* Por Vanusa Braga
O médico Dilson Maurer revela sintomas silenciados como fogachos, libido zero e névoa mental nas mulheres, em períodos que antecedem e que fazem parte da menopausa. Reposição hormonal pode ser a solução precoce e vitalícia. Pouco se fala dos desconfortos do climatério, que fazem parte da menopausa ou antes dela. Este período é de transição e se apresenta com flutuações hormonais que alteram o ciclo reprodutivo. Nesta fase, as mulheres, de forma geral, só buscam ajuda muito depois de surgirem sintomas e passarem por desconforto e sofrimento, alerta o médico. “Os sintomas podem começar até 10 anos antes de parar de menstruar. Este é o climatério. Perto da última menstruação, a mulher entra na perimenopausa”.
FOLHA DE CAMPO GRANDE – Quais as reclamações mais constantes que ocorrem no consultório aos 40+?
DILSON MAURER – As pacientes chegam geralmente com fogachos que consideram irritantes. Uma sensação de calor do peito para cima e ondas de suor, que vão e voltam, sono picado pela falta de progesterona, ressecamento vaginal e consequente desconforto nas relações sexuais, além da falta de libido, infecções urinárias, névoa mental (o chamado esquecimento ou “branco”) e ganho de peso sem alterar a dieta.

FCG – Uma das principais queixas no relacionamento com o parceiro é a redução da libido. Qual a orientação?
DM – A libido feminina é multifatorial: precisa de estímulo, lubrificação e parede vaginal espessa, para que o corpo responda bem durante o namoro. A baixa de estrogênio causa atrofia, lesões internas e atos mecânicos acabam desgastando a relação entre o casal. Várias pacientes se queixam que os parceiros confundem a falta de vontade com falta de amor ou até mesmo a existência de uma terceira pessoa no relacionamento, para justificar o desinteresse. A resposta é fornecida pela própria confusão hormonal trazida pela maturidade do corpo da mulher. As flutuações hormonais trazem impactos diários: A menopausa é o corpo deixando de produzir hormônios de forma constante. Há picos, ausências longas de menstruação e fluxos intensos no fim desta fase.
FCG- Fogachos ou as famosas “ondas de calor” limitam a vida da mulher?
DM – Minha mãe não usou casaco por 5 anos, pois preferia frio a suar. Este é um dos exemplos de quando o metabolismo basal cai, gerando compulsão por doces via ansiedade e insônia. A mulher continua comendo as mesmas quantidades, mas engorda. A partir da identificação das mudanças hormonais, procede-se as adequações para regular os hormônios não sintetizados mais pelo organismo e o milagre acontece. A partir daí as mulheres dizem: “Me sinto viva de novo”, pois a volta da disposição vem. E esta é uma manutenção vitalícia, possível não só pacientes de 40+ ou 50+, mas até as de 80+.
FCG- O check-up hormonal é indicado a partir de qual idade?
DM – Quanto antes surgirem os sintomas, o check-up deve ser realizado. Ao constatar exames alterados conseguimos intervir com hormônios para proteger ossos, cérebro, articulações e disposição. O monitoramento de como o organismo reage aos níveis de produção, sintetização e metabolização de hormônios deve ser bimestral ou trimestral, pelo menos até que tudo se normalize.
FCG – Ainda tem muita resistência contra a utilização de hormônios por conta dos mitos do estudo WHI… Há contraindicações?

DM – Os riscos do estudo WHI (Women’s Health Initiative) de 2002 foram superestimados devido a falhas metodológicas e de interpretações que geraram “hormoniofobia” por mais de duas décadas.
Houve falhas na população estudada. O estudo usou mulheres com idade média de 63 anos, assintomáticas e anos após o climatério, diferente das pacientes ideais para reposição hormonal. Diante deste panorama vieram os exageros estatísticos, principalmente no câncer de mama, onde foi relatado mais de 26% de risco, mas o aumento absoluto foi mínimo, de 2,33% para 2,94% em 5 anos.
Outros dados desfavoráveis foram os cardiovasculares, onde mais de 29% de infarto foi relatado com o uso de hormônio, mas análises de 20 anos do próprio WHI mostraram risco insignificante ou neutro. Além do equívoco na faixa etária, houve erro no tipo de hormônio e dosagem, pois foram utilizados hormônios animais em doses altas, e não os bioidênticos aos transdérmicos utilizados atualmente.
A FDA (Food and Drug Administration), que é a agência federal dos EUA equivalente à Anvisa no Brasil, o retirou da tarja preta em 2025, reconhecendo a superestimação da pesquisa de 2002.
Hoje o consenso dos estudos como WHI de longo prazo e meta-análises com hormônios bioidênticos mostram que para mulheres antes de 60 anos, com sintomas moderados-graves, os riscos são mínimos e os benefícios superam.
FCG – A menopausa ainda é um tabu?
DM – Ainda falta diálogo entre os casais. O parceiro acha que é traição, mas é dor, pois lubrificantes, como KY e outros, apenas mascaram o problema, sem tratar. Em consultório já ouvimos sobre final de um casamento de 35 anos por silêncio familiar. Quando ocorre alteração do desejo, seja do homem ou da mulher, ou dor, o assunto precisa ser abordado desde o início.

FCG- Nesta fase qual indicação para oscilação e ganho de peso?
DM – A reposição eleva o metabolismo, mas evite a sarcopenia (perda muscular) por meio de canetas emagrecedoras com efeito rápido e sem controle. Emagreça devagar, com proteínas e músculo. O indicado é um acompanhamento nutricional para mudar hábitos, aliado a exercícios que goste e que consiga praticar com assiduidade. Movimentar o corpo é preciso, mas tem que ser um hábito de prazer e satisfação, quer seja numa caminhada, natação, aulas de dança, musculação ou qualquer outro exercício que tenha afinidade.
FCG – Quando procurar ajuda?
DM – A partir dos 30-40 anos, se perceber que algo mudou, como libido baixa, ressecamento, esquecimentos, infecções… Faça mamografia, preventivo, densitometria. Se surgir algum sintoma que incomode, procure um médico. A solução pode ser simples. Saúde se constrói diariamente. Observe o corpo. Menopausa não é sentença, é transição. Toda mudança assusta, mas o que importa é identificar o problema e encontrar a solução.

