Com taxa que pode ultrapassar 76%, exportadores interrompem embarques e setor teme prejuízo bilionário com segundo maior cliente da proteína.

Amplamente presente na mesa das famílias norte-americanas, a carne bovina brasileira é um dos alvos do tarifaço de 50% aplicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Com a decisão, o setor prevê a interrupção da venda de carnes para o país, segundo maior consumidor da proteína nacional.
O que aconteceu
Exportadores veem cobrança superior a 50% para embarques futuros. A nova tarifa se soma à cobrança de 26,4%, estipulada desde janeiro, quando o volume anual exportado superou 65.000 toneladas.
Em maio, a taxa chegou a 36,4% com o primeiro decreto de Trump. Com isso, a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) estima que “a carga tributária total ultrapassaria 76%, comprometendo a viabilidade econômica das exportações ao mercado norte-americano”.
Especialistas apontam para forte queda nesse item de exportação. A cobrança adicional, prevista para ser adotada a partir da próxima semana, é vista como empecilho para a manutenção da venda de carne aos Estados Unidos. “Essa cobrança extra de 50% praticamente inibe todos os negócios”, avalia Pedro Braga, presidente do Sinduscarne-MG. “As tarifas atuais, de 50%, 60% ou 70%, inviabilizam qualquer tipo de comércio”, reforça Rodrigo Costa, analista de pecuária da Pine Agronegócios.
Estados Unidos são segundo principal comprador da carne brasileira. Somente no ano passado, 229,6 mil toneladas de carne bovina (7,9% da produção nacional voltada para o mercado externo) foram embarcadas com destino aos EUA.
O volume representou um faturamento de US$ 1,35 bilhão para os exportadores brasileiros. O total foi superado somente pela China, que comprou 46,2% da proteína nacional exportada no período (1,34 milhão de toneladas).

Carne in natura domina o volume das exportações brasileiras.
A proteína sem processamento ou conservação representou 88,9% (2,5 milhões de toneladas) do total de proteína bovina exportada no ano passado, mostra o anuário da Abiec. Completam o resultado o volume de vendas de miúdos (228,7 mil toneladas) e da carne industrializada (98,2 mil toneladas).
Para os norte-americanos, o foco está direcionado para a carne moída. “Os Estados Unidos compram essa carne para a alimentação principal deles, que são os hambúrgueres”, afirma Braga. A avaliação é também partilhada por Costa: “Por lá, nossos cortes têm como destino o processamento”, explica ele.

Reflexos
Fabricante antecipa medida na tentativa de conter os prejuízos. A Marfrig, uma das principais produtoras e exportadoras de carne bovina do Brasil, comunicou ao Ministério da Agricultura que interrompeu a produção destinada aos EUA em sua planta no município de Várzea Grande (MT).
Fechamento confirma a paralisação das vendas para os EUA. A interrupção desde o dia 17 de julho evidencia a preocupação com o futuro das compras das carnes brasileiras. “Determinadas plantas têm setores que trabalham com o processamento de um determinado corte. Talvez, por questões sanitárias e de certificação, não consigamos utilizá-las para diluir a oferta que vai ficar represada no mercado doméstico”, observa Costa.
Regulamentação dos importadores motiva a produção exclusiva. As plantas frigoríficas são voltadas para atender os interesses específicos de cada comprador, desestimulando a manutenção das operações. “Há um padrão de produção para atender determinados mercados, do ponto de vista das normas técnicas, sanitárias e operacionais”, explica Thiago Moreira, professor de economia do Ibmec-RJ.
Início das cobranças somente na próxima semana é visto como alívio. O prazo de uma semana determinado pelos EUA para a aplicação do tarifaço permite que as exportações rumo aos norte-americanos desembarquem livres da taxa adicional. “Isso foi apaziguado com o decreto”, ressalta Braga ao manifestar o temor pelo possível banimento de uma carga de US$ 850 milhões já despachada aos Estados Unidos.
Minerva Foods emitiu um comunicado para abordar a situação. No documento destinado ao mercado financeiro no último dia 10, a empresa estima que a tarifa proposta por Trump vai atingir a exposição de 16% da receita da companhia ligada às vendas aos EUA. “As exportações brasileiras, sujeitas à nova política tributária, apresentam impacto potencial máximo ao redor de 5% da receita líquida”, destaca o comunicado.
Preços
Arroba do boi fecha julho em trajetória de queda. A atual cotação de referência para avaliar o preço de 15 kg do boi vivo está em R$ 294,20. O valor corresponde a uma queda de 7,3% no mês de julho, segundo o indicador do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). No acumulado de 2025, a queda supera os mesmos 7% e é equivalente a cerca de R$ 23.
Podemos ter um efeito de queda de preço de carne de curto prazo, por uma sobreoferta, mas em médio e longo prazo, caso essas tarifas persistam, isso poderia afetar a produção.(Thiago Moreira, professor do Ibmec)
Negociação
Entidade cobra manutenção das negociações com os Estados Unidos. Em nota enviada após o anúncio das tarifas, a Abiec defende o diálogo na busca de uma “solução negociada” para preservação do fluxo comercial. A associação também pede uma atuação focada do Ministério da Agricultura e Pecuária para abrir novos mercados consumidores da carne nacional.
A Abiec seguirá atuando de forma propositiva, em parceria com o setor público e os importadores, para preservar a competitividade da carne bovina brasileira, assegurar previsibilidade aos exportadores e contribuir com o equilíbrio do comércio internacional e da segurança alimentar global. (Abiec, em nota).
A questão agora é evoluir nessas negociações bilaterais com outros governos para superar esse tropeço. Também defendemos que os governos dialoguem e cheguem a um acordo que seja bom para os dois países.(Pedro Braga, presidente do Sinduscarne-MG).
Exceções vão permitir conversas mais assertivas do governo. Moreira analisa que a saída dos setores da mesa de negociação abre espaço para a defesa mais específica dos setores, a exemplo das carnes. “Havia uma quantidade enorme de setores e produtos sujeitos a essa taxação absurda, agora você tem um conjunto bem menor, permitindo um trabalho mais focalizado, de ouvir e fazer reuniões específicas.”
Com informações do Portal Uol








