Técnicos em finanças acharam irregularidades em contratos de R$ 48,5 milhões para manutenção da frota.

Quando se supõe que o caos é tão absoluto que não há mais como piorar, a prefeita Adriane Lopes (PP) consegue surpreender e traz novas barbeiragens administrativas.
Uma auditoria do Sistema Único de Saúde (SUS) identificou pelo menos nove irregularidades na fiscalização dos serviços prestados pela empresa paranaense QFrotas Sistemas. Ela foi contemplada com R$ 48,5 milhões em contratos para manutenção da frota.
Segundo os auditores e as informações publicadas por veículos da imprensa local, a prefeita “torrou” R$ 589 mil numa única ambulância e ainda chancelou gastos indevidos.
Com o dinheiro que desembolsa para uma empresa de outro estado dar manutenção a veículos usados, seria possível comprar mais de 600 carros zero km.
Os 24 contratos foram celebrados em 2022, ano em que Adriane Lopes assumiu a prefeitura, inicialmente com valor global de R$ 10.653.476,18.

Aditivos
Desde então a empresa recebeu R$ 37.855.956,43 em aditivos, o que elevou o montante contratado para R$ 48.509.432,61. Os acréscimos representam aproximadamente 355% do valor original.
Na prática, o total contratado passou a ser 4,55 vezes maior que o previsto inicialmente. A expansão ocorreu por meio de contratos distribuídos entre secretarias, fundos e órgãos municipais, com concentração expressiva de recursos nas áreas de Saúde, Educação e Infraestrutura.
Somadas, as três áreas respondem por R$ 33,2 milhões, valor equivalente a 68,4% do total. O setor de saúde é castigado duramente por todos esses descompassos.
Cobranças de quem vai às unidades de atendimento e não encontram plantonistas ou buscam remédios que não existem na farmácia do posto estão entre as queixas recorrentes.
A dimensão financeira dos contratos com a QFrotas aparece nos registros do Portal da Transparência de Campo Grande. A Secretaria Municipal de Educação (Semed), por exemplo, firmou contrato inicial de R$ 1.450.000,00, posteriormente acrescido de R$ 5.075.000,00. Com os aditivos, o valor chegou a R$ 6.525.000,00.
Na Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), o contrato de R$ 1.700.000,00 recebeu R$ 6.077.500,00 em acréscimos, alcançando R$ 7.777.500,00.

Inquérito
Em 2025, o Ministério Público Estadual (MPE) instaurou inquérito civil para investigar possíveis irregularidades nas renovações contratuais e nos aditivos envolvendo a QFrotas. A apuração acrescentou uma frente de investigação à relação comercial estabelecida entre a prefeitura e a empresa.
Os desembolsos continuaram em 2026. Segundo os dados apresentados do Portal da Transparência municipal, entre janeiro e setembro a prefeitura pagou R$ 3.983.054,52 à QFrotas por serviços de manutenção de veículos.
Um dos casos destacados pela auditoria envolve a ambulância de placa QAN-8339. Os gastos com sua manutenção atingiram R$ 589.389,28 ao longo de dois anos e cinco meses. Segundo o relatório, o montante foi 264% superior ao valor de mercado de uma ambulância nova, conforme a comparação feita pelos auditores.
Em outras palavras, o custo acumulado dos reparos correspondeu a 3,64 vezes o valor utilizado como referência para um veículo novo.






