Grupo Guarani-Kaiowá ocupou a Fazenda Ipuitã na madrugada de sábado, expulsou caseiro e ateou fogo na sede, em máquinas e na terra produtiva. O governador determina investigação e força de segurança mantém monitoramento.

Em um episódio que intensifica o histórico de conflitos fundiários entre indígenas e produtores rurais no Mato Grosso do Sul, cerca de 50 indígenas Guarani-Kaiowá ocuparam na madrugada de sábado (25/10), por volta das 4h, a Fazenda Ipuitã, localizada em Caarapó (MS), município a aproximadamente 274 km de Campo Grande.
De acordo com a Polícia Militar (PMMS), os indígenas expulsaram o caseiro da propriedade e colocaram fogo na casa sede, em maquinários agrícolas e em parte da área cultivada.
A PM também informa que foi acionada via 190 para “restaurar a ordem pública e garantir a segurança de pessoas e propriedades” no local.

Motivações do conflito
A comunidade Guarani-Kaiowá, por meio do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), afirma que a ocupação configura uma retomada legítima de território ancestral, reivindicando que parte da fazenda está sobre a Terra Indígena Guyraroká.
Segundo o CIMI, a ação foi motivada por dois pontos principais: o sequestro de uma jovem indígena de 17 anos, supostamente por funcionários da fazenda, e a contaminação por agrotóxicos nas proximidades da comunidade.
O Sindicato Rural de Caarapó, por sua vez, classificou o episódio como uma “invasão armada”, acusando os indígenas de incendiar maquinário, plantações e estrutura da propriedade.
Reações oficiais e investigação
O governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel, afirmou que determinou uma “rigorosa investigação” para apurar os responsáveis pela ação e separar possíveis grupos que estariam manipulando indígenas de boa-fé.
Ele disse acreditar na existência de organizações que “alentam o caos” e exploram a situação para fins de conflito.
A PMMS mobilizou equipes, incluindo o Departamento de Operações de Fronteira (DOF) e apoio da Força Nacional de Segurança Pública, para intervir na fazenda e dar apoio por meio de operações de segurança para restabelecer a ordem pública.
O incêndio às instalações da propriedade e aos maquinários agrícolas foi registrado como dano grave ao patrimônio rural.
O caso reacende histórico de disputas fundiárias na área rural de Caarapó, com forte presença de reivindicação indígena sobre terras e com resistência por parte de proprietários e produtores rurais.

Desdobramentos e retorno indígena
Ainda no mesmo dia da ocupação, os Guarani-Kaiowá deixaram a sede da fazenda e retornaram à área de retomada, que eles já haviam ocupado desde 21 de setembro.
A comunidade aguarda agora a chegada de uma comitiva interministerial, que deve analisar denúncias relacionadas à contaminação, às condições de vida e aos relatos de violência.
Acusações cruzadas
Depois do incêndio, houve troca de notas públicas entre a comunidade indígena e o Sindicato Rural de Caarapó. Enquanto o sindicato denuncia destruição e ameaça criminosa, a Aty Guasu Guarani e Kaiowá, liderança indígena, nega que o ato tenha sido armado, afirmando tratar-se de uma retomada pacífica e legítima.
A área reivindicada da TI Guyraroká foi declarada em 2009 como pertencente aos Guarani-Kaiowá, mas, conforme relatos da comunidade, o processo de homologação e demarcação posterior permanece parado ou sofreu obstáculos.
Segundo os indígenas, há denúncias recorrentes de pulverização de agrotóxicos próximos ou sobre a área reivindicada, bem como presença de maquinário agrícola dentro da terra reivindicada. Eles afirmam que as ações de retomada são reação a essas situações.
Histórico de tensão
Esse não é o primeiro conflito envolvendo a Fazenda Ipuitã. Em setembro de 2025, famílias Guarani-Kaiowá já haviam sido retiradas da fazenda por seguranças armados e tropa de choque, segundo relato do CIMI, sem que existisse ordem judicial para reintegração de posse.






