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Campo Grande, 31 de outubro de 2026

Campo Grande: Denasus aponta desvio de R$ 71,1 milhões na saúde e determina devolução ao SUS

  • 31 de outubro, 2026
  • Economia, Saúde, Transparência
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Auditoria federal conclui que gestão Adriane Lopes não comprovou aplicação de recursos e notifica prefeitura e órgãos reguladores.

De acordo com a auditoria do Denasus, a prefeitura não conseguiu provar a aplicação dos recursos.

Uma auditoria do Denasus (Departamento Nacional do Sistema Único de Saúde) confirmou desvios milionários na saúde de Campo Grande durante a gestão da prefeita Adriane Lopes (PP) e determinou a devolução de R$ 71,161 milhões ao Fundo Nacional de Saúde (FNS). Segundo o relatório, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) não apresentou documentação comprobatória nem o rastro do dinheiro que deveria ter sido aplicado nas unidades de saúde.

A apuração foi solicitada pelo Ministério Público Estadual após denúncia de que a prefeita teria desviado R$ 156,8 milhões do Fundo Municipal de Saúde em 2024, supostamente para pagar despesas com pessoal dos exercícios de 2022 e 2023. O trabalho foi ampliado para o período de 1º de janeiro de 2023 a 31 de dezembro de 2025 e analisou um montante de R$ 284,7 milhões.

Falta de comprovação dos gastos
De acordo com a auditoria, a prefeitura não conseguiu provar a aplicação dos recursos. A gestão municipal apresentou apenas uma planilha para justificar o destino do dinheiro e alegou que os valores quitavam despesas com pessoal de 2022 e 2023. Contudo, não foram apresentados comprovantes bancários, ordens de pagamento individualizadas, contratos ou processos administrativos que comprovassem o pagamento efetivo ou a origem da dívida.

“Embora a Sesau alegue que a insuficiência orçamentária e as pressões fiscais enfrentadas pelo FMS nos exercícios de 2022 e 2023 tenham motivado a adoção de medidas excepcionais para assegurar a continuidade dos serviços públicos de saúde, tais circunstâncias não possuem o poder de afastar a obrigatoriedade do prévio empenho da despesa, requisito legal indispensável à regular execução orçamentária e financeira da despesa pública”, destacou a auditoria.

“Diante de tais discrepâncias encontradas nos valores informados em documentos contábeis oficiais, questiona-se a precisão dos números apresentados e a aferição do aporte mínimo constitucional de recursos próprios aplicados pela Sesau no SUS”, pontuou o Denasus.

“No que se refere à ausência de comprovação de pagamento financeiro das despesas com folha de pessoal referentes aos exercícios de 2022 e 2023, posteriormente objeto de registro como DEA em 2024, não restou comprovado que tais desembolsos corresponderam efetivamente a despesas com pessoal ativo da área da saúde posteriormente registradas como DEA, prejudicando a plena verificação da regularidade dos atos praticados, nem tampouco apresentaram elementos comprobatórios capazes de demonstrar, de forma adequada, a origem das obrigações que fundamentam o reconhecimento das despesas classificadas como DEA além do atendimento dos requisitos legais aplicáveis à sua constituição, também não foram apresentadas documentação que comprovassem que tais desembolsos decorreram de compromissos financeiros efetivamente assumidos em exercícios anteriores, conforme exigem as normas de contabilidade”, ponderou o Denasus.

“No que concerne à classificação contábil de despesas como DEA, não restou demonstrada a existência de pagamentos de obrigações de exercícios anteriores à conta de dotação específica de DEA, tampouco a regular constituição e comprovação individualizada das obrigações nos termos exigidos pelo MCASP”, apontou.

“Tais fatos elencados acima aliados à confirmação por parte do auditado da inexistência de processo administrativo formal e devidamente instruído para o reconhecimento das despesas como DEA, referente aos Decretos nºs 15.904, 15.915 e 15.917, evidenciam neste tópico circunstâncias que comprometem a adequada fundamentação dos atos praticados, a transparência administrativa e a rastreabilidade exigida pelas normas contábeis, de gestão pública e controle interno”, concluíram.

“As não conformidades identificadas nas Constatações nºs 718875, 718876, 718877, 719046 e 719098 resultaram em proposições de devolução de recursos de origem federal, totalizando o valor de R$ 71.161.321,01 (setenta e um milhões, cento e sessenta e um mil, trezentos e vinte e um reais e um centavo)”, concluiu.

Prefeita de Campo Grande (MS) Adriane Lopes e o Secretário Municipal de Saúde Marcelo Vilela.

Quatro gestões em três anos
Diante das irregularidades, o SUS notificou a prefeitura e órgãos reguladores para devolver parte dos valores, além de apontar a possibilidade de penalidades. No período analisado, Campo Grande teve três secretários de Saúde e um comitê gestor responsável pela pasta.

Sandro Benites comandou a Secretaria Municipal de Saúde de 1º de janeiro de 2023 até 1º de fevereiro de 2024. Em seguida, Rosana Leite Melo assumiu o cargo, permanecendo de 5 de fevereiro de 2024 a 5 de setembro de 2025. Entre setembro e dezembro de 2025, a pasta foi administrada pelo Comitê Gestor da Saúde, coordenado por Ivoni Kanaan Nabhan. Desde 1º de janeiro de 2026, Marcelo Vilela ocupa a Secretaria Municipal de Saúde.

Crise na rede de saúde
A constatação do desvio milionário ocorre em um período em que a população enfrentou falta de medicamentos nas unidades de saúde, incluindo itens básicos como dipirona, suspensão de exames, longas filas de espera por consultas com especialistas e falta de leitos hospitalares.

Com a crise da Santa Casa, que ameaça suspender o atendimento por falta de recursos mesmo sob intervenção da Justiça, a devolução de R$ 71 milhões representa mais um agravamento para a situação da saúde municipal. Na semana passada, uma criança de oito meses morreu por falta de leito de UTI.

Projeto de Adriane prevê terceirização de unidades de saúde, mas não fala  em gastos - O Jacaré

Nota da Prefeitura
Em nota, a prefeitura afirma que apresentou manifestação técnica sobre os apontamentos do relatório preliminar da auditoria do DenaSUS e recebeu, na última quarta-feira (28/10), o relatório final. “O documento será avaliado pela equipe técnica, considerando os esclarecimentos já prestados e os encaminhamentos necessários.

A Secretaria reforça que a condução do processo segue os trâmites administrativos, com responsabilidade na análise das informações e compromisso com a correta aplicação dos recursos públicos”.

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