Operação Antidotum cumpre 42 mandados e apura desvio de R$ 4,9 milhões em contratos de digitalização de prontuários e repasses a empresas de fachada; hospital segue atendendo normalmente.

A presidente da Santa Casa de Misericórdia de Campo Grande, Alir Terra Lima, e outros cinco presos na Operação Antidotum, deflagrada na manhã desta sexta-feira (11/09) pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), passam por audiência de custódia na manhã deste sábado (12/09). A ação investiga um esquema de fraudes e desvios que já soma R$ 4,9 milhões em prejuízos à Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande e à operadora Santa Casa Saúde.
A audiência de custódia tem como objetivo verificar se os direitos dos presos foram respeitados durante a execução dos mandados. Como todos cumprem prisão preventiva, a medida só poderá ser revertida caso as defesas recorram à Justiça.

Quem são os presos e seus cargos na instituição
Além de Alir Terra Lima, diretora-presidente da Santa Casa, foram presos preventivamente:
–Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa — diretor adjunto de Finanças da Santa Casa
-Rinaldo Hakme Romano — ex-diretor financeiro da Santa Casa
-Alessandro Dias Junqueira — ex-diretor administrativo da Santa Casa
-Monique Gregório de Oliveira — coordenadora do Serviço de Arquivamento Médico e Estatística (Same) da Santa Casa
-Maurício Aparecido Benites — empresário, proprietário da Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços, de Goiânia (GO)
Todos foram conduzidos ao Presídio Militar de Campo Grande após as prisões.

Como o MP descobriu o esquema
As investigações do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) começaram após suspeitas de irregularidades em contratos firmados pela Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande.
Os promotores identificaram pagamentos elevados sem a devida contraprestação de serviços e omitiram contratos, pagamentos e prestações de contas dos órgãos de controle, incluindo o Conselho Fiscal da Santa Casa e a Controladoria-Geral do Estado (CGE-MS).
Duas frentes de desvios: digitalização de prontuários e empresas de fachada
O esquema investigado tem duas frentes principais:
1. Contrato de digitalização de prontuários médicos
Firmado com a empresa Redvalue Tecnologia, de Goiânia, o contrato previa pagamento de R$ 1,8 milhão por ano durante três anos, totalizando R$ 5,4 milhões. Segundo o MPMS, somente no primeiro ano foram desviados cerca de R$ 1,4 milhão, com pagamentos realizados sem a efetiva prestação dos serviços de digitalização.
2. Repasses a empresas do mesmo grupo econômico
O Gecoc também apurou irregularidades em contratos da Operadora Santa Casa Saúde com diversas empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico, cujo proprietário tinha ligações com a diretoria da Santa Casa. As empresas estavam registradas no mesmo endereço, mas o imóvel estava desocupado, caracterizando empresas de fachada. Somente em 2025, a operadora pagou R$ 9,6 milhões a essas empresas, gerando um prejuízo mínimo estimado em R$ 3,5 milhões.

Passo a passo da operação
6h desta sexta-feira (11/09): Equipes do Gecoc e Gaeco, com apoio do Batalhão de Choque da Polícia Militar de MS (BPChq/PMMS), iniciam o cumprimento dos mandados em Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO).
Locais visitados: Presidência, faturamento e setor financeiro da Santa Casa, além de endereços em Dourados e Goiânia ligados às empresas investigadas.
Mandados cumpridos: 6 prisões preventivas e 36 buscas e apreensões. Documentos e materiais foram recolhidos para compor o inquérito.
Participação da OAB: A Comissão de Defesa e Assistência das Prerrogativas dos Advogados da OAB-MS acompanhou a ação para garantir o respeito às prerrogativas profissionais.
Santa Casa segue funcionando normalmente
Em nota, a Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande informou que está prestando atendimento às autoridades responsáveis pela operação e se colocou à disposição para fornecer informações e esclarecimentos solicitados formalmente. A instituição reforçou que os atendimentos à população seguem normalmente, sem qualquer prejuízo à assistência aos pacientes, e que as visitas também estão mantidas.
Os 18 conselheiros da Santa Casa se reuniram às pressas na tarde de sexta-feira para discutir o caso e entender os desdobramentos da Operação Antidotum. Segundo o ex-presidente Heitor Freire, os vices e suplentes já assumiram os cargos deixados pelos diretores presos, e o hospital não irá parar.
Próximos passos
O MPMS segue apurando o valor total dos recursos desviados, a participação de cada investigado no esquema e a existência de outros contratos irregulares. A investigação também deve promover o ressarcimento aos cofres da Santa Casa e da operadora, além de avaliar medidas de bloqueio de bens e afastamento de gestores.
O nome da operação, Antidotum, vem do latim e significa “antídoto” ou “contraveneno”, em referência à medida utilizada para neutralizar algo nocivo — no caso, o esquema de desvios que agravou a crise financeira já enfrentada pela Santa Casa, que recentemente suspendeu cirurgias cardíacas pediátricas eletivas por falta de insumos e profissionais.






