Uma gestão que se diminui somando
É das mais instigantes e inteligentes a letra da canção “Como Dois e Dois”, composta por Caetano Veloso em 1971, quando estava exilado em Londres. Para criticar a ditadura militar, que o fez deixar o País, usou de sutileza poética subvertendo a lógica da Matemática e inventando uma operação em que dava “tudo certo como dois e dois são cinco”.
Aquele recado criativo do artista baiano para denunciar e contestar os erros de um golpe que instalou um período obscuro no Brasil continua atual, encaixando-se como luva nos cenários administrativos e políticos de várias cidades. Campo Grande, por exemplo. Aqui, sua gestora vem acumulando um erro atrás do outro. Consegue piorar o que já era pior.
E a soma de desacertos parece interminável. A prefeita sempre tem o prazer de oferecer uma surpresa. Desagradável, evidentemente. Uma das mais recentes foi pedir a autorização da Câmara Municipal para um empréstimo de R$ 150 milhões para obras que já deveriam ter sido feitas, como a restauração viária. Os vereadores se reunirão hoje, terça-feira para deliberar.
O presidente do Legislativo, Epaminondas Papy, que é da base de Adriane, está com um pé atrás, assim como estão seus colegas, a maioria Adrianista. Eles conhecem a situação falimentar das finanças municipais e o acúmulo de demandas que estrangulam o caixa, que fica assoberbado de compromissos todo final de ano.
No entanto, há outra questão nevrálgica: é o povo que pagará mais este débito se a operação for aprovada. E então é só fazer as contas, sem necessidade de relacionar todas elas, para inferir que a água já está acima do pescoço. E é nestas horas que desce o breu na paciência da sociedade, instala-se a angústia e explodem a insatisfação e a revolta. Mesmo sem serviços dignos, as contas do malfeito e do não-feito serão pagas, arrancadas do contribuinte.
Basta conferir o mapa da insolvência. As empreiteiras de tapa-buracos sofreram calote e deixaram de concluir contratos. Atualizações salariais obrigatórias deixaram de existir. Ainda estão em falta remédios, ambulância e médicos. Plantões foram cortados. Há obras que seguem inacabadas. O dinheiro da Saúde foi para outro lugar. Os repasses para as empresas de ônibus sofreram atrasos.
É este o panorama nu e cru de uma cidade que cabe “justinho” na canção do Caetano. Porque nela a escuridão gerencial impede que se faça as contas matemáticas com exatidão, e isto acaba gerando uma operação igualmente mentirosa, já que dois e dois seriam sempre quatro, desde que tudo estivesse certo.

