Segunda fase da investigação cumpre medidas em cinco estados e no Distrito Federal. A polícia apura atuação de rede virtual que recrutava e controlava menores.

A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul deflagrou nesta terça-feira (15/09) a segunda fase da Operação Lívia, que investiga a morte de uma adolescente de 13 anos, de Naviraí, durante uma transmissão ao vivo na plataforma Discord. Seis adolescentes são alvo de medidas judiciais em cinco estados e no Distrito Federal.
São cumpridas medidas de internação e mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. A ofensiva é conduzida pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, com apoio do Laboratório de Operações Cibernéticas do Ministério da Justiça, o Ciberlab.
A investigação apura a atuação de uma rede virtual suspeita de recrutar, manipular e coagir crianças e adolescentes em grupos fechados na internet. Além do caso da menina de Naviraí, os investigadores apuram práticas de violência, automutilação induzida e crueldade contra animais.
Morte ocorreu em julho
A adolescente foi encontrada morta na varanda da casa onde vivia, em Naviraí, a 359 quilômetros de Campo Grande, na manhã de 22 de julho. Segundo a investigação, ela participava de uma transmissão ao vivo no Discord quando teria sido induzida a tirar a própria vida por integrantes de um grupo virtual.
A Polícia Civil trata o episódio como possível homicídio por coação, diante de indícios de que a vítima teria sido submetida a pressão psicológica, ameaças e controle exercido pelos participantes do grupo.
O caso chegou às autoridades após o Ciberlab acionar a Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA), diante da repercussão da morte nas redes sociais e de informações sobre a atuação do grupo em plataformas digitais.
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Meninas eram recrutadas e controladas
Segundo a delegada Anne Karine, titular da DEPCA, o grupo era formado principalmente por adolescentes e buscava recrutar meninas, sobretudo vítimas em situação de vulnerabilidade emocional ou social.
A polícia identificou que os suspeitos se aproximavam das vítimas por meio de perfis falsos em redes sociais abertas. Após conquistar confiança, os integrantes levavam crianças e adolescentes para grupos fechados — chamados pelos próprios participantes de “panelas” —, onde passavam a exercer controle sobre elas.
Os investigadores apontam que os administradores desses grupos obtinham dados sobre a rotina, a família e a escola das vítimas. As informações eram usadas para criar vínculos, intimidar e ameaçar os adolescentes, fazendo com que eles acreditassem que familiares poderiam sofrer consequências caso não obedecessem às ordens.
De acordo com a delegada, algumas vítimas eram tratadas pelos integrantes como “escravas virtuais” e recebiam tarefas para cumprir. Entre as práticas investigadas estão desafios de automutilação, exposição de nomes ou símbolos no próprio corpo e atos de crueldade contra animais.
Violência rendia prestígio entre os grupos
A investigação também revelou uma disputa por visibilidade e prestígio dentro da rede. Quanto maior a gravidade dos atos cometidos ou exigidos das vítimas, maior seria o chamado “hype” — termo utilizado pelos integrantes para se referir à notoriedade alcançada nos ambientes digitais.
Conforme a Polícia Civil, os episódios violentos eram chamados de “eventos”. A suspeita é de que os participantes transmitissem ou compartilhassem conteúdos para ampliar a repercussão dentro dos grupos e atrair novos integrantes.
Durante a primeira fase da Operação Lívia, a polícia encontrou materiais de apologia ao neonazismo, armas e conteúdos de abuso sexual infantil. A investigação indica que discursos de ódio, misoginia e referências extremistas eram empregados para radicalizar adolescentes em plataformas como Discord e Telegram.
Primeira fase prendeu adulto e apreendeu adolescentes
A primeira etapa da operação foi realizada em agosto. Na ocasião, um homem de 18 anos foi preso e cinco adolescentes foram apreendidos em ações realizadas em diferentes estados.
Entre os alvos estava um adolescente de 14 anos apontado pelos investigadores como possível líder do grupo. As medidas cumpridas na primeira fase permitiram a coleta de dispositivos eletrônicos e outros elementos que ajudaram a polícia a identificar novos suspeitos e aprofundar a investigação.
Com a nova ofensiva, a Polícia Civil tenta esclarecer qual teria sido a participação de cada adolescente na morte da vítima de Naviraí, identificar outras possíveis pessoas cooptadas pelo grupo e dimensionar a estrutura da rede em nível nacional.
Os envolvidos podem responder, conforme o avanço das apurações, por atos infracionais análogos a organização criminosa, lesão corporal, homicídio por coação e maus-tratos contra animais.

Discord passou a sofrer restrições no Brasil
O caso também provocou medidas direcionadas ao Discord no Brasil. Desde 12 de agosto, as transmissões ao vivo da plataforma estão suspensas no país por determinação da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
Entre as exigências apresentadas às empresas responsáveis pela plataforma estão o aperfeiçoamento de mecanismos de detecção e moderação de conteúdos relacionados à violência e à crueldade contra animais, além da criação de protocolos para informar autoridades sobre indícios de extorsão, assédio coordenado e ameaças contra usuários.
As medidas também incluem a preservação de dados e metadados, a manutenção de representação legal no Brasil e o fortalecimento de ferramentas de proteção a crianças e adolescentes.
A investigação continua sob responsabilidade da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.






