O egocentrismo é uma das barreiras mais poderosas que procuram – e muitas vezes conseguem – impedir que humildade, sensatez e lucidez façam estada ou morada no coração e na cabeça dos humanos. É que os egoístas são narcisos, porque adoram-se na auto contemplação solitária do espelho de vidro, e são difusores do mau-humor, do segregacionismo e da negação à tolerância e ao universalismo do amor.
Pode ser mera filosofia. Barata e fácil. Pode ser. Porém, quem é que, de hígida consciência, nega a existência de tais desvios conceituais e comportamentais no âmbito reservado de gente que faz o olhar para o próprio umbigo a bússola de sua existência? Errar, todos erramos. Mas podemos escolher, com o erro, entre melhorar ou piorar. É preciso, então, tirar os olhos narcísicos de nós mesmos e olhar nossos arredores, para saber que a humildade é um dos melhores espelhos do caráter.
Escritas tais “filosofâncias”, entra em cena um exemplo inequívoco da “política do próprio umbigo” praticada pela prefeita Adriane Lopes. Na última quinta-feira (6), ela perdeu uma chance de ouro para justificar e traçar, minimamente, razões que talvez tirassem de si e a aliviassem da exclusiva responsabilidade pela caótica gestão. Ela teria em sua secretária de Finanças, Márcia Hokama, a melhor interlocutora para fortalecer a defesa e o contra-ataque da gestão.
Se atendesse à convocação da Câmara Municipal, Hokama iria abastecer, com argumentos e dados, os vereadores interessados em fazer a defesa da prefeita ou ao menos elencar situações plausíveis que estejam impedindo Adriane de cumprir promessas de campanha. A secretária, no entanto, não foi. Qualquer seja a razão, fica a impressão de ter fugido ou de estar se escondendo de perguntas incômodas. Mandou um preposto, esquecendo-se que incompetência é algo intransferível, embora tenha efeito contagioso.
Ora, a Câmara, de 29 vereadores, tem mais de 20 deles na base adrianista. Um volume capaz de fazer trovejar e ecoar em uníssona e elevada voz a palavra da prefeita e as razões superiores que tiram dela a condição de fazer mais ou melhor pela sociedade. Adriane Lopes fez, assim, ao ignorar esta oportunidade, a política do próprio umbigo. Não dar voz a quem nomeou para falar por ela soa estranho.
A responsabilidade e a inteligência são como a humildade: calçam sandálias, porém são mais resolutivas e acreditadas andando descalças.

