Desastre na região de Rasuwa, na fronteira com o Tibete, deixou centenas de desaparecidos, entre eles turistas e trabalhadores de usinas hidrelétricas. EUA, Índia e China mobilizam ajuda emergencial.
Pelo menos 165 pessoas morreram e mais de 750 permanecem desaparecidas após uma avalanche de gelo e rochas desencadear enchentes repentinas no centro-norte do Nepal, na manhã de quarta-feira, 26 de agosto de 2026. O evento, inicialmente registrado como um sismo de magnitude 5,2, foi reclassificado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) como um colapso glacial seguido de fluxo de detritos, sem atividade tectônica envolvida.
As áreas mais afetadas foram os distritos de Rasuwa e Nuwakot, na fronteira com a região chinesa do Tibete, onde vilarejos inteiros foram varridos pela lama e pela água do rio Bhotekoshi e de seus afluentes.
O que aconteceu
O desastre começou por volta das 8h37 (horário local) com uma avalanche de gelo e rochas em uma geleira próxima à fronteira Nepal-China, no distrito de Rasuwa. O material desprendido bloqueou temporariamente o curso do rio Lhende Khola, afluente do Bhotekoshi, e, ao se romper, liberou uma onda de lama, água e detritos que desceu o vale em alta velocidade.
Imagens de vigilância e relatos de moradores mostram edifícios, veículos e infraestrutura sendo engolidos pela lama em questão de minutos, especialmente em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, uma das localidades mais atingidas.

Vítimas e desaparecidos
Até a noite de quarta-feira, autoridades nepalesas confirmavam pelo menos 157 mortos no país, com projeção de que o número suba à medida que as equipes de resgate avançam. Do lado chinês, no porto de Gyirong (Tibete), ao menos três mortes foram registradas inicialmente, e 265 pessoas estavam desaparecidas, segundo a imprensa estatal chinesa.
Entre os desaparecidos no Nepal, há:
-Cerca de 133 cidadãos indianos, muitos deles peregrinos a caminho do Monte Kailash, no Tibete, local sagrado para hindus.
-Pelo menos 47 turistas americanos, além de cidadãos do Reino Unido, Malásia e outros países.
-Dezenas de trabalhadores de usinas hidrelétricas, incluindo sul-coreanos, e membros das forças de segurança nepalesas.
No total, mais de 750 pessoas estavam oficialmente desaparecidas na noite de 26 de agosto, segundo atualizações de veículos de imprensa que acompanhavam o desastre em tempo real.
Danos materiais e infraestrutura
As enchentes destruíram ou danificaram severamente:
-19 pontes rodoviárias;
-Cerca de 40 km de estradas;
-Diversas usinas hidrelétricas em construção ou em operação, além de edificações residenciais e comerciais às margens dos rios Bhotekoshi, Trishuli e Narayani.
Autoridades alertaram moradores de vários distritos para evitar as margens desses rios enquanto durarem as operações de busca e resgate.
Reação do governo e ajuda internacional
O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, classificou o evento como “súbito e massivo” e afirmou que o país está “em choque e luto”. Ele garantiu que todos os recursos disponíveis foram mobilizados para as operações de resgate, que devem seguir por dias.
Diante da escala do desastre, o governo nepalês pediu ajuda formal à Índia e à China.
A Índia enviou, ainda no dia 26, o primeiro lote de materiais de socorro, incluindo equipamentos de resgate e suprimentos médicos.
Os Estados Unidos anunciaram US$ 500 mil em assistência emergencial para o Nepal.
A China, por ordem do presidente Xi Jinping, intensificou as operações de busca no lado tibetano e determinou a evacuação de áreas de risco em seu território.
O Banco Mundial e outros organismos internacionais também começaram a articular apoio técnico e financeiro.
Causa do desastre: colapso glacial, não terremoto
Embora inicialmente tenha sido divulgado como um terremoto de magnitude 4,4 (depois revisado para 5,2), o USGS esclareceu, em nota divulgada nesta quinta-feira, 27, que não houve atividade sísmica tectônica.
A análise combinada de estações sismológicas, ondas sísmicas de longo período e imagens de satélite indicou que o evento registrado foi um “colapso glacial e fluxo de detritos”, classificado tecnicamente como um deslizamento de magnitude 5,2, a 55 km a noroeste de Kodari, no Nepal.
Especialistas do Centro Internacional para Desenvolvimento Integrado de Montanhas, em Katmandu, apontam que o aquecimento acelerado do Himalaia — que derrete geleiras a ritmo crescente desde 2000 — aumenta a frequência de eventos como esse. O rio Lhende Khola, por exemplo, já havia registrado uma inundação semelhante 14 meses antes, também ligada a transbordamento de lago glacial no Tibete.
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Contexto e riscos futuros
O desastre de 26 de agosto ocorre em região já afetada por inundações glaciais no ano anterior, quando nove pessoas morreram e uma ponte que liga Nepal e China foi danificada.
Cientistas alertam que, com o aquecimento global, o Himalaia — que abrange Nepal, Índia, China e países vizinhos — está entre as áreas do planeta mais vulneráveis a:
-Derretimento acelerado de geleiras;
-Formação e rompimento de lagos glaciais;
-Eventos extremos de chuva, enxurradas e deslizamentos.
Para especialistas, a lição imediata é a necessidade de sistemas de alerta precoce mais eficazes entre Nepal e China, capazes de detectar colapsos glaciais e avisar comunidades ribeirinhas com antecedência.
Enquanto isso, equipes de resgate seguem vasculhando escombros e áreas alagadas em busca de sobreviventes, em meio ao luto de famílias que perderam parentes, casas e meios de subsistência em poucas horas.






