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Campo Grande, 17 de agosto de 2026
editorial

Prefeitura ou Igreja: poder civil ou religioso…

  • Geraldo Silva
  • maio 4, 2026
  • 6:18 am
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Prefeitura ou Igreja: poder civil ou religioso…
A fé deve e precisa ser compartilhada. Não há dúvida. Este é um dos preceitos que definem o comportamento e o compromisso de fiéis em todas as religiões. No cristianismo, a fé prospera e mobiliza por meio das ações e das responsabilidades, entre as quais a semeadura da Palavra de Deus, resumida em passagens bíblicas como em Marcos 16:15 (“Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura”) ou Timóteo 4:2 (“pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo”).
Tudo bem. Isto é fundamental para os cristãos. Porém, há outros credos que professam semelhantes confissões e compromissos. Pregar a palavra do Deus em que se acredita é propagar o amor, o bem, a caridade, a compaixão. O cristianismo não é a única religião do planeta. E aqueles que tentam usá-lo como um instrumento de opressão, de segregação ou da posse exclusiva de uma verdade que deveria ser bem de todos fazem o contrário do que pregam.
Exatamente por isto não se deve usar a religião para fazer política de partido ou de ideologia. Cada ângulo tem o seu quadrado. 
O que as bíblias ensinam serve para melhorar e aprimorar a postura humana – e se a criatura faz a política de partido, a política eleitoral, os ensinamentos dos livros sagrados e saudáveis são necessários para qualificar o olhar e o entendimento de cada pessoa sobre seu papel em relação à sociedade e ao mundo em que vive, para tratá-lo com amor, humanidade, respeito.
Em se tratando de mandato ou de cargo público, a função precisa e deve ser exercida descolada de dogmas religiosos. Cristãos, por exemplo, sabem que Jesus não escolheu nenhuma religião para chamar de sua. Isto significa que católicos, evangélicos, protestantes, espíritas, umbandistas e demais denominações tem o direito de existir e defender suas crenças, desde que não a usem para atender conveniências pessoais, políticas ou patrimoniais.
A imprensa campo-grandense noticia que a prefeita Adriane Lopes, de Campo Grande, andou ou anda povoando sua gestão com assessores recrutados no território religioso onde pratica sua fé para cargos públicos na prefeitura. Cargos estratégicos e bem remunerados.
Sem discutir as eventuais competências ou incompetências, isto vem a ser um atropelo, contraditório e perdulário, que ameaça a qualidade da gestão e derruba a postura que fiéis da palavra deveriam ter quando se veem diante de um impasse entre a ambição pessoal e a observação da própria fé.
A gestão pública exercida por gente focada em uma determinada religião pode gerar consequências negativas, especialmente em estados laicos. Impactam a igualdade, a democracia e a eficiência administrativa. A mistura entre os dogmas religiosos e a administração pública fere os princípios da neutralidade e da isenção, porque o Estado deve garantir a liberdade de crença de todos.
Dessa forma, certas políticas públicas podem ser direcionadas para favorecer um grupo ou impor um pensamento ou dogma específico, ao qual, eventualmente, possam estar atrelados conceitos e comportamentos discriminatórios que marginalizam minorias, machucam direitos claros e legítimos, sobretudo com decisões baseadas em “moral e costumes” de uma fé específica.
Este artigo, é capital enfatizar, não tem pretensão de ensinar como praticar a própria fé ou a própria escolha religiosa, mas sobre como fazer a adequada distinção entre o papel do crente e o papel do agente público.
Que a prefeita municipal siga pregando o Evangelho, mas praticando-o também – o que significa cuidar melhor da cidade, das finanças, da gestão e da obrigação de honrar o mandato de interesse público, e não deste ou daquele templo.
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