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Campo Grande, 19 de agosto de 2026

Feminicídio: Perícia aponta agressões antes de tiro que matou fisioterapeuta

  • 19 de agosto, 2026
  • Feminicídio, Violência Contra a Mulher
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Fabíola Marcotti, de 51 anos, foi encontrada morta em 18 de maio na chácara onde vivia com o marido, o cardiologista João Jazbik Neto A investigação afastou a versão de suicídio, apontou violência doméstica e levou à prisão preventiva do médico.

Polícia conclui que morte de Fabíola Marcott em Campo Grande foi feminicídio e indicia cardiologista - Portal TOP Mídia News

A fisioterapeuta Fabíola Marcotti, de 51 anos, foi agredida na cabeça antes de ser atingida por um tiro que provocou sua morte, segundo a reconstrução feita pela perícia e incorporada à investigação conduzida pela 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), em Campo Grande.

A Polícia Civil concluiu o inquérito no domingo (17/08) e classificou o caso como feminicídio em contexto de violência doméstica e familiar. A investigação afastou a hipótese de suicídio apresentada inicialmente pelo marido da vítima, o médico cardiologista João Jazbik Neto, de 78 anos, que permanece preso preventivamente.

Fabíola foi encontrada sem vida na manhã de 18 de maio, dentro da chácara onde morava com o médico, na região da Chácara dos Poderes, no Jardim Veraneio, em Campo Grande (MS). Ela tinha uma perfuração de arma de fogo na cabeça. João acionou a polícia e declarou, inicialmente, que a esposa havia tirado a própria vida.

Médico é preso por feminicídio de fisioterapeuta em Campo Grande

Corpo foi encontrado dentro da residência

A morte foi registrada no fim da manhã de 18 de maio. O chamado à Polícia Militar, de acordo com informações que passaram a integrar a apuração, foi feito às 10h33. Quatro minutos depois, às 10h37, uma mensagem foi enviada pelo telefone celular de Fabíola, que ainda teria registrado movimentações até 10h47, dados analisados pelos investigadores na reconstrução da cronologia do caso.

A vítima foi encontrada dentro da casa onde vivia com o marido. Desde os primeiros levantamentos, a Deam identificou divergências entre as versões apresentadas pelo médico, por testemunhas e por outras pessoas ouvidas no inquérito. A incompatibilidade entre a lesão e a narrativa inicial também foi indicada em exame pericial preliminar.

Ainda em 18 de maio, João foi preso em flagrante após policiais encontrarem armas sem documentação na propriedade. A investigação também apurou que, após a morte de Fabíola, um armário com armas e munições teria sido retirado da casa principal e levado para outra edificação no mesmo terreno. Para a Polícia Civil, a conduta configurou suspeita de fraude processual. Na época o médico, o caseiro e um ex-funcionário foram autuados em flagrante.

Perícia aponta sequência de agressões

O laudo analisado pela investigação descreve que Fabíola teria sido atingida primeiro por golpe com objeto contundente ou cortocontundente na lateral direita da cabeça, quando ainda estava em pé. Com o impacto, ela teria caído de joelhos e, em seguida, permanecido em posição semelhante àquela em que o corpo foi localizado.

A perícia apontou ainda novas agressões na lateral esquerda da cabeça. No imóvel, foram identificadas manchas de sangue na parede em frente ao sofá e na porta da suíte, além de fragmentos ósseos espalhados pela sala.

Conforme a dinâmica técnica, a cabeça da fisioterapeuta teria sido erguida antes do disparo. O projétil entrou pelo lado esquerdo, saiu pela lateral direita e atingiu um quadro instalado dentro da residência. A causa da morte foi apontada como traumatismo cranioencefálico decorrente de projétil de arma de fogo.

O exame necroscópico também registrou três hematomas no corpo da vítima: um no peito, com aproximadamente oito centímetros, outro na mão direita e um terceiro na parte frontal da coxa direita. Isoladamente, o documento não estabeleceu quando nem como as lesões foram produzidas, mas os achados passaram a integrar o conjunto de evidências analisado pela Deam.

Fisioterapeuta é encontrada morta em chácara de médico em MS

Hipótese de suicídio foi afastada

Os peritos analisaram a possibilidade de Fabíola ter efetuado o disparo contra a própria cabeça, hipótese inicialmente relatada pelo marido. A conclusão da Polícia Civil, após meses de diligências e perícias, foi de que os elementos técnicos não sustentam essa versão.

Entre os pontos considerados estão a ausência de vestígios típicos de tiro feito com o cano da arma encostado ou muito próximo à pele, como chamuscamento, esfumaçamento, queimaduras nos cabelos, fuligem e partículas de pólvora ao redor do ferimento.

A trajetória do projétil foi avaliada com cálculos e escaneamento em 3D. Segundo a perícia, o disparo seguiu de baixo para cima e da esquerda para a direita, com origem na área em frente ao sofá. A análise descartou que Fabíola estivesse sentada ou em pé ao efetuar o tiro, bem como a possibilidade de ela estar no sofá com a arma voltada para a própria cabeça.

Para os investigadores, a posição em que o corpo estava e a altura em que a arma ficaria — estimada em cerca de 40 centímetros do chão — também não seriam compatíveis com um disparo autoinfligido. A Polícia Civil informou que os laudos do Instituto de Criminalística e do Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Imol) afastaram categoricamente o suicídio e confirmaram a ocorrência de feminicídio, no entendimento da investigação.

Cardiologista volta a ser preso pelo feminicídio da esposa em MS | G1

Prisão preventiva e defesa

João Jazbik Neto chegou a ser preso logo após a morte por posse irregular de arma de fogo e fraude processual, mas recebeu habeas corpus em 23 de maio e passou a responder em liberdade, com uso de tornozeleira eletrônica e outras medidas cautelares.

Em 14 de agosto, porém, o juiz Aluízio Pereira dos Santos, titular da 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande, decretou a prisão preventiva do cardiologista pela suspeita de feminicídio. A medida foi requerida pela Deam após a conclusão das perícias técnicas e da investigação.

A defesa do médico considera a prisão “descabida”, afirma que o inquérito é uma etapa sem contraditório pleno e diz que João mantém sua versão dos fatos. O advogado José Belga Trad afirmou que a defesa exercerá o direito de contestar as provas e produzir contraprovas caso o Ministério Público ofereça denúncia e ela seja recebida pela Justiça. O médico nega envolvimento na morte da esposa.

A prisão preventiva não representa condenação. Com o inquérito concluído, o material deve ser encaminhado ao Ministério Público e ao Judiciário, que analisarão os próximos passos processuais, inclusive uma eventual denúncia criminal.

 

Família pede justiça

Familiares de Fabíola afirmam que a conclusão pelo feminicídio não surgiu de desejo de vingança nem de pressão pública, mas do resultado das perícias e das diligências realizadas ao longo da apuração. Em manifestação divulgada após a prisão preventiva, a família classificou a morte como um “cruel feminicídio” e repudiou a tentativa de consolidar a versão de suicídio antes do encerramento técnico do caso.

O irmão da fisioterapeuta, José Flávio Marcotti, classificou o crime como “extremamente cruel” e elogiou o trabalho da delegada Analu Lacerda Ferraz e dos peritos envolvidos na investigação. Familiares também relataram que Fabíola pretendia deixar o relacionamento, enfrentava dependência financeira e havia pedido ajuda para sair de Campo Grande. Esses relatos foram considerados no contexto investigado.

Em nota, a família declarou que reconhece o direito de defesa, o contraditório e a presunção de inocência do investigado, mas defende que as provas sejam examinadas pelas instituições competentes. “A família não busca vingança. Busca Justiça. Não pede condenação pela opinião pública. Pede verdade”, afirmaram os parentes.

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