanto a respeito de outras experiências. Alguns especialistas, como o Dr. Bruce Greyson da Divisão de Estudos Perceptuais da Universidade da Virgínia, estão constantemente buscando definir a ciência por trás das EQMs e outros conceitos que expandem a definição de consciência além do corpo humano físico. Eles falam sobre essas coisas em termos científicos, expressando as semelhanças e diferenças que viram em milhões de relatos parecidos.

Essa série de 6 episódios é para você que não acredita piamente mas tem esperança. É sempre interessante ouvir as pessoas que passaram por EQMs ou outros fenômenos que expandem nossos pensamentos sobre a consciência. Mas não qualquer pessoa; não adianta ouvir de pessoas que têm profunda convicção religiosa ou pensam que o que experimentaram foi um “milagre”. É legal ouvir cientistas ou outros não crentes que foram profundamente mudados pelo que passaram.

Eu mesmo que vos escreve tive uma EQM e possuo dons mediúnicos herdados de família.

Vida Após a Morte segue esse caminho de pessoas céticas e é um show muito mais interessante por causa disso. Não que seja uma abordagem cética, mas Ricki Stern tenta encontrar tantos pontos de vista científicos quanto possível para explicae os causos. Esses especialistas não tentam explicar o inexplicável; eles relatam que esses estudos mudaram a forma como eles veem as coisas, mesmo que ainda não haja fatos científicos sólidos por trás de sua mudança de ponto de vista. Não que isso mude sua opinião, mas adotar essa abordagem ajudará os espectadores a abrir suas mentes e prestar atenção, em vez de descartar as pessoas entrevistadas como “malucos” ou “malucos religiosos”.

5 pipocas!

Disponível na Netflix.

Sound of Metal: o som do silêncio

O nosso idioma às vezes parece incapaz de capturar o peso dos fluxos e refluxos cataclísmicos de nossas vidas. As palavras “mudança” e “perda” não parecem significar nada demais e, no entanto, destinam-se a descrever alterações fenomenais em nossas experiências, perspectivas e em nós mesmos. Elas não são fáceis, e Sound of Metal sabe disso. Em vez de se contentar com uma representação de transformação, o filme derruba as paredes entre nós e os seus personagens e nos força a ouvir o que eles ouvem (ou não), e nos coloca ao lado de indivíduos que são forçados a aceitar (ou não) que o seu antigo modo de vida está agora totalmente inacessível. O resultado é uma experiência de corpo inteiro que permite que o drama se infiltre em seus ossos, fazendo-o sofrer com cada reação e sentimento introspectivo de Riz Ahmed arrancando um pequeno pedaço de seu coração.

Sound of Metal mostra Ruben (Riz Ahmed), o baterista de uma banda de thrash-metal, Blackgammon, que toca com sua namorada Lou (Olivia Cooke). Eles vivem e viajam juntos em um minúsculo motorhome e raramente estão separados. O amor deles é baseado numa codependência provocada por muito trauma e dor – ele é um viciado em heroína em recuperação e a mãe dela se matou, por isso eles são o mundo um do outro.

Mas lembre-se daquela célebre frase de Ajuste Final (1990): “Ninguém conhece ninguém. Não muito bem”.

Existem alguns lugares que não podemos ir juntos, e algumas viagens são rígidas e inalteravelmente individuais. Assim é para Ruben quando numa noite da turnê, enquanto quebra os tambores e range os dentes, e seu corpo esguio é sombreado na luz estroboscópica (iluminando uma tatuagem que diz Por favor, me mate), o som inexplicavelmente desaparece. De repente, o que ele podia ouvir anteriormente – o grito da voz de Lou cantando, a gritaria da multidão – se foi, e o que o substitui é uma espécie de penugem profunda e impenetrável.

Quando Ruben visita o médico e fica sabendo que perdeu cerca de 80% da audição e agora está “bastante prejudicado”, esse desenvolvimento significa o fim da vida como ele o conhece. E quando Ruben acaba em uma comunidade surda liderada pelo empático mas sincerão Joe (Paul Raci), com a diretriz de aprender a falar a língua de sinais e aceitar que esta é sua nova realidade, ele entra numa batalha árdua contra a depressão.

O que acontece a seguir desafia a ideia de que os humanos são adaptáveis. Ruben é um viciado em recuperação; será que o choque com essa mudança o levará a usar novamente depois de quatro anos sóbrio? Quem é Ruben sem música, sem Blackgammon, sem Lou? Os ritmos do vício guiam o comportamento de Ruben adiante. Seu desejo por uma solução rápida e os métodos desesperados que ele usará para consegui-lo, criarão um retrato profundamente convincente e empático da fragilidade masculina e da negação individual.

No roteiro, a atração da masculinidade tóxica é familiar para Danus Marder, que também co-escreveu o filme O Lugar Onde Tudo Termina (2012). Se percebem semelhanças entre Ruben de Ahmed e Luke de Ryan Gosling, um dos personagens principais daquele filme. Ambos os homens são afetados pelas expectativas da sociedade sobre a força e responsabilidade masculinas, presos entre o caos do ódio por si mesmos e o desejo de fazer melhor pelas pessoas que amamos. Para o Ruben de Ahmed, isso se manifesta em momentos que são dolorosamente belos em seu desejo de conexão humana.

A interpretação dessa batalha tem um poder altamente reativo com explosões descomunais para martelar a validade do que está acontecendo com Ruben e para fortalecer nosso envolvimento, mas a chave para o trabalho de Ahmed aqui é seu silêncio. Ahmed tem ódio no olhar; ele é um artista que pode reunir inúmeras palavras não ditas em um único olhar. Agressão e aversão. Arrependimento e culpa. Compaixão e amor. Seu Ruben possui uma medida de rigor rígido para que ele não perca o controle, e o desempenho é tão cativante que Ahmed nos dá pistas sobre a fratura interior de Ruben enquanto ele luta para entender quem ele quer ser. Ahmed e Cooke têm uma química tão fácil que você quase perde o perigo de sua co-dependência, e Cooke passa por uma transformação própria mais tarde no filme que vai fazer você se perguntar: o que fazemos para sobreviver?

O filme se dedica a nos colocar no lugar de Ruben e a fornecer aos surdos, e à comunidade, a nuance que eles merecem. Ahmed usou fone de ouvido especialmente projetados durante as filmagens que bloquearam sua audição onipresente, e essa experiência vivida transparece em sua performance. A mixagem de som do filme levou mais de cinco meses, e o resultado é uma atmosfera auditiva que nunca nos deixa acomodar na complacência: o som some, torna-se distorcida de forma variável, as conversas parecem estar ocorrendo debaixo d’água. E quando o filme foca na comunidade surda liderada por Joe, tomamos consciência de uma cultura próspera que é construída especificamente para e por eles. Tudo em Sound of Metal é meticulosamente intencional e tudo funciona junto a serviço de um trabalho diferente de tudo que você já viu antes.

Quando nossas vidas se tornam algo totalmente diferente do que antecipávamos, quem nos tornamos em consequência?

Os desafios dessa questão são o cerne de Sound of Metal, um filme repleto de verdades emocionais.

5 pipocas!

Disponível na Amazon Prime Video.

Desalma: magias e bruxas

Distanciando-se da tradição de narrativa de telenovela, Desalma é um drama sobrenatural, raro em sua natureza que permite ao seu diretor, Carlos Manga Jr., explorar as características clássicas gênero terror sem perder um certo fulgor melodramático tão enraizado na tradição latino-americana.

A série acompanha a chegada de Giovana (Maria Ribeiro) e suas duas filhas, Melissa (Camila Botelho) e Emily (Juliah Mello), a Brigida, cidade de descendentes de uma grande onda de imigração ucraniana. Ela decidiu se estabelecer lá e reconstruir sua vida após o suicídio repentino de seu marido, Roman (Nikolas Antunes), que tinha ligações familiares profundas com a cidade. À medida que Ivana Kupala, uma celebração folclórica eslava se aproxima, ela trás mistérios que cercam um crime do passado e rituais sombrios relativos à transmigração da alma.

– Que raios é Ivana Kupala, Pedroka?!

Ivana Kupala é uma das principais celebrações do calendário dos povos eslavos e muita gente, especialmente os jovens, comemoram esse dia como uma festa cheia de alegria, sem qualquer implicação religiosa. É uma cerimônia complexa que inclui a coleta de ervas e flores com determinados poderes, montagem das coroas de flores pelas moças jovens e decoração das casas com galhos verdes. A festa acontece desde os tempos antigos e foi conhecida entre os eslavos como uma celebração em homenagem do Sol. As pessoas se utilizavam de flores, faziam fogueiras, dançavam ao redor dela e cantavam músicas ritualísticas. As meninas colocavam coroas de flores com velas acesas na água do rio e faziam adivinhação sobre o futuro marido. Os casais pulavam juntos pela fogueira com as mãos dadas por que soltar as mãos significava separação breve. Era considerado dormir nessa noite por que as bruxas e todas as força de maldições estão acordadas. Existe uma lenda que diz: somente nessa noite floresce uma flor de samambaia e quem conseguir encontrar, ganhará grande poder e riqueza.

É muito raro encontrar terror na TV; o terror está em um lugar diferente agora, a era do pós-terror e os diferentes subgêneros chegou. O pós-terror não pode contar com os mesmos maneirismos de antes, por isso, Desalma não é só um thriller sobrenatural, é um drama sobrenatural. É um peculiar drama humano que ocorre em um ambiente sobrenatural.

A história é sobre a capacidade humana de não aceitar perdas. Nesta nova era de horror, Desalma mostra uma aldeia que não é a Ucrânia, e não é o Brasil, mas uma mistura dos dois. Esse povo vive em uma vila atemporal: o tempo parece estático lá.

Repleto de misticismo folclórico, o drama familiar Desalma destaca os valores da produção brasileira que, sim, existem.

Por exemplo, alguns momentos sonoros têm um suspense muito específico, muito sensorial, onde você não vê, mas sente. Ninguém está chorando, ninguém está cruzando a parede, mas você sente uma angústia silenciosa. Mesmo que você não consiga identificá-la, algo não está certo – isso se aplica tanto ao som quanto à imagem. Na tela, acima de tudo, há um sentimento muito melancólico porque essas pessoas estão perdidas.

5 pipocas!

Disponível na Globoplay.

Mulher Maravilha 1984: uma continuação incrível

É meus amigos e amigas, Mulher Maravilha 84 não é o de 2017, ele é um novo sucesso. Ele é todinho emoção. Os críticos chatonildos, dos sites chatonildos vão dizer “Ai! Mas dou só uns 3 de 5” porém, te asseguro: de 5 merece uns 10. Leva lá sua filhinha pra ver se ela não vai sair inspirada querendo ser a Diana Prince.

Esta nova aventura da DC Comics começa com um fabuloso flashback de Themyscira, onde a jovem Diana (Lilly Aspell) está competindo contra guerreiras mais velhas e aprende a lição mote do filme: Nenhum verdadeiro herói nasce da mentira. Profético, né?

Já em ’84 vemos que Diana (Gal Gadot) salva o mundo escondida enquanto trabalha como antropóloga. Lá no serviço ela conhece então, Barbara Ann Minerva (Kristen Wiig) que se apaixona por Diana e quer ser como ela. Por sorte do destino, uma pedra misteriosa vai conceder o desejo dela e de muitas pessoas. Incluindo os de Maxwell Lord (Pedro Pascal) que tem grandes planos e precisa dessa pedra para colocar sua busca por dinheiro e poder em movimento.

Até Diana teve o seu “sonho antigo” realizado: Steve (Chris Pine) está de volta. Como? Segredo. E são eles dois que colocarão tudo em ordem outra vez detendo Lord e Minerva.

Mulher Maravilha 84 é dirigido por Patty Jenkins de novo, e em suas 2h30 ganhamos força pra enfrentar o novo ano ainda em pandemia. Gal Gadot usa ainda mais do seu físico pra impressionar e continuar fazendo suas boas ações. “Ai mas tem umas cenas que humanamente são impossíveis”. Ela é uma heroína, caramba. Não devemos nos perder tanto em o quanto real é a coisa toda.

MM ’84 é uma ode à esperança.

2020 tem sido um ano difícil – e todos nós precisamos de quantas distrações pudermos ter. E considerando o descaso perante as 200 mil pessoas mortas e o disse-me-disse de quando seremos vacinados junto com as promessas mentirosas nas Eleições, ouvir a Mulher Maravilha proferir a frase “A verdade é o suficiente. A verdade é linda”, no final do filme, mostra como é importante dizer a verdade.

5 pipocas!

Em cartaz nos cinemas.

Fatman: um Papai Noel e sua arma

É, um milagre de Natal aconteceu.

Mel Gibson interpreta um Papai Noel corajoso e intransigente em Fatman (Homem Gordo), uma versão selvagem, engraçada e irônica do mito do velho e alegre São Nicolau.

Nesta narrativa totalmente moderna, o Chris Cringle (personagem clássico de De Ilusão Também Se Vive) de Mel Gibson está casado com Ruth (Marianne Jean-Baptiste) e é capaz de trabalhar por meio de pagamentos de subsídios do governo dos EUA. Mas quando a produção de brinquedos pro Natal termina e as contas precisam ser pagas, Chris e seus elfos são forçados a aceitar um contrato com os milicos para fazer painéis de controle para caças de combate.

Os tempos são difíceis, mesmo na aldeia do Papai Noel em North Peak, no Alasca.

E para piorar, ele também está sendo perseguido por um assassino cruel, que foi contratado pelo perverso garoto de 12 anos, Billy (Chance Hurstfield) que ganhou um carvão por, obviamente, ter sido um terrível menino e decidiu eliminar o velhinho. Em um papel que nasceu para desempenhar, Walton Goggins é o Homem Magro, um assassino excêntrico de aluguel que assume o trabalho de matar o Papai Noel, levando-o a um confronto sangrento na neve.

Okay, essa não é “uma maravilhosa história de Natal”.

Fatman, escrito e dirigido por Eshom Nelms e Ian Nelms (de Small Town Crime, 2017) é um filme B inteligente e com uma visão de futuro que reimagina e reposiciona a história do Papai Noel nos limites de um mundo novo sem espírito natalino. Não é um filme para todos, mas os geeks tiozões vão recebê-lo como um presente de Natal.

Seria fácil pegar o Papai Noel e fazer dele um Grinch crocante e odioso mas, os irmãos Nelms mantêm o ideal de Papai Noel puro com coração e essencialmente bom – não aquele Papai Noel, sabe, mas um Papai Noel dos nossos tempos atuais.

Gibson aqui é um grisalho de 64 anos que interpreta Chris com uma resignação cansada. É difícil pra ele ser o Papai Noel, mas alguém tem que fazer isso, e ele é essencialmente um trabalhador moderno sobrevivendo por dever constante. Gibson carrega bem o peso do papel com as rugas ao redor de seus olhos contando a história de uma vida inteira dando alegria para os outros; como um grande tributo pessoal para ele.

Já Goggins é perfeito como o assassino almofadinha, contratado por um pirralho mimado. Ele tem cara de vilão, e os irmãos Nelms deram a ele muito com o que “brincar”, incluindo uma história de fundo explicando sua relação com o Papai Noel na infância.

Fatman está cheio de novas idéias, conceitos totalmente atualizados e um elenco estelar, o que contribui para um deleite de férias inesperado.

5 pipocas!