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Campo Grande, 17 de agosto de 2026

Morre José Humberto: Um dos maiores nomes da pecuária brasileira

  • 17 de agosto, 2026
  • Geral
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Conhecido como Zé Humberto, pecuarista construiu uma das trajetórias mais respeitadas da seleção zebuína brasileira. À frente da Fazenda Camparino, dedicou mais de seis décadas ao melhoramento genético e deixou sua marca especialmente no Nelore.

Morre um dos maiores nomes da pecuária brasileira, José Humberto fundador  da Fazenda Camparino - CompreRural

A pecuária brasileira se despede de um de seus grandes nomes. José Humberto Vilela Martins, o Zé Humberto, proprietário da tradicional Fazenda Camparino, construiu ao longo de mais de seis décadas uma história diretamente ligada à evolução da seleção de bovinos zebuínos no Brasil.

A informação sobre seu falecimento foi comunicada neste domingo (16/08) por pessoas e empresas ligadas ao setor pecuário. Mais do que proprietário de um criatório reconhecido, Zé Humberto representava uma geração de selecionadores que acompanhou praticamente toda a transformação da pecuária moderna brasileira: do tempo em que a escolha dos animais dependia principalmente da experiência e do olhar do criador à incorporação das avaliações genéticas, biotecnologias reprodutivas e ferramentas de precisão.

Mineiro de Ituiutaba (MG), filho de produtores rurais, Zé Humberto completou 84 anos no último dia 28/07 e construiu sua trajetória passando por Goiás até chegar ao Mato Grosso. Em Cáceres, na região do Pantanal mato-grossense, consolidou a Fazenda Camparino, propriedade que se transformaria em referência na seleção de Nelore e de outras raças zebuínas.

Zé Humberto: histórias e segredos de um zebuzeiro nato - Giro do Boi

Mais de 60 anos selecionando Zebu A relação de José Humberto com a seleção animal atravessou gerações. A própria história oficial da Fazenda Camparino registra o início do projeto em 1963, ao lado da esposa, Dona Edilza. Desde então, o trabalho de seleção evoluiu até alcançar reconhecimento nacional e internacional, especialmente com as raças Nelore, Sindi e Gir.

Mas havia uma característica que diferenciava sua maneira de enxergar o melhoramento genético: Zé Humberto nunca tratou números e avaliação visual como caminhos opostos.
Ele começou a selecionar animais numa época em que índices genéticos, DEPs e grandes bancos de dados ainda não faziam parte da rotina das fazendas. A experiência prática e a observação eram ferramentas fundamentais. Com a modernização da pecuária, incorporou as avaliações objetivas sem abandonar aquilo que chamava de olhar do criador.

Em uma de suas entrevistas, resumiu essa evolução ao lembrar que, no começo, a seleção era feita essencialmente “no olho”. Décadas depois, mesmo reconhecendo a importância dos números, continuava defendendo que funcionalidade, fertilidade, precocidade, rusticidade e conformação precisavam ser observadas no animal. Era uma filosofia que combinava tradição e tecnologia. O “Zebu que paga a conta” Essa visão acabou traduzida em uma expressão que se tornou praticamente uma assinatura da Camparino: “O Zebu que paga a conta”. Por trás da frase estava uma convicção construída durante décadas: genética precisava produzir resultado econômico.

José Humberto defendia animais racialmente caracterizados e visualmente equilibrados, mas capazes de entregar fertilidade, precocidade, produtividade e rusticidade dentro de uma propriedade comercial.

Zé Humberto, ícone da pecuária, morre aos 60 anos de legado

Essa busca ajudou a transformar a Camparino em fornecedora de genética para diferentes regiões do país. Em entrevista publicada anteriormente, o pecuarista sintetizou sua filosofia ao afirmar que quem vive exclusivamente da pecuária precisa realizar um trabalho sério e produzir animais capazes de gerar retorno. É justamente nesse ponto que seu legado ultrapassa os limites da própria fazenda.

A seleção construída na Camparino ajudou a difundir genética por meio de touros, matrizes, sêmen e embriões utilizados por outros criatórios brasileiros. Touros que ajudaram a projetar a genética Camparino Alguns animais produzidos pela seleção ajudam a dimensionar a repercussão desse trabalho.

Um dos exemplos foi Calibre FIV Camparino, touro Nelore nascido em 2015. Somente em 2019, segundo informações divulgadas pela própria fazenda, aproximadamente 19 mil doses de sêmen do reprodutor foram comercializadas, movimentando cerca de R$ 2 milhões.

Outro destaque mais recente foi Ford FIV Camparino. Na ExpoZebu 2023, o touro alcançou valorização de R$ 2,64 milhões, sendo apresentado como uma das maiores expressões do trabalho desenvolvido pelo criatório. Esses números mostram uma dimensão importante da pecuária de seleção: quando um criatório consegue produzir reprodutores consistentes, sua influência genética deixa de estar limitada aos animais mantidos dentro de suas próprias cercas.

Por meio da inseminação artificial, transferência de embriões e fertilização in vitro, linhagens selecionadas durante décadas podem alcançar milhares de rebanhos.

De Minas a Goiás e, depois, Mato Grosso A própria trajetória geográfica de Zé Humberto acompanha parte do avanço da pecuária brasileira em direção ao Centro-Oeste. Nascido em Minas Gerais, trabalhou posteriormente em Goiás e, na década de 1990, concentrou sua atividade em Cáceres (MT). A partir dali, a Camparino consolidou sua presença entre os tradicionais projetos de genética zebuína do país.

Embora o Nelore tenha ocupado posição central nessa história, sua curiosidade como criador nunca ficou restrita a uma única raça. A propriedade trabalhou ao longo dos anos com Nelore padrão, Nelore Mocho, Sindi e Gir Leiteiro, além da criação de cavalos Quarto de Milha.

O próprio Zé Humberto costumava falar publicamente sobre sua paixão por diferentes espécies e pela criação animal de maneira ampla.

No Sindi, sua contribuição também recebeu reconhecimento. A Associação Brasileira dos Criadores de Sindi (ABCSindi) destaca que o trabalho com a raça na Camparino começou há cerca de duas décadas, integrado à experiência já acumulada com o Nelore. Uma escola de seleção dentro da fazenda Há ainda uma parte do legado de José Humberto que dificilmente aparece nas estatísticas.

Ao longo de décadas, a Fazenda Camparino tornou-se ponto de encontro para criadores, técnicos, estudantes e profissionais interessados em genética zebuína. O conhecimento acumulado na prática era compartilhado por alguém que atravessou diferentes fases da seleção brasileira. Essa combinação entre experiência de campo e adoção de tecnologia ajuda a explicar o respeito conquistado pelo pecuarista.

Zé Humberto viu a pecuária sair de uma seleção fortemente baseada no fenótipo para uma atividade apoiada por avaliações genéticas, ultrassonografia de carcaça, reprodução assistida e enormes bancos de dados. Em vez de abandonar uma ferramenta pela outra, defendia o equilíbrio.

Em entrevista mais recente, voltou a chamar atenção para o risco de selecionar exclusivamente pelos índices, defendendo que os números precisam conversar com aquilo que o criador observa no curral e no desempenho real do rebanho. Essa talvez seja uma das mensagens mais atuais deixadas por sua trajetória.

Pecuária perde Seu Zé da Camparino, referência da genética nacional -  Ruralbook

Sucessão mantém a história da Camparino
A continuidade do trabalho também fazia parte dos planos da família. A Fazenda Camparino já vinha passando por um processo de sucessão, com participação das novas gerações. Os netos Natalia e Matheus são apontados pela própria propriedade como integrantes dessa continuidade, acompanhando um projeto iniciado pelos avós há mais de seis décadas.

Na pecuária de seleção, sucessão significa mais do que transferir patrimônio. Significa preservar critérios de acasalamento, famílias genéticas, registros, conhecimento acumulado e uma filosofia construída durante gerações.

No caso da Camparino, essa herança genética está espalhada muito além de Cáceres. O legado de Zé Humberto José Humberto Vilela Martins deixa uma trajetória difícil de separar da própria evolução recente da seleção zebuína brasileira. Foram mais de 60 anos dedicados à pecuária, atravessando mudanças tecnológicas, ciclos econômicos e diferentes tendências de seleção.

Durante todo esse período, manteve uma ideia simples como referência: o animal precisava unir qualidade racial, funcionalidade e resultado produtivo. Sua história permanece nos animais produzidos pela Camparino, nas linhagens multiplicadas em outros rebanhos e, principalmente, na influência exercida sobre diferentes gerações de criadores.

A Connect Leilões, ao comunicar sua despedida, manifestou solidariedade aos familiares, amigos, colaboradores e à comunidade pecuária. A homenagem resume um sentimento que alcança boa parte da pecuária de seleção brasileira: parte Zé Humberto, mas permanece uma genética e uma forma de enxergar o Zebu construídas ao longo de uma vida inteira. Mais do que formar um rebanho, José Humberto Vilela Martins ajudou a formar uma escola de pecuária.

Com informações do Portal Compre Rural

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