Qualquer habitante de Campo Grande – qualquer mesmo, até os menos informados – sabe que a sua prefeita pratica um dos maiores e mais imperdoáveis crimes de responsabilidade na gestão pública, que é a falta de transparência. Todos os governantes, sem exceção alguma, são obrigados a prestar as contas de sua gestão à sociedade.
Esta obrigação deve ser cumprida, segundo a lei, regularmente – e com os detalhes sobre o quanto e como arrecadam; quanto, como, com quê e com quem gastam; e para onde vai cada tostão que sai dos cofres públicos, assim como a documentação sobre os motivos de sua saída. Nada complicado, nem trabalhoso. Toda gestão tem pessoas pagas e setores técnicos estruturados e responsáveis para este exercício tão simples de contabilidade.
Campo Grande é diferente. É uma cidade em duas. Uma ao ar livre, transparente, onde as pessoas moram, estudam, trabalham, pagam os impostos e votam em seus representantes. Diante delas, há outra cidade, acobertada por blindagens nebulosas e indevassáveis. Em seu interior, uma minoria de privilegiados faz o que quer, desobrigada de prestar as contas de seus atos, muitos sob suspeição, apesar das exigências legais.
As blindagens nebulosas têm um alicerce oficial, erguido por um poder, o Legislativo. Este poder foi criado para fiscalizar os atos do Executivo. Campo Grande, porém, é a cidade em que a lei, ora, a lei, tornou-se apenas um detalhe, supérfluo. As provas disto são abundantes. Há poucos dias, meia dúzia de vereadores tentaram aprovar um projeto que descerraria os véus da “folha secreta”, criada por Adriane Lopes.
Segundo observou o blogueiro Bruno Ortiz Barbosa, a maioria ampla da Casa derrubou o projeto, atendendo a um apelo da gestora. A justificativa dos adrianistas para manter tudo como dantes foi dada pelo vereador Flávio Cabo Almi. Ele disse que o projeto continha um vício, pois seria parcial porque cobrava transparência nos gastos de apenas uma secretaria. Garantiu que apresentaria outro projeto, completo, abrangendo todas as pastas.
Seria cômico, não fosse trágico. Ou seria plausível, não fosse uma brincadeira de mau gosto. O vereador ignora que pessoas sabem ler, que as coisas têm registro. E foi pego de calças curtas. Bruno Ortiz mostrou pelo Instagram o teor do projeto “parcial” derrubado por Flávio e os seus. Nele se determina a divulgação obrigatória, pelo Portal da Transparência, de gastos detalhados com todos – todos! – os agentes públicos vinculados à administração direta.
O que mais queriam os fiéis edis de Adriane, além da vergonhosa e inútil tentativa de justificar o injustificável?