Sobre majestades, vassalos e bobos da corte
Ao invés de prefeita, que tal “rainha”? Ao invés de munícipes, que tal vassalos? Estas colocações são levantadas ante a figura e o comportamento da senhora Adriane Lopes, que poderia ser tratada adequadamente pelo clássico pronome de tratamento: “Vossa Majestade”.E isto por causa de algo que ainda não aconteceu, mas foi rabiscado, ou desenhado, por seu líder na Câmara de Vereadores.
A coisa se explica assim: em debate travado na Câmara abordando cobranças da população e a tarefa de fiscalização do Executivo, o líder de Adriane na Casa, Beto Avelar, num malabarismo verbal invocando o STF (Supremo Tribunal Federal), comentou que para um vereador fiscalizar de forma isolada um órgão público municipal precisa ter autorização. E autorização de quem? Da rainha, evidentemente.
Os absurdos neste contexto se amontoam, mas basta citar apenas dois. O primeiro: todo e qualquer portador de mandato legislativo (seja vereador, deputado ou senador) tem entre suas atribuições obrigatórias tratar das leis, criando-as, extinguindo-as, aperfeiçoando-as.
Segundo: outra destas obrigações do mandato é fiscalizar o Executivo, e fazer isto conhecendo minimamente as leis que definem o seu papel e o papel do mandatário ou mandatária.
O líder da majestática gestora ou não sabe ou ignorou estas duas prosaicas tarefas que competem a ele e aos seus 28 colegas, que podem e devem fiscalizar os atos do Executivo (ou da prefeita) sem necessidade de sua autorização.
Mas é essencial ser justo nesta análise para entender e aceitar que o preclaro vereador, em sendo um líder e vassalo, está ali no Legislativo para fazer (ou cumprir) as vontades da prefeita. Ou “rainha”.Assim, com ou sem projeto de lei ou decreto que venha estipular tal barbaridade, recomenda-se ao vereador ‘Adrianista’ que faça a leitura correta desta questão.
Para tirar do parlamentar ou do parlamento o seu poder fiscalizador será preciso mudar a Constituição. Ademais, toda a população sabe e vê diariamente a precariedade dos serviços públicos – e não são apenas buracos na rua.
Fiscalizar, nesses casos, é confirmar o desgoverno e documentá-lo, algo que os palacianos não querem, porque odeiam que descubram o véu e exponham aquilo que todo mundo viu e continua vendo.
O problema é que “vossa majestade”, Adriane Lopes, deve considerar-se intocável. É uma “rainha”. Ou pensa ser. E age como se fosse. Quer reinar soberana, única, blindada por súditos muito bem remunerados – e ainda conta com o “auxílio luxuoso”, não de um pandeiro, como diria Luiz Melodia, mas de um deputado estadual.
Neste reinado de faz-me-chorar – seria cômico, não fosse trágico – estão bem definidos os papéis e as canetadas da rainha e a obediência dos súditos. Resta saber até quando “vossa majestade” continuará fazendo os deserdados do castelo de bobos da corte.