O cardiologista João Jazbik Neto, de 78 anos, estava preso preventivamente desde 14 de agosto. A defesa nega envolvimento e afirma que vai contestar laudos que afastaram a hipótese de suicídio.

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) determinou, nesta quinta-feira (20/08), a soltura do cardiologista João Jazbik Neto, de 78 anos, investigado pela morte da esposa, a fisioterapeuta Fabíola Marcotti, de 51 anos.
O médico estava preso preventivamente desde o dia 14 de agosto, por decisão da 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande, e deixou a prisão após a análise de um habeas corpus.
A informação foi confirmada pelo advogado José Belga Assis Trad, que reafirmou a inocência do cliente. Segundo a defesa, João colaborou com as investigações e cumpria as medidas cautelares determinadas anteriormente pela Justiça.
“Ele é inocente. A vítima se despediu em carta registrada num diário em que havia outras mensagens dela expressando ideação suicida. Os laudos serão contestados em juízo pela defesa”, afirmou o advogado.
Até a publicação das informações consultadas, não haviam sido divulgados todos os fundamentos utilizados pelo TJMS para determinar a soltura, nem eventuais novas medidas cautelares impostas ao cardiologista.

Investigação apontou feminicídio
Fabíola Marcotti foi encontrada morta com um tiro na cabeça no dia 18 de maio, na chácara onde vivia com o marido, na região da Chácara dos Poderes, em Campo Grande (MS). João foi quem acionou o socorro e informou inicialmente que a esposa teria cometido suicídio.
Conforme o relato registrado na ocorrência, o médico disse que Fabíola havia realizado atividades rotineiras pela manhã e, depois, subido para o quarto do casal. Como ela demorou a retornar, João afirmou que foi até o andar superior, bateu na porta e não obteve resposta.
Ainda segundo a versão apresentada à polícia, ele teria descido até a cozinha e tentado telefonar para a mulher. Pouco depois, ouviu um disparo e voltou ao quarto, onde encontrou Fabíola caída no chão. O médico então teria chamado um ex-caseiro e os funcionários que estavam na propriedade. O grupo acionou o número 190.
A morte passou a ser investigada pela 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam). Durante o trabalho policial, foram identificadas divergências entre os relatos apresentados no local e os vestígios analisados pela perícia.
A Polícia Civil também apontou que um armário com armas e munições teria sido retirado da residência principal e levado para outro imóvel dentro da propriedade depois da morte da fisioterapeuta. No mesmo dia do óbito, João foi preso por posse irregular de arma de fogo e suspeita de fraude processual.
/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/W/t/4xHUxiSGWmEBqS9L0PqA/para-o-g1-20-.jpg)
Médico já havia sido preso
Após a primeira prisão, João permaneceu detido por alguns dias. Em 22 de maio, a Justiça concedeu liberdade ao cardiologista mediante medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica e a prisão domiciliar.
Em julho, o TJMS confirmou, por unanimidade, a liberdade do médico. Na ocasião, a decisão analisou os crimes relacionados à posse irregular de armas e à suspeita de fraude processual, mas não representou uma conclusão sobre a responsabilidade dele pela morte de Fabíola.
A nova prisão, decretada em 14 de agosto, foi determinada no inquérito que apurava diretamente a morte da fisioterapeuta. A defesa classificou a medida como “descabida” e argumentou que ainda não havia denúncia formal apresentada contra o cardiologista.
Laudos afastaram hipótese de suicídio
A investigação ganhou novo rumo após a análise do laudo necroscópico. O documento afastou a possibilidade de que o disparo tivesse sido feito com a arma encostada ou muito próxima da cabeça de Fabíola. O exame também descreveu hematomas em diferentes partes do corpo da fisioterapeuta.
Na segunda-feira (17), a Polícia Civil informou que havia concluído o inquérito. De acordo com a 1ª Deam, os laudos produzidos pelo Instituto de Criminalística e pelo Instituto de Medicina Legal afastaram a hipótese de suicídio inicialmente considerada e indicaram que Fabíola teria sido morta em um contexto de violência doméstica e familiar. O procedimento foi encaminhado ao Ministério Público para análise.
No dia seguinte, o juiz Aluízio Pereira dos Santos, da 2ª Vara do Tribunal do Júri, explicou que a prisão preventiva foi baseada em elementos reunidos durante a investigação pericial.
Segundo o magistrado, os exames indicaram que Fabíola teria sofrido agressões antes do disparo. A análise apontou que ela teria recebido inicialmente um golpe com instrumento contundente na lateral direita da cabeça e caído. Depois, já no chão, teria sido atingida por outro golpe, desta vez na lateral esquerda.
A perícia também analisou manchas de sangue, a trajetória do projétil e a posição do corpo. A conclusão apresentada à Justiça foi de que a morte ocorreu em um cenário compatível com violência contra a vítima.
Defesa contesta provas
A defesa sustenta que Fabíola apresentava sinais de ideação suicida e que teria deixado uma carta de despedida registrada em um diário. O advogado José Belga Trad afirma que os laudos serão questionados judicialmente e que a versão apresentada pela investigação será contestada durante o processo.
A família da fisioterapeuta, por outro lado, rejeita a hipótese de suicídio. Em nota, os parentes afirmaram que não aceitam uma explicação considerada “pronta” para a morte e defenderam que o caso seja apurado com rigor técnico, sem pressa ou omissões.
Com a soltura, João Jazbik Neto responderá à investigação em liberdade, salvo se novas decisões judiciais determinarem o contrário.
O Ministério Público deverá analisar o inquérito policial e decidir se apresenta denúncia, solicita novas diligências ou promove o arquivamento do procedimento.






