João Augusto Borges de Almeida, de 22 anos, foi condenado a 67 anos e 6 meses de prisão por duplo feminicídio qualificado e ocultação de cadáver.

O júri popular, realizado por sete horas no Fórum de Campo Grande(MS), nesta quarta-feira (27/05), encerra um dos casos que mais comoveu Mato Grosso do Sul: o assassinato da companheira Vanessa Eugênia Medeiros, de 23 anos, e da filha do casal, Sophie Eugênia Borges de Medeiros, de apenas 10 meses de vida.
Laudo pericial
O laudo pericial detalha a dinâmica do crime com precisão técnica. Vanessa foi morta dentro da residência do casal com um golpe conhecido como “mata-leão” (estrangulamento por compressão do pescoço com os braços), causando asfixia mecânica.
Em seguida, João matou a própria filha por esganadura (estrangulamento manual). A perícia identificou sinais de luta na residência e tentativa de limpeza do local após os homicídios: manchas de sangue foram removidas parcialmente e o piso foi lavado, mas vestígios biológicos permaneceram e foram coletados para exame de DNA.

Frieza e crueldade
Após os assassinatos, João retornou ao trabalho normalmente. Horas depois, colocou os dois corpos no porta-malas do carro, comprou gasolina em um posto e levou mãe e filha para uma área afastada do Bairro Nova Campo Grande, onde ateou fogo nos cadáveres para ocultar o crime.
Os corpos carbonizados foram encontrados na noite de 26 de maio de 2025 em um terreno na Rua Desembargador Ernesto Borges. Um detalhe comovente registrado pela perícia: mesmo após a carbonização, a bebê permanecia sobre o corpo da mãe, como se ainda estivesse protegida pelo abraço materno.
O Ministério Público sustentou que os assassinatos foram premeditados e marcados por extrema crueldade. Durante o júri, o promotor leu trechos da confissão dada por João à polícia logo após a prisão, quando o réu afirmou ter “dormido melhor” após os crimes e considerado que “se livrou de um problema”.

Depoimentos
Um ex-colega de trabalho depôs que João já comentava dias antes de ter um “plano perfeito” para matar Vanessa e chegou a pedir ajuda para “desovar” os corpos.
A irmã de Vanessa emocionou o plenário ao relatar que a jovem tentava agradar o companheiro e fazia esforço para aprender a cozinhar porque João exigia chegar em casa e encontrar “bolo e café quentinho”.
A defesa tentou afastar parte das qualificadoras do feminicídio e argumentou que João teria agido após “perder o controle” durante discussão com a companheira.
No interrogatório, o réu negou ter planejado os crimes e alegou ter recebido um tapa no rosto de Vanessa, momento em que teria perdido a razão.
João também afirmou ter lapsos de memória sobre os momentos após os assassinatos, versão contestada pela acusação, que relembrou a riqueza de detalhes apresentada pelo réu na confissão inicial à polícia.
João Augusto acabou preso enquanto tentava registrar um boletim de ocorrência sobre o desaparecimento de Vanessa e Sophie, em 27 de maio de 2025. Durante a investigação, segundo a Polícia Civil, ele confessou os crimes com frieza. A prisão preventiva foi decretada e ele passou a responder por duplo feminicídio qualificado e ocultação de cadáver.
Após a leitura da sentença, Eneide Lima Eugênio, mãe de Vanessa e avó de Sophie, afirmou que nenhuma condenação seria capaz de reparar o que foi tirado dela: “Acabou com a minha família”.
A mãe da vítima disse que o grau de crueldade do crime e a tenra idade da bebê tornam a perda irreparável, independentemente da pena aplicada.
O caso ganhou repercussão nacional pela brutalidade dos crimes e pela morte de uma bebê de apenas 10 meses. Campo Grande acumula 85 vítimas de feminicídio nos últimos 10 anos.
O Ministério Público de MS pediu ainda indenização à família de Vanessa e Sophie por danos morais e materiais.

João Augusto Borges de Almeida foi condenado a 67 anos e 6 meses de reclusão em regime fechado. A pena será cumprida em unidade prisional de segurança média ou máxima.
A defesa pode recorrer da sentença, mas a condenação por duplo feminicídio qualificado tende a se manter, dada a prova pericial robusta, os depoimentos e a confissão inicial.
Para a família de Vanessa e Sophie, porém, a pena não traz alívio. Como disse Eneide, mãe da vítima: “nenhuma pena repara a perda”. O que resta é a luta por justiça e a memória de duas vidas ceifadas pela violência doméstica.






