Escritor e jornalista transformou acontecimentos políticos e questões sociais em reportagens e livros. Em Campo Grande, participou de debate sobre violência e cultura.

O jornalista e escritor Zuenir Carlos Ventura morreu nesta terça-feira (22/09), aos 95 anos, em casa, no Rio de Janeiro. Segundo informações da Academia Brasileira de Letras (ABL), ele não resistiu a uma pneumonia. A instituição informou que o velório será realizado nesta quarta-feira (23/09), na sede da Academia, e que o corpo será enterrado no mausoléu dos imortais.
Considerado um dos grandes nomes da imprensa brasileira, Zuenir construiu uma carreira de mais de seis décadas. Com linguagem clara e apuração aprofundada, registrou episódios marcantes da história recente do país e deu visibilidade a temas como a ditadura militar, a violência urbana, a desigualdade social, a defesa dos direitos humanos e os conflitos na Amazônia.
Da infância em Minas às redações
Zuenir nasceu em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, na Zona da Mata de Minas Gerais. Filho do pintor de paredes José Ventura e da dona de casa Herina de Araújo, passou parte da infância em Ponte Nova e, ainda jovem, exerceu diferentes atividades para ajudar a família.
Antes de se firmar no jornalismo, foi contínuo, arquivista e professor. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde cursou Letras Neolatinas na antiga Faculdade Nacional de Filosofia, hoje integrada à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre seus professores estavam nomes como Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima.
A entrada na imprensa ocorreu em 1956, como arquivista do jornal Tribuna da Imprensa. No início dos anos 1960, ganhou uma bolsa de estudos para o Centro de Formação dos Jornalistas de Paris, experiência que contribuiu para sua formação profissional.
Ao longo da carreira, ocupou funções de reportagem, edição e direção em veículos como Correio da Manhã, O Cruzeiro, Fatos & Fotos, Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil. Também foi colunista do jornal O Globo e professor da UFRJ e da Escola Superior de Desenho Industrial da Uerj.
Livros que ajudaram a entender o Brasil
A obra de Zuenir ficou marcada pela capacidade de transformar acontecimentos complexos em narrativas acessíveis, sem abandonar a profundidade da reportagem.

Em 1988, publicou 1968: O Ano que Não Terminou, considerado seu livro mais conhecido. A obra revisitou a efervescência política e cultural daquele período, marcado pela repressão da ditadura militar, pelos movimentos estudantis e pelas transformações sociais no Brasil e no mundo.
O livro alcançou dezenas de edições, vendeu mais de 400 mil exemplares e inspirou a minissérie Anos Rebeldes, exibida pela TV Globo.
Outro trabalho de destaque foi Cidade Partida, lançado em 1994. No livro-reportagem, Zuenir acompanhou a violência e as divisões sociais do Rio de Janeiro, especialmente a realidade da comunidade de Vigário Geral após a chacina ocorrida no início dos anos 1990. A obra recebeu o Prêmio Jabuti de Reportagem.
A cobertura sobre a Amazônia e a trajetória do seringueiro Chico Mendes também ocupou lugar central em sua produção. A série “O Acre de Chico Mendes”, publicada no Jornal do Brasil em 1989, rendeu ao jornalista os prêmios Esso e Vladimir Herzog. Mais tarde, o material foi ampliado no livro Chico Mendes: Crime e Castigo, lançado em 2003.
Zuenir também publicou Minhas Histórias dos Outros, 1968: O Que Fizemos de Nós, Inveja: Mal Secreto, Crônicas de um Fim de Século, 70/80 Cultura em Trânsito – Da Repressão à Abertura e o romance Sagrada Família. No cinema, codirigiu o documentário Um Dia Qualquer e foi roteirista de Paulinho da Viola: Meu Tempo é Hoje.

Jornalista na defesa dos direitos humanos
A produção de Zuenir foi reconhecida por abordar conflitos sociais a partir da perspectiva das pessoas afetadas pela violência, pela exclusão e pela ausência do Estado.
Em 2008, recebeu um troféu especial da Organização das Nações Unidas por estar entre os jornalistas que mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no Brasil nas três décadas anteriores. Também foi reconhecido pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros como “Jornalista do Ano” em 2010.
Conhecido entre colegas e ex-alunos como “Mestre Zu”, Zuenir também influenciou gerações de profissionais. Além da atuação nas redações, manteve o trabalho como professor e participou de debates sobre jornalismo, literatura, política e os problemas sociais brasileiros.
Passagem por Campo Grande
A trajetória do jornalista também passou por Mato Grosso do Sul. Em outubro de 2009, Zuenir esteve em Campo Grande como convidado do projeto Diálogos Contemporâneos. Ele participou de uma palestra na Câmara Municipal, com entrada gratuita.
O tema do encontro foi “Violência e cultura: as várias faces da violência no Brasil e suas relações com a cultura brasileira contemporânea”. A discussão dialogava diretamente com os assuntos que marcaram sua produção, especialmente a violência urbana, a desigualdade e as divisões sociais do país.
Durante uma das passagens pela Capital, Zuenir também falou sobre as diferenças entre o trabalho do jornalista e o do escritor. Para explicar os limites e as possibilidades de cada atividade, comparou os dois ofícios a peixes em águas diferentes.
Na imagem usada por ele, o jornalista seria como um peixe de aquário, submetido ao espaço e às regras da notícia. O escritor, por sua vez, teria a possibilidade de alcançar águas mais profundas. A comparação ficou na memória de estudantes e profissionais que acompanharam a palestra.
ABL e últimos anos
Zuenir foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 30 de outubro de 2014, na sucessão do escritor Ariano Suassuna. Tomou posse em 6 de março de 2015 e passou a ocupar a Cadeira nº 32, tornando-se o sétimo integrante da instituição a ocupar o posto.
Na ABL, manteve a atuação como escritor e intérprete da sociedade brasileira. Em entrevistas, costumava tratar com humor da rotina da Academia e defendia a importância do diálogo entre diferentes gerações e áreas da cultura.
Zuenir deixa a mulher, Mary Ventura, com quem foi casado por mais de cinco décadas, os filhos Elisa e Mauro e os netos Alice e Eric. Morre um jornalista que fez da reportagem uma ferramenta de compreensão do país e que ajudou a transformar a memória política e social brasileira em literatura.








