Servidores tiveram armas, carteiras funcionais e acessos a sistemas recolhidos após investigação apontar suposto desvio de cocaína apreendida em delegacias e depósitos oficiais. Todos são investigados sobre devolução de drogas ao tráfico.

A Corregedoria-Geral da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul determinou o afastamento compulsório do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa e de sete investigadores presos preventivamente durante a Operação Infiltrados. As portarias foram publicadas no Diário Oficial do Estado desta sexta-feira (25/09), com efeitos retroativos a quinta-feira (24/09), data da deflagração da ação.
Os servidores são investigados por suspeita de integrar um esquema que, conforme o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), desviava principalmente cocaína apreendida em ações policiais e a devolvia ao mercado ilegal. A apuração indica que parte da droga poderia deixar de ser registrada oficialmente ou ser retirada de depósitos de delegacias antes da incineração, para depois voltar às mãos de traficantes.
A decisão administrativa não representa condenação criminal. Os investigados respondem às acusações no âmbito judicial e têm garantidos o contraditório e a ampla defesa.

Afastamento atinge delegado e investigadores
Com as determinações assinadas pelo corregedor-geral da Polícia Civil, Clever José Fante Esteves, o delegado e os sete investigadores ficam afastados de suas funções enquanto permanecem presos preventivamente.
As medidas incluem o recolhimento de carteiras funcionais, armas de fogo e outros bens públicos que estejam sob posse dos servidores. A Corregedoria também ordenou a suspensão imediata de senhas e logins de acesso aos sistemas internos da Polícia Civil, como Sigo e Infoseg, além do cancelamento de férias eventualmente programadas durante o período de prisão.
O afastamento atinge:
-O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, lotado em Terenos.
-O investigador Douglas Tobias, do GOI (Grupo de Operações e Investigações).
-O investigador Luiz Carlos de Souza, da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico).
-O investigador Marcos André Santos Chaves, da 1ª Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher).
-O investigador Nelson Ricardo Barros de Oliveira, da Defurv (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos e Furtos de Veículos).
-O investigador Neverson Vieira de Araújo, da DHPP (Delegacia Especializada de Repressão a Homicídios e de Proteção à Pessoa).
-O investigador Nilton César Sales dos Santos, da Derf (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos e Furtos).
-O investigador Roberto Palmeira da Silva, da Depac Centro (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário).
A delegada Bárbara Camargo Alves, adjunta da 2ª Delegacia de Polícia de Campo Grande, foi designada para responder pela unidade de Terenos, onde Hoffman estava lotado.
Investigação aponta retorno de drogas ao crime
A Operação Infiltrados foi deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), com apoio das corregedorias das polícias Civil e Militar. A investigação apura a atuação de uma organização criminosa formada, segundo o MPMS, por agentes de segurança e outros envolvidos no desvio de entorpecentes.
O ponto central da investigação é a suspeita de que drogas recolhidas em ocorrências, especialmente cocaína, não chegavam integralmente aos registros oficiais. A carga poderia ser subtraída ainda na fase de apreensão ou retirada posteriormente de depósitos das delegacias, antes do procedimento de destruição, e então novamente comercializada por organizações criminosas.
As apurações tiveram início no fim de 2025, depois que órgãos de controle identificaram indícios de divergências entre a quantidade de drogas apreendidas e o material mantido sob custódia do Estado.
Ordens judiciais e prisões
A Justiça expediu 64 ordens judiciais no âmbito da operação: 24 mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 38 de busca e apreensão. As diligências foram cumpridas em Campo Grande, Dourados e Terenos.
No balanço inicial divulgado após a ofensiva, o Gaeco informou o cumprimento de prisões preventivas contra nove policiais civis, dois policiais militares e um policial penal. Também foram presos outros suspeitos apontados como participantes ou beneficiários do esquema investigado.
O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa não foi localizado durante as primeiras buscas realizadas em sua residência. Ele se apresentou à Corregedoria da Polícia Civil no fim da tarde de quinta-feira e permanece preso à disposição da Justiça. A previsão é de que ele passe por audiência de custódia no sábado (26).
Processos disciplinares podem levar à demissão
A Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) informou que os servidores afastados também serão submetidos a processos administrativos disciplinares na Corregedoria da Polícia Civil.
Os procedimentos administrativos são independentes da apuração criminal e podem resultar em penalidades que incluem a demissão do serviço público, caso as irregularidades sejam comprovadas.
Em nota, a secretaria informou ainda que os agentes já eram alvo de monitoramento e investigação interna. Entre os investigados na Operação Infiltrados está o ex-policial Paulo Augusto Torres Galvão Florindo, conhecido como “Paraíba”, que havia sido demitido em agosto após ter sido preso em outro caso. Ele foi absolvido pela Justiça Federal naquela investigação anterior, mas voltou a ser alvo do Gaeco na operação deflagrada nesta semana.








