Mas era feita com muito esmero, na Rua dos Bobos Número zero.
Quase todo mundo, sobretudo as crianças, conhece esta canção de Vinícius de Moraes ou cantarola seus versos, que começam assim: “Era uma casa muito engraçada/Não tinha teto, não tinha nada/Ninguém podia entrar nela, não/Porque na casa não tinha chão”.
O arrebatamento poético e ingênuo da composição é mensagem que pode ilustrar, por analogia e comparações, o lúdico e o real, com as suas abismais diferenças. Se para a infância a casa de Vinícius remete a uma viagem de fantasia, divertida e surpreendente, aos adultos a analogia comparativa assusta, quando aplicada a alguns casos reais.
Um desses casos está à vista dos campo-grandenses, cuja prefeita, Adriane Lopes, mesmo mergulhada num lodaçal de desmandos, inépcia e desajustes financeiros extremos, ainda encontra inspiração – e coragem, ou cara de pau – para presentear assessores privilegiados com até 41% de aumento salarial. É uma prova eloquente de que a prefeitura, a casa da prefeita, não tem teto, não tem chão, não tem nada e está muito longe de ser engraçada.
Até parece que esta não é a caótica gestão que jogou a saúde e o transporte coletivo no caos, dilapida os cofres públicos com gastanças maquiadas por folhas secretas e entrega-se a um destino imprevisível para tomar emprestados, e no desespero, milhões de reais destinados a fazer o que não foi feito nos últimos anos.
A cidade e a área rural estão esburacadas, com inúmeras vias intransitáveis; os bairros abandonados; a rede pública de saúde sem medicamentos básicos; pontos de ônibus sem cobertura e a frota envelhecida; pessoas e veículos sendo espancados pelo impacto das chuvas numa urbe fragilizada e vulnerável a qualquer mau tempo.
E enquanto isto, de um lado os privilegiados do poder surfam na excelsa generosidade de uma prefeita que lança seus ganhos às alturas, ao passo que, do outro lado, a esmagadora maioria de servidores, os que de fato trabalham e não são pagos para bajular a majestade, continua à espera, inútil, de uma mínima reposição salarial, direito que há três anos vem sendo sonegado pela prefeita.
Com certeza, nesta casa que não tem teto e nem chão, e que em vez de engraçada é melancólica, não moram sortudos e sortudas como a Sra Thelma Fernandes Mendes Nogueira Lopes. Concunhada da prefeita e chefe da Casa Civil, sua remuneração, acrescida de penduricalhos, saltou de R$ 23,5 mil (em janeiro de 2025) para R$ 33,3 mil, em janeiro deste ano.
A propósito, sobre a música de Vinícius, o último verso de “A Casa” é este aqui: “Mas era feita com muito esmero/Na Rua dos Bobos Número zero”. Qualquer semelhança com fatos reais não terá sido mera coincidência.