Gaeco aponta delegado Hoffman, chamado de “Careca” pelo crime, como líder institucional da organização e identifica caminho do dinheiro usado na construção de imóvel de luxo.

O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, ex-chefe da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), é apontado pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) como líder do núcleo policial de uma organização suspeita de desviar drogas apreendidas em Mato Grosso do Sul e revendê-las a traficantes.
A investigação deu origem à Operação Infiltrados, deflagrada na quinta-feira (24/09) em Campo Grande, Dourados e Terenos. Ao todo, foram cumpridos 24 mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 38 de busca e apreensão. Entre os investigados estão nove policiais civis, dois policiais militares e um policial penal.
Hoffman, conhecido no meio criminoso pelo apelido de “Careca”, foi preso preventivamente após se apresentar na Corregedoria da Polícia Civil. Ele não havia sido localizado durante as buscas realizadas em sua casa, no condomínio Alphaville, em Campo Grande. A defesa afirma que o delegado não sabia da operação e nega que ele tenha fugido.
Organização teria usado estrutura da Denar
Conforme o Gaeco, o esquema começou a ser estruturado em 2021, cerca de dois anos depois de Hoffman assumir o comando da Denar. A investigação sustenta que a organização se aproveitava da estrutura, das informações e da autoridade dos órgãos de segurança para localizar cargas de cocaína, participar das apreensões e retirar parte dos entorpecentes do circuito oficial.
A dinâmica descrita pelos promotores era dividida em etapas:
-integrantes levantavam informações sobre cargas de drogas que seriam transportadas por traficantes;
-policiais participavam das operações e das apreensões;
-parte da cocaína seria desviada antes do armazenamento ou da incineração oficial;
-intermediários negociavam o entorpecente com compradores do tráfico;
-o dinheiro era movimentado por pessoas ligadas ao grupo e, segundo a investigação, usado para ocultar a origem dos valores.
O Gaeco afirma que Hoffman não necessariamente fazia a negociação direta ou participava das ações de campo. A função atribuída a ele seria garantir a “chancela institucional” do esquema, permitindo que os demais integrantes atuassem com respaldo hierárquico e acesso às informações da delegacia.
Divisão de tarefas entre policiais
O núcleo operacional seria formado por policiais civis encarregados da localização das cargas, das apreensões e do posterior repasse das drogas.
Um dos nomes citados é o do investigador Augusto Torres Galvão Florindo, conhecido como “Paraíba”. Segundo as apurações, ele era responsável por localizar carregamentos que poderiam ser interceptados pela Denar. O policial foi demitido da Polícia Civil em setembro, após um processo administrativo relacionado à prisão com R$ 130 mil que teriam origem em atividades de contrabando.
Também são citados os investigadores Douglas Tobias, Luiz Carlos de Souza, Marcos André Santos Chaves, Nelson Ricardo Barros de Oliveira, Neverson Vieira de Araújo, Nilton Cesar Sales dos Santos e Roberto Palmeira da Silva.
O Gaeco atribui a esses agentes a parte operacional, descrita na investigação como a etapa “braçal” da organização: localizar as cargas, participar das abordagens e garantir que parte da droga apreendida chegasse novamente ao mercado ilegal.
Os policiais militares Alison Lemes Bezerra, chamado de “Daga” ou “Daguinha”, e Thiago Bezerra Laurentino, conhecido como “Grande” ou “Grandão”, também são apontados como integrantes do núcleo operacional. O policial penal Vitor Ribeiro Venâncio dos Santos completa a lista de servidores públicos investigados.

“LK” seria elo com traficantes
Enquanto Hoffman é descrito como responsável pela liderança e pela proteção institucional, Lucas da Silva dos Santos, o “LK”, aparece na investigação como a ponte entre os policiais e os traficantes interessados em comprar a cocaína.
Segundo o Ministério Público, LK recebia informações sobre carregamentos, ajudava a definir os compradores, negociava valores e intermediava o contato entre os agentes públicos e integrantes do tráfico.
A investigação também aponta que ele teria usado parentes e pessoas próximas para movimentar recursos ligados ao esquema. Entre os citados estão Valdenice da Silva Gois, mãe de LK, além de Ana Carolina da Silva dos Santos, Jéssica da Silva dos Santos, Lavínia Carvalho da Luz, Rayane Luiz Vieira, Matheus Gabriel Machado Bezerra e Wesley Benite Matos Pereira Duarte.
Esse grupo é classificado pelo Gaeco como núcleo de apoio financeiro. A suspeita é de que os envolvidos tenham ajudado a receber, transferir ou ocultar valores relacionados à venda das drogas desviadas.
Também são citados Kayon Lucas Leodoro da Silva, Eberth Batista de Almeida, Carlos Alberto Alves Fonseca e Paulo Sérgio Alves Duarte. Na engrenagem investigada, Kayon teria repassado informações sobre carregamentos aos integrantes do grupo.
Apreensão de 643 quilos é ponto central
Um dos episódios considerados centrais pelo Gaeco envolve a apreensão de 643 quilos de cocaína em Bela Vista, em maio de 2024. Conforme a investigação, a operação teria servido para demonstrar como o grupo agia e como parte da droga poderia ser desviada.
Os promotores também analisaram informações obtidas em investigações anteriores, incluindo as operações Traquetos e Blindspot. A partir desse material, surgiu a suspeita de que grandes quantidades de entorpecentes interceptadas pelos policiais não chegavam integralmente aos depósitos oficiais ou eram substituídas antes da destruição.
A investigação começou em outubro de 2025 e avançou com a quebra de sigilos bancário e fiscal, análise de celulares, computadores, arquivos digitais e movimentações financeiras.

Como o delegado teria construído imóvel milionário
A evolução patrimonial de Hoffman é um dos principais elementos usados pelo Gaeco para sustentar a suspeita de lavagem de dinheiro.
Segundo o relatório, o delegado declarou patrimônio de aproximadamente R$ 100 mil no fim de 2023. Em 2025, os bens informados à Receita Federal já somavam cerca de R$ 1,226 milhão, além de dois veículos novos e uma casa em construção em um condomínio de luxo de Campo Grande.
O imóvel teria sido construído no Alphaville I, na região do Carandá Bosque. A investigação aponta que Hoffman comprou o terreno por R$ 400 mil em 2024, com grande parte do pagamento feita em dinheiro vivo.
A construção foi estimada em R$ 1.649.085. Mais de R$ 1,2 milhão teria sido pago entre março de 2025 e abril de 2026, período em que o delegado ainda ocupava posição de destaque na área de repressão ao narcotráfico. Somados o terreno e a obra, os valores ultrapassam R$ 2 milhões.
Planilha detalhava gastos da obra
Durante a análise dos arquivos digitais do delegado, o Gaeco encontrou uma planilha intitulada “PAGAMENTOS OBRA ATUALIZADO.xlsx”. O documento detalhava os principais gastos previstos ou já realizados na construção.
Entre os itens listados estão:
-R$ 300 mil em madeiras;
-R$ 214,5 mil em revestimentos;
-R$ 190 mil em eletrodomésticos de alto padrão;
-R$ 170 mil em sistema de automação;
-R$ 89 mil em elevador;
-R$ 81 mil em sistema de ar-condicionado;
-R$ 21,5 mil em churrasqueira.
O relatório aponta que o valor da obra seria incompatível com a renda declarada pelo delegado. Em 2025, Hoffman informou rendimentos tributáveis de R$ 519.356,56. Em 2023, havia declarado renda de aproximadamente R$ 100 mil, enquanto somente os eletrodomésticos previstos para a casa custariam R$ 190 mil.
Além da casa, o delegado comprou, em 2025, um Honda HR-V e uma Toyota Hilux. Os dois veículos somariam mais de R$ 400 mil.
Empréstimo de R$ 750 mil é considerado suspeito
Para justificar parte do aumento patrimonial, Hoffman declarou ter recebido um empréstimo de R$ 750 mil da empresa W Martins Representações e Comércio de Artigos de Mercearia Ltda.
O Gaeco, porém, considera a transação suspeita e aponta indícios de que o contrato teria sido usado para dar aparência legal ao dinheiro. De acordo com o relatório, a empresa atua no ramo alimentício, possui capital social de R$ 20 mil e não tem perfil compatível com a concessão de um empréstimo desse porte.
Os investigadores também não identificaram a entrada do valor na conta bancária do delegado nem pagamentos regulares de amortização da suposta dívida. Por isso, os promotores classificaram a operação como possível empréstimo simulado para “mascarar o ingresso do dinheiro ilegal” e compatibilizar o patrimônio com a situação fiscal declarada.
Transferências ligam delegado a subordinado
Outro ponto investigado envolve o policial civil Douglas Tobias, subordinado de Hoffman na Denar e também preso na Operação Infiltrados.
Em 2025, Hoffman teria feito três transferências via Pix de R$ 25 mil cada, totalizando R$ 75 mil, para a empresa Ateliê Raro Fabricação e Comércio de Móveis, ligada a Douglas.
A investigação identificou ainda 151 depósitos em dinheiro na conta pessoal do policial, no total de R$ 337.485, e outros 53 depósitos na conta da empresa, que somaram R$ 151.643. Os valores foram considerados sem origem comprovada pelos investigadores.
O Gaeco também encontrou movimentações financeiras envolvendo outros policiais do grupo. Entre elas estão transferências feitas por Neverson Vieira de Araújo para Hoffman e depósitos em dinheiro que teriam sido realizados em contas de integrantes da organização.
Operação apura lavagem e desvio de drogas
Além do tráfico de drogas, os investigados podem responder por crimes como organização criminosa, peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, conforme o avanço das apurações e a definição do Ministério Público.
A Corregedoria-Geral da Polícia Civil determinou o afastamento compulsório de Hoffman e de investigadores presos preventivamente. Os servidores também devem responder a processos administrativos disciplinares, que podem resultar em demissão, independentemente do andamento da ação penal.
O delegado foi levado para cumprir prisão preventiva depois de se apresentar na Corregedoria. A audiência de custódia estava prevista para este sábado (26/09).
As defesas dos investigados afirmam que ainda não tiveram acesso integral aos autos, que tramitam sob sigilo. Os advogados alegam surpresa com as prisões e informaram que vão analisar as provas antes de apresentar manifestações detalhadas.
As acusações ainda serão analisadas pela Justiça. Os investigados são considerados inocentes até eventual condenação definitiva.








