Parte das cargas seguiu destino original, mas exportadores realocaram grande volume para México e outros mercados para driblar tarifa de 50%.

Em reação ao anúncio de uma tarifa de 50% sobre a carne bovina brasileira pelos Estados Unidos a partir de 1º de agosto de 2025, exportadores do setor buscaram alternativas rápidas: cerca de 30 mil toneladas de carne, que já estavam no porto ou em trânsito com destino aos EUA, foram redirecionadas a mercados como México e outros países, enquanto parte das remessas permaneceu em rota para os EUA para evitar a nova taxação.
Empresas optaram por manter os embarques que já estavam em curso como forma de minimizar perdas. Cargas que já haviam chegado aos EUA não estão sujeitas à sobretaxa e escaparam dos impactos diretos da medida.
Ao mesmo tempo, as exportadoras realocaram volumes para outros destinos, incluindo México, para preservar receita e manter operações em atividade.
Prejuízo estimado
O presidente da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), Roberto Perosa, alertou que o setor pode perder até US$ 1 bilhão em receitas com a nova tarifa de 50% aplicada.
O Brasil já exportou 181,5 mil toneladas de carne bovina para os EUA nos primeiros seis meses de 2025, gerando cerca de US$ 1 bilhão – e havia expectativa de atingir 400 mil toneladas no ano. A nova sobretaxa tem potencial para elevar a alíquota total para 76,4%, tornando inviável o comércio com o mercado americano.
Impactos para além dos EUA
A imposição da tarifa atinge diretamente setores estratégicos como carne e café — produtos que não foram incluídos na lista de isenções divulgada pelos EUA, ao contrário de produtos como suco de laranja e aeronaves, que foram poupados. Isso aumenta a pressão sobre exportadores que dependem fortemente do mercado americano.
Contexto geopolítico e ajustes comerciais
A medida, anunciada pelo presidente Donald Trump, surge em meio a tensões diplomáticas com o governo brasileiro e está vinculada a questões políticas internas, incluindo a perseguição judicial ao ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem Trump fez pública defesa.
O Brasil, por sua vez, adota postura diplomática sem recorrer a retaliações automáticas, enquanto avalia a diversificação de mercados, especialmente para China, União Europeia e países da América Latina.

Panorama da realocação e riscos
O segmento de acordo com o o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, deve sentir um impacto negativo de US$ 1 bilhão ao deixar de exportar aos EUA cerca de 200 mil toneladas que estavam previstas para este semestre. De janeiro a junho deste ano, o Brasil vendeu 181,5 mil toneladas aos americanos e faturou US$ 1,04 bilhão com os embarques.
“A gente vinha com 15 mil a 25 mil toneladas de carne por mês aos EUA e tinha a perspectiva de que fossem exportadas 400 mil toneladas neste ano para eles”, disse em evento online da revista “Exame.” Segundo Perosa, a sobretaxa de 50% elevaria as alíquotas para embarques de carne bovina a 76,4%, inviabilizando as vendas.
Fontes da indústria disseram ao Valor que frigoríficos que tinham cargas entre o porto e alto-mar optaram por manter parte dos envios aos EUA. Algumas delas já chegaram aos portos americanos e escaparam a sobretaxa.
Essa movimentação rápida mostra como exportadores brasileiros buscam evitar perdas com a aplicação da tarifa de 50%, ao mesmo tempo em que adaptam operações para sobreviver a um cenário comercial cada vez mais instável.
Perosa, da Abiec, admitiu que, mesmo que haja redirecionamento, não se trata de um volume com possibilidade de acomodação imediata em outros mercados. “Alternativa existe, mas nunca tão acessível quanto os americanos, com grande volume. Não há um mercado que absorva tudo [que seria vendido aos EUA]”.
Ele avalia, porém, que os americanos não têm um fornecedor alternativo para substituir o Brasil com o mesmo nível de competitividade de preços.
“A carne argentina e a uruguaia competem com a americana na prateleira do supermercado. Eles [concorrentes] não têm o volume que o Brasil produz da carne que é direcionada para a indústria [americana]”, afirmou.
A oferta de gado nos EUA está no menor patamar em décadas e pode não voltar a níveis anteriores — daí a necessidade do país de importar carne para atender a demanda local.






