Uma gestão se afunda num poço babilônico de desacertos
Formigas e cupins, assim como a maioria dos bichos que vivem em bandos, fazem do colaborativismo a lei sagrada de suas sobrevivências. Um pelo outro e vice-versa, assim carregam seus alimentos e constroem os seus abrigos. Dividem as tarefas e responsabilidades para que todos sejam um só, numa exemplar e estratégica disciplina de entendimento e coesão.
Enquanto os bichos-bichos, por inteligência instintiva, falam na mesma língua da disciplina pela união, tornando-se por isto mais fortes e capazes de suportar cargas que excedem o seu próprio peso, o bicho-homem faz o contrário. Por ser privilegiado pela acuidade cerebral, a tal da inteligência, poderia ou deveria poupar os instintos de necessidades estratégicas, limitando-se ao emocional. Só que não.
Tomemos por exemplo de contraponto entre o Homem, o racional, e os animais, os irracionais, a confusão oceânica em que se transformou a gestão pública de Campo Grande. Sem ir aos vãozinhos dos detalhes, é só conferir as ordens e contra-ordens que desbaratinam a execução das responsabilidades da titular do Executivo.
Se o exercício do poder partilhado entre sua dirigente máxima não funciona como deveria e é confuso, é porque falta liderança, autoridade. Liderar não é mandar, subjugar, sapecar o sistema de ordem unidade ou de “ordinário, marche”. Ter autoridade nada tem a ver com autoritarismo. Infelizmente, esses desvios estão aí há anos, adornando negativamente o quadro de ocupantes das altas esferas gerenciais e políticas que acham estar seguindo a prefeita.
Cada um fala a língua do interesse próprio. E das piores formas, acomodando-se no servilismo, pronto para bater palmas dia e noite à majestade e, com isso, criando um teatro real onde cada qual atira para o lado que lhe interessa – desde que seja para agradar a chefia. Não por acaso, a gestão campo-grandense enfraquece dia a dia, derrete-se num emaranhado de ausências e omissões, decisões equivocadas e grosseiros erros administrativos.
A prefeita, em suma, não conseguiu – ou não teve a competência – para fazer com que sua gestão tivesse uma linguagem única, traduzida e pronunciada por todos que a rodeiam, desde as escalas mais humildes do serviço público até aos mais elevados postos de mando e de mandatos. A confusão, portanto, tornou-se babilônica.
Qualquer cristão, ou até um ateu, conhece o mito bíblico da Torre de Babel, narrado no livro de Gênesis. Depois do dilúvio, a humanidade falava uma só língua e resolveu construir uma torre que chegasse ao céu. Deus não aceitou a deslavada ambição e fez com que os construtores da obra passassem a falar línguas diferentes, o que gerou uma enorme e autodestrutiva confusão.
Campo Grande não tem esta torre. Mas o poder administrativo e político da cidade é sustentado por gestores, subordinados e afins que tentaram alcançar os céus, cada um com seu próprio tijolo. Isto resultou num caos sem precedentes. E os construtores desta obra, cada um por si, seguem tentando alcançar o céu. De cabeça pra baixo.






