Becky: crianças são o cão

A hilária estrela dos sitcoms, Kevin James, na dica de hoje, interpreta um neonazista todo tatuado no novo filme de invasão doméstica Becky, e se você acha que a presença dele soa um pouco ridícula, não posso dizer que te culpo. Eu mesmo quando vi algumas tomadas do trailer, pensei:

– Sério que o Segurança de Shopping aqui faz um papel dramático?! Você espera que eu compre a ideia dele sendo um supremacista branco?

Pois bem, estou aqui hoje para lhe dizer que, para minha grande surpresa, Becky entrega tudo isso e muito mais. Além de gore. Muito desse.

Lulu Wilson (de Annabelle: Creation) é a personagem-título, Becky, uma adolescente rebelde e corajosa que acompanha o seu pai viúvo Jeff (Joel McHale) em uma escapada de fim de semana para uma cabana remota, onde eles se encontram com a namorada do pai (Amanda Brugel) e o filho dela.

É uma viagem importante, pois o seu velho pai diz a ela que planeja se casar novamente. Porém, Becky, que é naturalmente protetora da memória de sua falecida mãe e um pouco pirralha também, não aceita as notícias muito bem e assim foge emburrada para a floresta nas redondezas como uma espécie de Rambo com lápis de cor e régua ao invés de uma faca grande na mão.

Enquanto isso, o impiedoso fugitivo nazista de Kevin James, Dominick, bate à porta da família fingindo estar procurando um animal de estimação perdido. Mal sabiam qual eram as reais intenções. Após ameaças e um tiro na perna da noiva de Jeff, o casal descobre que Dominick fala sério. Assim ele instrui seus amigos da Irmandade Ariana a procurar na casa uma chave misteriosa que ele acredita estar em algum lugar da propriedade. É quando eles percebem que a jovem Becky está do lado de fora sozinha, se tornando uma ameaça iminente que poderia correr e obter ajuda antes que os homens de Dominick tenham a chance de concluir sua missão.

Mais adiante, Dominick leva Jeff para o meio da floresta e começa a torturá-lo para que Becky possa ouvir seus gritos ecoando pelas árvores e, possivelmente, se revelar. Basta dizer que esse ato de agressão não melhora em nada o humor de Becky. Assim, com o o pai em desespero, ela não tem escolha a não ser resolver o problema com suas próprias mãos e cumprir sua missão. Lulu Wilson faz um bom trabalho como âncora emocional deste filme e, como um Kevin McAllister, de Home Alone, ela é criativa com sua vingança.

Tipo, matar com lápis de cor?! SIIIIIIIIIIM!

Os diretores Jonathan Milott e Cary Murnion não se esquivam da violência aqui, abraçando esse elemento como poucos filmes gore que eu já vi. Não fiquei surpreso ao saber que o primeiro corte deste filme recebeu a classificação 18 anos, forçando os cineastas a fazerem alguns cortes. O sangue é gratuito aqui, mas desde quando isso é ruim?! Há uma cena neste filme que me fez gritar WTF? WTF? por quase um minuto e se juntou à lista das coisas mais loucas que eu já vi em um filme.

A transformação de Kevin James pode não ser tão crível, mas foi eficaz. Não sei o que levou James a tatuar uma suástica gigante em sua cabeça e fazer com que este seja seu primeiro papel dramático, mas com certeza respeito o seu compromisso com o personagem. É um grande balanço de peso, para dizer o mínimo, mas, estranhamente, ele se conectou.

Há um suspense genuíno aqui e, algumas das cenas de assassinato elaboradas pelos escritores Ruckus Skye, Lane Skye e Nick Morris são simplesmente perfeitas.

Becky não é para todos e eu não culpo você por escolher outra coisa para assistir, porque você provavelmente já viu violência suficiente na vida real nesta semana, mas a violência neste filme é catártica; enquanto você assiste a essa jovem superestimada e subestimada se vingar de um bando de vendedores de ódio que merecem tudo o que lhe aguarda, sua esperança ganha mais fôlego.

5 pipocas ensanguentadas!

Em cartaz na Telecine Premium e Telecine Play.

Little Fish: um romance pandêmico

A Aflição Neuroinflamatória ou NIA é uma doença aguda semelhante ao Alzheimer que destrói as memórias da parte afetada e, ela pode atacar instantaneamente: os motoristas de ônibus esquecem como dirigir sentados em um cruzamento, os músicos não sabem mais tocar seus instrumentos no meio de um show. Em todos os casos os sintomas aparecem aos poucos enquanto amigos e familiares observam lentamente seus entes queridos desaparecerem bem diante de seus olhos.

A veterinária Emma Ryerson (Olivia Cooke) e o fotógrafo Jude Williams (Jack O’Connell) estão apaixonados. Eles sabiam que estavam destinados a ficar juntos quase desde o primeiro momento que se conheceram, mesmo que Emma estivesse em um outro relacionamento na época. Os dois logo se casam em aparente estado de êxtase mas, quando Jude começa a mostrar os primeiros sinais de NIA, eles estão compreensivelmente abalados, e esperando desesperadamente que uma cura ou tratamento seja encontrada antes que seja tarde demais. Assim como foi para seus amigos Ben (Raúl Castillo) e Sammantha (Soko).

Little Fish não é o filme mais fácil de se assistir no momento. É um drama inflexível que nunca se esquiva da terrível calamidade em seu cerne, tornando o romance de ficção científica de Chad Hartigan (Morris From América) um exame bastante perfeito de como é viver sob a sombra de uma pandemia global massiva. Se essa era ou não a sua intenção original, entretanto, é uma questão que deixo para outro dia.

Olivia Cooke é maravilhosa aqui. Ela carrega este filme por todos os seus altos e baixos com uma graça magnética. A atriz dá vida a Emma, ​​adicionando camadas de profundidade que saltam da tela. Há até um momento quase divino em que ela se depara com uma fila de pessoas tentando obter uma colocação em um estudo da NIA e a enxurrada de emoções que cruza seu rosto quando ela percebe o que isso pode significar para Jude nos deixa perplexo. Cooke é sensacional do começo ao fim, e nunca há uma batida ou movimento em falso em qualquer coisa que ela faz.

Onde Chad Hartigan se destaca mais é em sua construção de mundo e como ele encaixa todas as suas peças de quebra-cabeça não lineares com tanta facilidade. Há uma tensão constante borbulhando sob a superfície da jornada de Emma e Jude que me manteve interessado em descobrir o que iria acontecer a seguir. Mais do que isso, havia um lirismo poético nos momentos culminantes que trouxeram lágrimas aos meus olhos; a bela simplicidade das últimas cenas encheu meu coração de uma alegria inesperada.

Isso tudo é o que faz Little Fish valer a pena. Mesmo que Hartigan nunca pudesse antecipar que seu drama seria lançado em condições como as que estamos vivendo atualmente, de forma alguma ele não poderia pedir um momento melhor para seu filme ser distribuído. Ele traz uma aura revigorante de esperança para o que inicialmente parece ser uma situação totalmente ausente dela, tornando esta história de amor um excelente lembrete de que pequenas coisas podem fazer milagres e fazendo conexões humanas autênticas – não importa como elas ocorram – um presente inestimável que vale a pena a comemorar.

5 pipocas!

Sonhos De Uma Vida: um trauma antigo

Sonhos De Uma Vida reúne a pioneira diretora feminista britânica Sally Potter com Elle Fanning, que foi a estrela de um brilhante estudo sobre a amizade feminina, Ginger & Rosa. Já neste novo filme vemos mais uma prova de que a diretora e a estrela encontraram uma preciosa harmonia uma com o outra. O desempenho de Fanning aqui arde na tela enquanto ela interpreta Molly, uma jovem que cuida de seu pai Leo (Javier Bardem), um escritor mexicano que está passando por sintomas de demência muito angustiantes. Molly está dividida entre seu profundo amor por seu pai e sua crescente exaustão. É um retrato muito moderno de uma mulher trabalhadora à beira do esgotamento.

Quando Molly vai buscar Leo em seu apartamento no Brooklyn, ele está fora de si até para atender a campainha. Ela chega e o arrasta para consultas médicas, com desvios no hospital e numa loja de roupas. A intimidade de seu relacionamento é testada pelos flashes de memória de Leo e principalmente pela crueldade dos outros: um oftalmologista é brusco com ele, um cliente do supermercado o discrimina racialmente e sua segunda esposa, mãe Molly, interpretada por Laura Linney, diz que é tudo fingimento.

Ao longo do dia, a consciência de Leo vai para outra dimensão. Ele se joga inclusive para fora de um táxi enquanto revive uma discussão com sua primeira esposa, Dolores, interpretada por Salma Hayek.

Como Leo, o rosto geralmente charmoso de Bardem assume um vazio estranhamente inebriante, sua cabeça parece muito pesada para seus ombros e seus pés ficam instáveis; ele está vivendo mais dentro de sua cabeça do que na realidade presente. Molly se sente obrigada a suportar essa realidade sozinha e até pergunta:

Onde você esteve o dia todo, pai?

Embora este cenário possa beirar o melodramático, a visão de Potter sobre a doença de Leo é muito sentimental e, à sua maneira, cirúrgica. Leo encontra pouco conforto ao mergulhar nas suas memórias, e uma série de traumas, ele parece peneirar.

Há também um ponto de vista feminista aqui, na compreensão de que as responsabilidades de cuidar de Leo fizeram Molly desistir da sua carreira. Quando ela era criança, Leo deixou a família e viajou para a Grécia para escrever – um ato antipático, para não dizer egoísta. Molly terá que fazer uma escolha entre o trabalho e a vida, e também pode se arrepender do caminho não seguido.

Nem sempre é fácil assistir Sonhos De Uma Vida mas ele aborda um assunto angustiante com cuidado e nos convida a reconsiderar nossos preconceitos.

5 pipocas!

Disponível na Amazon Prime Video.

The Stand: mais 1 fim do mundo

Alguém realmente quer assistir a uma minissérie de 9 partes sobre um vírus que extermina uma parte considerável da população mundial agora? Claro ué, e te dou alguns motivos. Primeiro: é a versão mais recente do romance The Stand de Stephen King e é muito boa. Segundo: é um lembrete de que não importa o quão ruim as coisas estejam, elas sempre poderiam ser piores.

A série é uma versão extensa e repleta de personagens e como acontece com qualquer conjunto, alguns são mais interessantes do que outros. Como um romance, a história é impulsionada por um vírus criado pelo governo que se espalhou e matou, dizem, 99% da população mundial. É também uma história de viagem sinuosa, uma coleção de mini estudos de personagens e, em última análise, uma batalha entre o bem e o mal.

– Como assim, Pedroka?

Entre os muitos personagens está Stu Redman (James Marsden) que como alguns sobreviventes aparentemente é imune aos efeitos do vírus e, como o resto, foi convidado num sonho para ir ao Colorado encontrar Mãe Abigail (Whoopi Goldberg). Lá ele deve ser um dos líderes de uma nova comunidade. Os outros líderes são Larry Underwood (Jovan Adepo), um músico com uma quedinha por drogas; Nick Andros (Henry Zaga), que não pode ouvir, nem falar e ficou cego de um olho em uma briga de bar; Glen Bateman (Greg Kinnear), uma espécie de hippie moderno; e Frannie Goldsmith (Odessa Young), uma jovem que está viajando com o inquieto Harold Lauder (Owen Teague com um sorriso assustador típico de um personagem de King).

Até aí tudo bem, né? Na na ni na NÃO!

Exceto que todo mundo está tendo outro sonho de um tipo muito diferente. Neste sonho, um homem aparece oferecendo soluções para seus problemas – com um preço. Quem oferece é Randall Flagg (Alexander Skarsgård); ele está criando uma comunidade em Las Vegas e na realidade o cara é a personificação do mal. O CAPIROTO, meus amigos(as).

Nos 9 episódios da série muitas novas linhas serão traçadas, incluindo a aparição de Nadine Cross (Amber Heard) uma misteriosa professora e Tom Cullen (Brad William Henke) um homem com deficiência mental que faz amizade com Nick. Os residentes do Colorado ficam sabendo da comunidade de Las Vegas e aí então uma batalha dos mocinhos contra vilões se inicia como o foco principal da parada toda.

O OK dado por Stephen King contribuiu e muito para o sucesso dessa nova adaptação de The Stand (há uma versão de 1994 com Gary Sinise e Molly Ringwald) já que é muito bom ser aprovado pelo dono.

Houveram erros e acertos mas o mundo precisava de uma nova visão apocaliptica especialmente agora quando a Covid-19 ainda nos assola.

5 pipocas!

Disponível no Starz que pode ser assinado em conjunto na Amazon Prime Video.

Cidade Invisível: folclore brazuca

A nova série da Netflix, Cidade Invisível, é um show com criaturas míticas daquelas que se alinham com o folclore brazuca tradicional num local atual específico: o Rio de Janeiro. A Cuca, a Iara, o Saci e o Lobisomem moram lá. Já o Curupira e o Boto moram na floresta; protegendo-a. E ela e o mar são um patrimônio; não um produto.

De cara, um suspense: há 2 homens na floresta caçando no escuro e eles vêem algo ou alguém pegando fogo. Mas isso é só um senhor contando uma história, é seu Ciço (José Dumont), descrevendo essa cena pra criançada, incluindo uma menina chamada Luna (Manuela Dieguez).

Luna é filha de Gabriela (Julia Konrad), uma ativista que tem tentado manter a vila de pescadores longe das garras dos empresários, e o seu pai é Eric (Marco Pigossi), um investigador da Polícia Ambiental do Rio de Janeiro. Elas estão em uma Festa Junina na Vila Toré.

Até aí tudo bem, né? Não.

Eric será puxado para uma conspiração, pois Gabriela acabará tragicamente morta em um incêndio florestal que pode ter sido causado intencionalmente por uma construtora que tenta deslocar moradores para que possam comprar o terreno. Mas a morte de Gabi é suspeita.

Além disso, peixes começam a morrer e um boto aparece na praia, o qual acabará por se tornar Manaus (Victor Sparapane), morto sem explicação nenhuma. Eric rapidamente percebe que há muito mais em andamento do que um simples mistério de assassinato – e pode até envolver versões modernas de “divindades” do folclore brasileiro.

O conflito principal aqui não é nada sutil: é uma batalha entre a força da modernidade e a preservação da tradição, tornada literalmente pela presença de “deuses antigos” em novas roupagens. Esse é um gancho interessante para construir um mistério. Nem Eric nem as divindades sabem exatamente o que está acontecendo. Os primeiros episódios não hesitam em ficar estranhos, e não há tentativas de sugerir que tudo isso é loucura da cabeça de um homem enlutado.

O envolvimento de Eric com as “entidades” eventualmente atingirá um ponto alto quando chegar na porta de sua casa. Luna se interessa pelas tais criaturas, então…à medida que investiga mais sobre seu passado e o passado da vila onde sua esposa morreu, segredos obscuros vêm à luz.

Cidade Invisível se posiciona rapidamente como um show descaradamente fantástico, e esse é o barato da coisa toda. Ele pode parecer apenas mais uma história de “os mitos são reais”, mas ele amplia os horizontes culturais e, nesse mundo com viagens limitadas em que nos encontramos, é exatamente isso que precisamos.

5 pipocas!

Disponível na Netflix.

The Great: uma Rainha emponderada

Para quen não sabe, a Rússia no século 18 estava à beira do desastre, com uma guerra feroz contra a Suécia e seu progresso cultural e intelectual não conseguindo acompanhar o ritmo da Europa Ocidental. No entanto, na sátira histórica de The Great (A Grande), o imperador Pedro III (Nicholas Hoult) parece imperturbável. Cercado pelos confortos da realeza e pelo apoio de conselheiros ansiosos por agradar, ele trata a guerra como um incômodo e governar como uma brincadeira, por isso notícias de inquietação eram constantes.

Mas quando sua nova esposa, Catarina (Elle Fanning), não aprova seu estilo de vida, ele a rejeita como uma réplica casual das anteriores: “É um inferno se casar.”

Ao longo de The Great, o tom satírico de comédia negra captura como a política “teatral” e cega pode se tornar infantil em meio a uma crise. A negação da verdade de Peter e de seus aliados – uma verdade profundamente angustiante, envolvendo centenas de milhares de vidas perdidas – assemelha-se à rejeição de conselhos médicos do governo Donald Trump. A ignorância abre caminho para a felicidade preciosa de Pedro III. Para Pedro, governar é um espetáculo, não um dever.

A corte de Pedro pode ser um exagero da política russa da vida real no século 18, mas a estratégia tola de governo do personagem em face do desastre reflete a de Trump lá nos E.U.A. Ambos dependem do apelo da negação e da ignorância.

Mas, quando Catarina chega à Rússia vinda da Prússia, e ela vê o tribunal insano que governa o país, então ela planeja um golpe enquanto finge apoiar seu marido.

Mas quanto mais tempo ela passa como imperatriz, mais ela se conforma e se deleita com o mundo ao seu redor. Ela se envolve em disputas mesquinhas com as mulheres na corte, aceita presentes de Peter (incluindo um encontro com o filósofo francês Voltaire, a quem ela admira) e se apaixona pelo homem que Peter oferece para ser seu amante sexual. Um dia, ela até tem a chance de concluir seu golpe antes do planejado, mas no último minuto não consegue prosseguir.

The Great mostra ironicamente como a retórica desempenha um papel em fazer com que as pessoas evitem fatos desagradáveis: quando finalmente Peter reconhece a guerra, ele fala do conflito como uma chance de promover a glória da Rússia e ganhar o direito de se gabar se a Rússia vencer porém, a realidade foi terrível para Suécia e para a Rússia que perdeu 180.000 homens em uma guerra sem objetivo.

Em ambos os casos, Pedro III e Trump, o nacionalismo supera os perigos da crise. O poder da Rússia deveria prevalecer a todo custo mesmo com vidas perdidas – e as mortes por Covid-19 só aumentavam no goverso Trump.

The Great com todo o seu humor ultrajante, reconhece o fascínio perturbador de tal pensamento. Fanning e Hoult, cujas performances ajustadas transformam o relacionamento arranjado de Peter e Catherine em um embate de inimigos, focando em como o poder e o conforto que vem com isso podia corromper os dois. Ao final da temporada, nós, o público torcemos por Catarina não porque ela seja mais bem intencionada, e sim, porque ela reconhece seus privilégios e luta contra suas deficiências de governar, avaliando as circunstâncias que moldam sua visão de mundo.

5 pipocas!

Disponível no Starz que pode ser assinado em conjunto na Amazon Prime Video.

Night Stalker – Tortura e Terror: o mal existe

Como alguém que sabe muito sobre assassinos em série e crimes verdadeiros, é difícil nomear alguém tão assustador quanto Richard Ramirez. Conhecido por alguns apelidos desde seus dias de farra de crimes, o que pegou foi Night Stalker, e por um bom motivo. Ele fez os californianos prestarem atenção aos barulhos da noite em meados dos anos 80, nervosos de que pudessem ser sua próxima vítima. A nova série documental da Netflix Night Stalker: Tortura e Terror explora seus crimes, captura e julgamento ao longo de 4 episódios de 45 minutos mais ou menos.

À medida que nosso “fascínio” pelo verdadeiro crime aumenta, sensacionalizar aqueles que matam se torna uma tarefa inútil. E o show mostra até as muitas groupies que se ofereceram pra Ramirez durante seu julgamento e depois também (tipo WTF?!). Mas o doc é focado mesmo é no impacto de seus crimes. A história é retransmitida para o espectador a partir do ponto de vista dos detetives Frank Salerno & Gil Carrillo e de alguns repórteres que trabalharam no caso, bem como dos(das) sobreviventes e das famílias daqueles que não tiveram tanta sorte.

Eu só te alerto o seguinte: só assista se tiver estômago pra isso.

Os diretores James Carroll e Tiller Russell se dão bem em prender nossa atenção e nos levar de volta àqueles dias terríveis em Los Angeles e San Francisco. As entrevistas são bem construídas e sinceras, e os detetives de homicídios do xerife do condado de L.A. Frank Salerno e Gil Carrillo são absolutamente cativantes. A jovialidade de Carrillo ao lado do comportamento endurecido de Salerno é algo saído de um filme noir de Hollywood. Imagens reais da cena do crime e reportagens são intercaladas por toda parte e, embora às vezes isso possa ser explícito, a filmagem da cena do crime está quase no mesmo nível de um Arquivo Forense. Provavelmente não será tão chocante para os verdadeiros fãs de crime, mas os espectadores mais sensíveis devem ter cuidado, como já avisei.

A forma abrangente como os ex-membros da polícia descrevem alguns dos crimes horrendos, embora compreensíveis, é inquietante. E é o uso geral de fotos reveladoras da cena do crime, muitas das quais mostram claramente pessoas gravemente feridas, cadáveres ensanguentados e partes do corpo mutiladas juntamente com as descrições reveladoras do que as vítimas sofreram, quase ultrapassa a linha de informativo para explorador. No entanto, é isso que mostra o quantos nós humanos podemos ser cruéis. Homicídio e estupro são uma escolha desses animais e existem mais que imaginamos. Num país como os E.U.A em que pessoas deixam a portas abertas é mais fácil ainda monstros como esse surgirem do nada.

Night Stalker: Tortura e Terror é uma série documental bem produzida sobre um dos mais notórios assassinos da América. Se você já leu sobre Ramirez, ou se essa é sua introdução, o show é imperdível para os verdadeiros fãs de crime. Não se surpreenda ao verificar as janelas e as fechaduras duas vezes depois de assistir.

5 pipocas!

Disponível na Netflix.

Os Pequenos Vestígios: o passado dói

São as pequenas coisas que podem transformar em brilhante um thriller noir de crime. Cada detalhe deve ser meticulosamente construído para chegar num final grandioso e monumental, onde tudo é revelado após duas horas de adivinhação ininterrupta do público. Na minha opinião, este é o momento mais significativo do gênero noir, onde tudo culmina em um ponto onde o espectador diz “AHÁ!” e se torna mais envolvido na história do que nunca.

Em Os Pequenos Vestígios (The Little Things), de John Lee Hancock, esse momento acontece.

Seu primeiro ato prepara o público para um thriller brilhante: o xerife adjunto do condado de Kern, John “Dekke” Deacon (Denzel Washington), percebe semelhanças com um caso de assassinato em série que arruinou sua carreira como detetive enquanto acompanha o novo investigador Jim Baxter (Rami Malek) em uma nova cena de crime.

Tudo isso leva Deke a se unir a Baxter para rastrear um outro assassino. O seu principal suspeito é Albert Sparma (Jared Leto). No entanto, eles não têm evidências sobre Sparma, pois ele começa a brincar de gato e rato com os policiais.

Os Pequenos Vestígios cumpre sua promessa de um thriller noir eletrizante que faz tudo ao seu alcance para manter o público interessado, revelando pequenas pistas de algo maior estar em jogo, abrangendo décadas de investigação não resolvida. Denzel Washington está em sua melhor forma aqui, como um detetive desacreditado e frágil que não consegue se livrar do passado que se torna seu futuro.

Há uma vontade legítima de Deke terminar o trabalho. Ele é frio, cuidadoso e vai esperar o momento certo para tentar ser mais esperto que Sparma. Tudo isso não poderia ter sido transmitido sem a atuação magistral de Denzel. Muito do que ele pensa é transmitido por meio de suas expressões faciais, ao invés do diálogo, o que torna o personagem ainda mais complexo do que deveria ser. Ele compartilha uma química sólida com Jim Baxter de Rami Malek.

Mas a verdadeira estrela do filme é Jared Leto. Alguns críticos já duvidaram das habilidades de atuação de Leto, mas as pessoas parecem esquecer que ele pode ser bem perturbador – um pouco até demais. Não há uma única cena envolvendo Leto que não pareça assustadora ou imprevisível. Você nunca sabe o que ele realmente está fazendo, pois ele constantemente engana os detetives em armadilhas óbvias para sua própria diversão. O público não tem ideia se Sparma é o verdadeiro assassino ou não, mesmo que o filme tente fazer o público pensar que ele é o assassino. Então sem evidências tangíveis, o público é deixado em um estado sem fim de adivinhação, pensando que saberá mais conforme o filme avança para o final.

Aqui em Os Pequenos Vestígios, se você estiver curioso o suficiente pode realmente gostar desse mistério.

5 pipocas!

A Escavação: descoberta histórica

Manter uma conexão com o passado é fundamental para compreender o presente. O conhecimento da história nos permite aprender com aqueles que vieram antes, e de onde viemos muitas vezes pode nos ajudar a chegar para onde estamos indo. Mas, assim como o passado informa o presente, também o presente tenta definir o passado.

E a busca por esse conhecimento nem sempre é fácil. Alguns “buscadores” são puros de intenção, porém sempre haverá aqueles que tentam lucrar ou se engrandecer; pessoas essas que antigamente se tornavam “donos” por questões de circunstância, e não de talento.

A Escavação (The Dig) é dirigido por Simon Stone a partir de um roteiro de Moira Buffini, adaptado do romance de John Preston de mesmo nome – é uma história real de descoberta, um conto baseado em ações verdadeiras de arqueologia amadora e paixões abertas e opacas que exploram os laços de interesse e compreensão compartilhados e que podem ajudar a transcender as barreiras de classe.

Com um charmoso senso de eufemismo, um ritmo deliberado e algumas performances convincentes, A Escavação é um deleite discreto, um cobertor quente de um filme que se desenrola sem pressa como uma doçura macia de lábios. O filme consegue envolver seu público muito bem.

Em 1939, a Inglaterra estava à beira de entrar na guerra com a Alemanha. As operações militares estavam aumentando e o mesmo ocorria com o nível de retórica política. No entanto, mesmo em meio ao tumulto, vidas continuavam. A Sra. Edith Pretty (Carey Mulligan) – uma viúva que mora em uma propriedade no interior de Suffolk com seu filho Robert (Archie Barnes) – está procurando ajuda para determinar o que está enterrado nos montes em seus campos.

Depois de ser rejeitada pelos museus, a Sra. Pretty contrata então um escavador amador autodidata chamado Basil Brown (Ralph Fiennes) para liderar esse esforço. Brown, junto com alguns empregados, são contratados.

E mais tarde, o primo de Edith, Rory Lomax (Johnny Flynn) também é chamado e aceita a boa tarefa.

Depois de alguns tropeços iniciais, as coisas começam a progredir e eles começam a suspeitar que há mais ali do que se aparenta, embora tudo seja imediatamente rejeitado pelos acadêmicos. Mas, quando se descobre que realmente pode haver algo de importância histórica muito maior do que qualquer coisa, os museus antes desinteressados se forçam a voltar à cena. Liderada pelo renomado arqueólogo de Cambridge Charles Phillips (Ken Stott).

Com o Dr. uma grande equipe aparece para assumir o controle do local, entre outros, um casal recém-casado, mas já infeliz, Stuart (Ben Chaplin) e Peggy (Lily James).

Nisso a conexão entre o Sr. Brown e a família Pretty silenciosamente cresce, principalmente quando a saúde da Sra. Pretty se deteriora. É quando surge a questão sobre quem legalmente possui o que foi descoberto e para onde irá seguir – junto com a quem será creditado essa descoberta e os esforços feitos para esse fim.

A Escavação é um filme chamativo, agressivo e até barulhento. Mas também contido e despretensioso, e um filme tranquilo conduzido por relacionamentos bonitos e uma afeição decididamente forte pelo registro histórico, e por trás do verniz sombrio, todas essas pessoas, embora culturalmente orientadas para um certo tipo de quietude, têm suas próprias paixões que as movem de maneiras significativas.

O diretor Simon Stone não tem medo de se demorar nas imagens, escolhendo abraçar a beleza dos campos ingleses – uma beleza tão sutil quanto as atitudes carinhosas dos personagens – e usando-a como mais uma forma de transmitir a amorosidade das pessoas, ao mesmo tempo em que captura e contrapõe a incerteza da época. Curiosamente, embora grande parte deste filme seja construída de uma forma tradicional, quase antiquada até, existem algumas escolhas estilísticas genuinamente importantes. A maior delas é uma tendência exacerbada de contrastar essas imagens marcantes com os diálogos falados por personagens em outras cenas e lugares. Ou seja, existem inúmeras cenas em que o diálogo e as imagens contam diferentes partes da mesma história. Mesmo quando há personagens na tela cujas vozes ouvimos, nem sempre os testemunhamos no ato de falar. É um pouco estranho quando você percebe pela primeira vez, mas rapidamente desaparece no tecido suave da narrativa.

A natureza tranquila da história se estende às performances: Fiennes é maravilhoso como Basil Brown, evocando a humildade das raízes da classe trabalhadora e, ao mesmo tempo, transmitindo a paixão profunda e o talento para desenterrar e preservar este tipo particular de história; Mulligan faz um ótimo trabalho como Sra. Pretty, tendo em partes iguais uma tristeza e rigidez marcantes – é uma combinação difícil de realizar, mas ela lida muito bem com isso.

As várias reviravoltas de apoio são todas sólidas, e com alguns destaques – para James e Chaplin, obviamente, com seu amor por aparência. Eles são muito talentosos e dão vida real a um relacionamento que não é muito mais do que uma fachada. Já Flynn também é muito bom com seu personagem sofrendo da mesma sensação profunda de incerteza que temos com a dinâmica do “casal de mentirinha”.

A Escavação é um drama de realidade bem executado do tipo que não vemos tanto quanto antes, e que fala baixo e se move devagar; é bem sutil e criterioso com seus encantos e agradará a todos.

5 pipocas!

Disponível na Netflix.

Zoey e Sua Fantástica Playlist: sentimentos musicais

Zoey e Sua Fantástica Playlist (Zoey’s Extraordinary Playlist) preenche o lugar dos musicais de TV anteriormente ocupados por Smash, Roadies e por Glee. Eu estava cético em relação à série no início, não tão pronto assim para me apaixonar por outro musical e ser decepcionado por um cancelamento antecipado. No entanto, a série superou todas as minhas expectativas e provou ser um dos melhores novos seriados do ano – é comovente, cafona da melhor maneira possível e instigante. Eu posso te dizer até que ele atinge todas as notas certas.

Dramédias musicais são complicadas de se produzir (e não agradam todas as faixas etárias) porém, Zoey e Sua Fantástica Playlist consegue fazer o que a maioria não consegue. Usa sua carta na manga baseada não só em seus números musicais (embora eles sejam muito bons) mas em sua exploração das emoções e de maneiras de expressar a confusão que chamamos de “nossos sentimentos”.

 

TEMPORADA 1

A premissa é um tanto bobinha: durante uma ressonância magnética de rotina, um terremoto atinge São Francisco e, enquanto Zoey Clarke (Jane Levy) ainda está dentro da máquina, ela é agraciada com a capacidade de ouvir as pessoas cantando seus sentimentos íntimos. Zoey começa a chamá-los de canções do coração.

Em meio a todo esse acaso inexplicável, a moça é disputada pelo colega de trabalho Simon (John Clarence Stewart) e pelo melhor amigo Max (Skylar Astin);

Se intromete nos problemas pessoais de outras pessoas, como a de Mo (Alex Newell), sua vizinha cantora;

E ainda precisa lutar contra a Paralisia Supranuclear Progressiva (PSP) de seu pai, uma doença degenerativa que impede Mitch (Peter Gallagher) de falar ou se mover. Ele não está aceitando muito bem esse fardo; e Zoey, junto com sua mãe Maggie (Mary Steenburgen), o irmão David (Andrew Leeds) e cunhada Emily (Alice Leeds), têm que enfrentar a tristeza inexplicável de perdê-lo antes do esperado.

A série se inspira no showrunner Austin Winsberg, que perdeu seu pai para o PSP vários anos antes. Zoey, no show, lida com a dor de uma maneira que a maioria das séries ignora ou passa muito pouco tempo explorando. Ela passa a maior parte da temporada se preocupando com seu pai (e as coisas ficam muito reais para ela assimilar às vezes; o que é muito humano). Ela também passa um tempo muito necessário com ele. É uma representação completa de luto e luta pessoal que não é focada apenas no drama e nunca é emocionalmente manipuladora do seu público. É algo surpreendente por causa da ternura e abordagem genuína do musical para a história.

Como na vida real, o mundo inteiro de Zoey não é só o problema de seu pai. Ela trabalha em uma empresa de tecnologia onde gerencia um grupo excêntrico de funcionários e se vê constantemente envolvida no drama de outras pessoas, incluindo o de sua chefe, Joan (Lauren Graham, a Lorelai de Gilmore Girls). Como Zoey pode ouvir outras pessoas cantando (e dançando), ela é testemunha de riffs competitivos e muita criatividade nos arranjos musicais de clássicos pop/rock/rap. Por isso que é tão divertido.

TEMPORADA 2

Já na parte seguinte algumas coisas são mais definitivas. Faltam pessoas e responsabilidades maiores surgem. Ela agora é tia, já que David e Emily tiveram um menininho; ela enfim escolheu o pretendente e a chefe foi pra Tailândia deixando tudo a cargo dela como administradora.

O roteiro equilibra magistralmente todas as suas tramas e personagens sem perder o ritmo. É encantador, animado, atencioso e selvagem. O elenco é fantástico, trazendo seu melhor canto para as versões, além de cenas dramáticas e alegres em grandes números de dança. É um show único para quem gosta da agitação de um musical, com uma dose de drama fundamentado. Talvez o que torna o show tão distinto é que ele está totalmente formado.

Zoey e Sua Fantástica Playlist é um triângulo amoroso que não irrita os nervos, é uma história familiar complicada e é retrato do estresse relacionado ao trabalho, o que torna um show emocionalmente realista. A música só eleva e complementa o material perfeitamente.

5 pipocas!

Disponível na Globoplay.