Defesa fora de hora é gol contra
No futebol, a defesa de um goleiro só é completa quando impede que o adversário marque um gol. Contudo, às vezes o guarda-metas é surpreendido não pelo avante rival, mas pelo próprio companheiro de equipe.
No chamado “fogo amigo”, o gol contra está entre as maiores infelicidades de um atleta, geralmente zagueiro, que não pode chegar atrasado na jogada para que seja preciso e cirúrgico na marcação do atacante e na interrupção dos arremates.
Chegar atrasado é um ato lamentável e, no caso de quem defende, resulta quase sempre em gol do atacante ou de si próprio, contra sua própria meta. Na política as coisas são equivalentes. Quando o eleitor vai às urnas para votar num vereador, por exemplo, ele quer delegar poder a alguém confiando que terá um defensor a representá-lo publicamente.
Os vereadores, sem exceção, sabem disso de cor e salteado. Todavia, nem todos cumprem o combinado com quem votou.
A trágica gestão que vigora em Campo Grande nos últimos anos, notadamente piorada a partir de 2025, contou com a condescendência, para não usar expressão mais severa, dos “defensores” da população, os vereadores.
A bem da verdade, eles também podem ser – ou já estão sendo – chamados “defensores da prefeita”.
Tem mandatos cujos donos são os eleitores e eleitoras, e preferem chegar atrasado nas decisões que impactam a vida e os destinos do povo e da cidade.
O caso do IPTU é sintomático, assim como sintomática é a posição do vereador Rafael Tavares. Em outubro de 2024 foi eleito “defensor da população e da Capital”.
No ano de 2025, lamentavelmente, baixou a sua guarda e no correr frouxo a gestão municipal deita e rola, barbarizando em tudo, como faz agora no escândalo do “IPTU de ouro”.
Tavares faz cena com discurso espetaculoso na mídia e nas redes sociais para frisar que está em um processo que visa à derrubada do decreto do IPTU.
Agora, vereador? Os 29 “defensores do povo e da cidade” tiveram o ano inteiro de 2025 para, minimamente, garantir parâmetros civilizados na aplicação dos valores do IPTU.
A prefeita jamais poderia passar por cima do Legislativo como se fosse dona da cidade, dona das vontades, dona da lei. E ela o fez, graciosamente, sem ser incomodada.
Que sejam respeitadas as exceções, porque numa casa de representação plural e de personalidades diferentes há joio e há trigo no contexto político.
As belas palavras de Tavares proclamando compromisso total em defesa dos contribuintes soam como o canto da sereia: só os desavisados se deixam arrebatar. O perverso decreto do IPTU vai pesar na balança do Executivo e do Legislativo. A conta vai chegar.
Tomara que, para o bem da cidade e de quem paga imposto, as recentes ações da Câmara tenham êxito.
Seria uma vitória fora de tempo, mas uma vitória, uma “zebra” para premiar quem se atrasou durante um ano inteiro e só descobriu que podia ter feito mais e melhor quando a água bateu no pescoço.