O pesado fardo da Câmara
A voz soberana das urnas decidiu e escolheu os atuais vereadores para defenderem as legítimas aspirações da população e da cidade. São 29 mandatos, cada qual com seu olhar pessoal e específico para Campo Grande, cada qual com sua compreensão de mundo e de sociedade, e cada qual, obviamente, com suas ambições e seus interesses políticos, ideológicos e pessoais.
Quando estes interesses são legítimos e os olhares para a sociedade se guiam pelo espírito público, conduzindo-se mediante comportamentos republicanos e orientando-se por pautas e princípios éticos, os mandatos se confirmam na legitimidade conferida pelo voto. A decisão de ingressar na vida pública filiando-se a partidos, disputando as eleições, ocupando cargos públicos, defendendo programas e governos, significa assumir, compulsoriamente, um leque de responsabilidades intransferíveis.
E todo este conjunto de predicados e atribuições impõe, a quem detém mandato parlamentar, deveres irremovíveis, indescartáveis. Entre estes deveres destaca-se, como obrigações, acompanhar e fiscalizar os atos do Executivo, tanto para endossar o que é certo como para apontar o que está errado, mas sempre propondo.
Não é proibido e nem supérfluo ao vereador ou à vereadora bater palmas ao prefeito ou prefeita. Porém, é proibido, moral e juridicamente, o mandato omitir-se, esconder-se ou traçar maquiagens para envernizar o malfeito, a inépcia, a irresponsabilidade, a incompetência e outros tantos deméritos que marcam muitos mandatos executivos em todos os níveis.
A Câmara Municipal de Campo Grande enfrenta este desafio. Não é tarefa das mais fáceis, nem simples. É espinhosa, ingrata, complexa. Impõe renúncias, riscos políticos e às vezes afetivos. Contudo, quem sai à chuva sem proteção assume a contrapartida de se molhar. Por isto, é preciso compreender e medir a dimensão da responsabilidade que tem o (a) vereador (a) para ter plena autonomia na fiscalização do Executivo.
O volume de erros e inaptidões da atual gestão campo-grandense produz a ideia, em dedução lógica, que a Câmara tem sua parte de culpa por este desgoverno, porque é falha como fiscal da prefeitura. Ainda que esta avaliação tenha seu fundamento, é essencial pontuar um detalhe dos mais importantes: os atuais mandatos são de um Legislativo que saiu das eleições de 2024 herdando espólio político dos mais caóticos, deixado pelos mandatos anteriores.
A Câmara
Por meio, sobretudo, da Mesa Diretora e do presidente, Epaminondas Papy, vem se desdobrando para conciliar as tarefas e as relações entre os poderes, sem prejuízo de suas autonomias. Mas não é de hoje que a gestão da cidade vai mal das pernas. Está capenga há anos. E o acúmulo de desacertos, por sua magnitude, atropelou de tal forma estas relações que impôs ao legislativo um ônus político extra.
Há que se fazer justiça. Criticar é fundamental, elogiar é legítimo. No entanto, cada balança tem dois pratos, mas a referência para avaliá-los não pode ser feito usando-se dois pesos ou duas medidas. E por esta condição o presidente Papy e a Câmara conseguem resistir à pressão medonha da herança maldita que receberam.






