“Andropausa” silenciosa: sintomas não devem ser tratados como parte inevitável da idade. Médico alerta que queda da libido, fadiga, perda muscular e mudanças de humor podem justificar investigação hormonal, mas reposição de testosterona não é indicada para todos.

Cansaço persistente, redução da libido, piora da ereção, menor disposição para atividades físicas e aumento da gordura corporal são mudanças que muitos homens costumam atribuir automaticamente ao envelhecimento, ao excesso de trabalho ou ao estresse cotidiano. Para o médico Dilson Maurer, porém, parte desses sinais merece atenção e avaliação individualizada.
Popularmente chamada de “andropausa”, a redução da testosterona não ocorre da mesma forma que a menopausa nas mulheres. No homem, a queda hormonal tende a ser gradual, não aparece necessariamente em todos os indivíduos e não pode ser diagnosticada apenas pela idade ou por um sintoma isolado.
“Na prática médica, é mais adequado falarmos em deficiência androgênica ou hipogonadismo quando há sintomas compatíveis associados à confirmação de testosterona baixa em exames realizados de forma adequada. Não basta estar cansado aos 45, 50 ou 60 anos para concluir que a causa é hormonal”, explica Dr. Dilson Maurer.
Diretrizes médicas recomendam que o diagnóstico de hipogonadismo seja feito apenas quando há sinais e sintomas compatíveis e níveis de testosterona repetidamente baixos, confirmados por exames colhidos pela manhã, em condições adequadas.
Sintomas podem passar despercebidos
De acordo com o médico, o caráter “silencioso” do problema está justamente na facilidade de confundir possíveis sinais hormonais com questões comuns da rotina adulta. “É frequente o paciente dizer que perdeu disposição, não tem mais o mesmo rendimento físico, está com dificuldade de concentração ou percebeu queda do desejo sexual. Como essas mudanças podem ocorrer aos poucos, ele se acostuma com elas e pensa que é simplesmente uma consequência natural da idade”, afirma Maurer.
Entre os sintomas que podem justificar uma consulta estão:
-Redução da libido ou do interesse sexual.
-Alterações da função erétil.
-Fadiga persistente e menor disposição.
-Redução de massa e força muscular.
-Aumento da gordura corporal, especialmente abdominal.
-Queda da performance física.
-Alterações de humor, irritabilidade ou desânimo.
-Dificuldade de concentração e redução da sensação de bem-estar.
-Perda de densidade óssea ou anemia sem explicação definida, em alguns casos.
“Esses sintomas não significam, por si só, deficiência de testosterona. Eles também podem estar ligados a depressão, ansiedade, privação de sono, obesidade, diabetes, doenças da tireoide, uso de medicamentos, consumo excessivo de álcool ou outras condições clínicas. Por isso, o olhar precisa ser amplo”, ressalta o clínico.

Sexualidade não deve ser prova de virilidade
Para Dilson Maurer, a dificuldade de procurar ajuda não é apenas médica. Há uma barreira cultural importante que ainda afasta homens dos consultórios, principalmente quando o assunto envolve desejo sexual, desempenho ou ereção.
“Durante muito tempo, a masculinidade foi associada à ideia de que o homem precisa estar sempre disponível sexualmente, sempre forte e sem demonstrar fragilidade. Quando surge uma alteração de libido ou de ereção, muitos preferem esconder o problema porque interpretam isso como falha pessoal, e não como uma questão de saúde”, avalia.
O resultado pode ser o adiamento da investigação de situações que têm tratamento ou controle. “A sexualidade precisa deixar de ser vista como um teste de masculinidade. Ela é uma dimensão da saúde e da qualidade de vida. Falar sobre isso com um profissional não Qualidade de vida: diminui ninguém; pelo contrário, é uma forma de cuidado”, afirma.
O médico lembra que disfunção erétil e queda do desejo sexual podem ter causas hormonais, vasculares, metabólicas, neurológicas, emocionais ou relacionadas a medicamentos. Por isso, abordar o sintoma de forma precoce pode contribuir para diagnosticar outras condições de saúde.

Exame isolado não fecha diagnóstico
A dosagem de testosterona é importante, mas não deve ser interpretada fora do contexto clínico. Maurer explica que o hormônio sofre variações ao longo do dia, razão pela qual a coleta costuma ser recomendada no período da manhã.
“Não é adequado fazer um exame em qualquer horário, receber um resultado limítrofe e começar reposição. A investigação geralmente exige confirmação em nova coleta matinal, além da avaliação dos sintomas, do histórico de saúde, do uso de medicamentos e de possíveis causas para a alteração”, detalha.
A recomendação de entidades médicas é de que níveis baixos sejam confirmados em pelo menos duas dosagens feitas em dias diferentes, preferencialmente no início da manhã. Em casos selecionados, a avaliação pode incluir testosterona livre e outros exames para investigar o funcionamento dos testículos, da hipófise, da tireoide, o metabolismo, a presença de anemia e fatores associados.
“Um número baixo em um exame pode ocorrer por doença aguda, sono inadequado, estresse, alteração alimentar, obesidade ou até questões relacionadas ao horário da coleta. O diagnóstico não pode se basear em uma única dosagem nem em propaganda de reposição hormonal”, afirma.

Reposição exige indicação e acompanhamento
A terapia de reposição de testosterona pode ser uma alternativa para homens com hipogonadismo confirmado e sintomas relacionados à deficiência hormonal. No entanto, a indicação deve ser individualizada, após investigação da causa, avaliação de contraindicações e conversa clara sobre possíveis benefícios, riscos e necessidade de monitoramento.
“Não é correto afirmar que todo homem que envelhece precisa usar testosterona. Da mesma forma, não se deve negar tratamento a quem realmente tem deficiência comprovada e sintomas relevantes. A decisão precisa ser técnica, personalizada e acompanhada”, diz Maurer.
Quando há indicação, o tratamento pode contribuir para corrigir sintomas de deficiência androgênica e preservar características sexuais secundárias. A conduta, no entanto, requer seguimento clínico e laboratorial, pois o médico precisa avaliar a resposta, os níveis hormonais e a segurança do tratamento ao longo do tempo.
Maurer também diferencia a reposição terapêutica do uso abusivo de hormônios anabolizantes. “A testosterona pode estar presente nos dois contextos, mas eles não são equivalentes. Na reposição, busca-se tratar um paciente com deficiência confirmada, usando dose e acompanhamento médico para manter níveis fisiológicos. Já o uso suprafisiológico para fins estéticos ou de desempenho envolve objetivos, doses e riscos completamente diferentes.”
Telemedicina pode reduzir constrangimento
A consulta remota também pode ser uma porta de entrada para homens que têm vergonha de falar sobre sintomas íntimos, segundo o médico. Em situações apropriadas, a telemedicina permite uma primeira conversa reservada sobre queda da libido, alterações de ereção, fadiga, sono, humor e mudanças corporais.
“Alguns pacientes se sentem mais à vontade para iniciar esse diálogo à distância. A telemedicina pode ajudar a quebrar a barreira inicial, orientar exames e definir se será necessária avaliação presencial, exame físico ou encaminhamento a endocrinologista, urologista ou outro especialista”, observa.
O atendimento remoto, no entanto, não substitui a consulta presencial quando ela for necessária. “A ferramenta facilita o acesso, mas o cuidado deve seguir critérios médicos. Há situações em que o exame físico, a avaliação cardiovascular, exames complementares e acompanhamento presencial são indispensáveis”, destaca.
Saúde masculina além da testosterona
Para Dilson Maurer, o debate sobre a chamada “andropausa” deve servir, principalmente, para ampliar a atenção à saúde masculina.
“A pergunta não deveria ser apenas ‘minha testosterona está baixa?’. O mais importante é: quais sintomas estou normalizando? Estou dormindo bem? Como está meu peso, minha alimentação, minha pressão, glicemia, saúde mental e vida sexual? O corpo dá sinais, e ignorá-los por vergonha ou por achar que fazem parte da idade pode atrasar cuidados necessários”, conclui.
A recomendação é procurar avaliação médica diante de sintomas persistentes, especialmente quando eles comprometem a qualidade de vida, a sexualidade, o trabalho, o humor ou a capacidade física. A investigação pode mostrar uma deficiência hormonal, mas também pode identificar outras causas tratáveis — e é justamente essa avaliação completa que torna o cu








