Santa Casa atingida por doença letal
Ao contrário das demandas mais corriqueiras de seu cotidiano, a presença de viaturas policiais e agentes da lei em frente à Santa Casa de Campo Grande (MS) na última sexta-feira (11/09) não estava relacionada à internação ou busca de algum paciente sob custódia. Era uma batida policial mesmo, dentro da “Operação Antidotum”, deflagrada para cumprir seis mandados de prisão e outros de busca e apreensão.
O motivo, segundo explicou a força-tarefa do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco): desvio de dinheiro que caiu na contabilidade do hospital e de lá saiu para outros destinos, que em nada tem a ver com a saúde ou a salvação de vidas humanas. Até a presidente da instituição e vários diretores estavam no alvo da operação.
Fundada em agosto de 1917, a Santa Casa completou 109 anos. É uma instituição centenária, respeitável, e embora nascida sob estatutos de iniciativa privada cumpre papel de gigantesco humanista na prestação de serviços de saúde pública. A sua imensa maioria da pacientes é formada por pessoas que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS).
Um de seus fundadores e seu ex-presidente, Arthur D´Ávila Filho, referia-se a este hospital como “extraordinário patrimônio do bem”. E o que é que andam fazendo com ele? De vez em sempre a Santa Casa tem solavancos financeiros. Seus pedidos recorrentes de socorro financeiro inquietam a população e fazem os poderes públicos abrirem brechas nos orçamentos para acudi-la.
Obviamente, um nosocômio com suas dimensões, abrigando uma estrutura que o transformou em um dos maiores do gênero no País, tem custos elevadíssimos.
Certamente, os repasses do SUS não cobrem os custos elevados de manutenção, folha salarial e aparelhamento. Porém, o sistema de atendimento particular funciona sem interrupção, é solicitado por pacientes que vem deste e de outros estados, às vezes até de outros países.
A Santa Casa, apesar de todas as crises, é um dos melhores e mais resolutivos hospitais do Brasil. Possui serviços clínicos de reconhecida excelência, entre os quais o de transplantes de coração. Infelizmente, o malsinado vírus da ambição corrói todo um sistema.
Justos continuam pagando pelos pecadores. Toda uma instituição, essencial para a vida de milhares de pessoas, é afetada pela meia dúzia de gestores mais preocupados com a engorda de lucros pessoais ou de suas próprias vaidades.
Sem fazer pré-julgamento e no aguardo ansioso pelas conclusões da investigação, resta a este editorialista e à sociedade, como um todo, torcer para que a Santa Casa supere mais esta crise e não venha de pires nas mãos implorar por auxílio financeiro emergencial, enquanto a sua credibilidade padece nos corredores da corrupção.