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Campo Grande, 04 de setembro de 2026

Médicos da Santa Casa de Campo Grande param atendimentos após cinco meses sem salário

  • 24 de setembro, 2025
  • Geral, Saúde
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Crise trabalhista atinge 78 profissionais PJ; setores de urgência seguem ativos, enquanto ações judiciais tentam forçar pagamentos.

A Santa Casa reconheceu a paralisação parcial e a dívida, mas atribui os atrasos a um “desequilíbrio contratual” e ao subfinanciamento do SUS, afirmando que os repasses não cobrem os custos da instituição. Só em julho, o hospital recebeu R$ 36,1 milhões em recursos do SUS e R$ 3,8 milhões em emendas parlamentares, mas alega que o valor não foi suficiente para equilibrar as contas.

A Santa Casa de Campo Grande enfrenta uma crise trabalhista sem precedentes. Médicos contratados como pessoa jurídica (PJ) estão há cinco meses sem receber salários, o que levou à suspensão dos atendimentos eletivos e ambulatoriais. Apesar disso, setores essenciais como urgência, emergência, UTI, pronto-socorro e hemodiálise continuam funcionando, embora com equipes reduzidas e sobrecarregadas.

Segundo o Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul (SinMed-MS), a paralisação atinge principalmente consultas e cirurgias programadas, com exceção da neurocirurgia, que manteve parte da rotina. Já pacientes que dependem de procedimentos eletivos enfrentam reagendamentos sucessivos ou estão sem previsão de atendimento.

PJ x CLT: duas realidades no mesmo hospital

O modelo de contratação é um dos pontos centrais da crise. Enquanto técnicos de enfermagem e enfermeiros são celetistas (CLT) — e chegaram a enfrentar atrasos de salário em setembro, só regularizados após mobilizações e protestos internos —, os médicos são a única categoria contratada como PJ.

Nesse regime, não há vínculo empregatício formal, nem direitos como 13º salário, férias ou FGTS. Com isso, quando há atraso de pagamento, os profissionais ficam completamente desprotegidos.

Para o presidente do SinMed, Dr. Marcelo Santana Vieira, essa precarização é inaceitável:“É como uma empresa dizer que não vai pagar um funcionário porque não recebeu por uma venda. Isso não existe em lugar nenhum.”

Justificativas da direção e cobrança do sindicato

A Santa Casa reconheceu a paralisação parcial e a dívida, mas atribui os atrasos a um “desequilíbrio contratual” e ao subfinanciamento do SUS, afirmando que os repasses não cobrem os custos da instituição. Só em julho, o hospital recebeu R$ 36,1 milhões em recursos do SUS e R$ 3,8 milhões em emendas parlamentares, mas alega que o valor não foi suficiente para equilibrar as contas.

O sindicato contesta e aponta falhas de gestão. Para o SinMed, os repasses existem, mas a administração da Santa Casa não prioriza os pagamentos da categoria.

Judicialização e perspectivas

Sem acordo direto, o SinMed-MS ajuizou ação judicial cobrando o pagamento dos cinco meses de salários atrasados dos 78 médicos PJ. A entidade já havia acionado a Justiça no início de setembro para garantir os salários dos trabalhadores CLT — que foram pagos após pressão jurídica e mobilização.

O caso agora pode se estender por meses, mas o sindicato avalia que a Justiça tende a obrigar a Santa Casa a regularizar os pagamentos, já que a dívida trabalhista é reconhecida pelo próprio hospital.

Além disso, o Conselho Regional de Medicina (CRM-MS) acompanha a crise, fiscalizando os serviços e encaminhando relatórios ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), que já promove reuniões para discutir saídas.

Enquanto a judicialização segue em curso, a crise expõe duas dimensões:

Assistencial, com a suspensão dos atendimentos eletivos e impacto direto em milhares de pacientes que dependem do SUS;

Trabalhista, revelando a fragilidade do modelo PJ para médicos e a instabilidade financeira do maior hospital filantrópico do estado.

O MPMS deve ampliar sua atuação para tentar um acordo entre gestores e corpo clínico, mas o sindicato sinaliza que não recuará até que os pagamentos sejam regularizados.

A direção do hospital reconheceu a paralisação parcial. Em nota, confirmou que “há uma paralisação nos atendimentos ambulatoriais e eletivos devido aos atrasos de pagamentos aos profissionais médicos” e que “as equipes que atuam nesses setores estão suspendendo completamente suas atividades”. Já os atendimentos de urgência e emergência seguem com força de trabalho reduzida, respaldados por resolução do Conselho Regional de Medicina (CRM-MS).

A crise se arrasta e penaliza pacientes

A paralisação não é recente: há mais de 15 dias os procedimentos eletivos foram suspensos, afetando diretamente pacientes que aguardam por cirurgias e consultas. Muitos têm enfrentado reagendamentos sucessivos ou estão simplesmente sem previsão de atendimento.

No cenário prático, a fila cresce enquanto a incerteza persiste. Os médicos, embora sobrecarregados e sem salário, mantêm a atuação nos setores de emergência por compromisso ético, mas não há como sustentar a continuidade do trabalho sem remuneração.

O caso da Santa Casa de Campo Grande expõe mais do que um problema local: reflete a precarização das relações de trabalho na saúde pública brasileira. O modelo de contratação via PJ tem se disseminado como forma de reduzir encargos, mas transfere todo o risco da atividade ao profissional. Sem vínculo empregatício formal, os médicos ficam desprotegidos diante de atrasos salariais, como agora.

Além disso, a alegação de “desequilíbrio contratual” como justificativa para não pagar salários levanta dúvidas sobre a transparência e a responsabilidade fiscal da gestão hospitalar. O impacto é duplo: sobre a dignidade dos trabalhadores da saúde e sobre a população que depende do SUS.

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