O dólar comercial começou o dia em forte alta após a decisão do presidente americano, Donald Trump, de taxar os produtos vendidos pelo Brasil aos Estados Unidos em 50% a partir de 1º de agosto.

O mercado hoje está antecipando os efeitos dessa medida, daí a disparada das cotações.
Às 12h13, a moeda norte-americana subia 1,01%, vendida a R$ 5,560. Nas primeiras duas horas de negócios, o dólar chegou a subir 2,08%, ou 12 centavos de real, para R$ 5,6183. O turismo, usado por quem viaja, também avança 1,19%, cotado a R$ 5,766.
Às 14h15 (Brasília) o Dólar comercial operava em alta de 0,68% a R$5,541 e ibovespa registrava queda de 0,52% com 136.768,31 pontos.
O aumento das tarifas comerciais nas exportações brasileiras para os EUA deve fazer essas vendas caírem. Assim, o volume de dólares entrando no país tende a diminuir e a cotação da moeda ante o real, a subir. Antecipando-se a essa provável alta, empresas que têm compromissos a saldar no exterior correm para comprar a moeda. Especuladores também estão aproveitando para comprando.
Embraer lidera quedas
Com os agentes financeiros avaliando os potenciais efeitos nas empresas brasileiras do tarifaço, às 12h01, o Ibovespa cedia 0,62%, a 136.629 pontos. Quase todos os ativos do Ibovespa recuam, as ações de siderúrgicas são as únicas que sobem, com destaque para a Gerdau, com quase 3%.
Segundo Marcelo Bolzan, planejador financeiro e sócio da The Hill Capital, empresas como a Gerdau e a JBS não devem ser prejudicadas pelo tarifaço por terem fábricas e plantas nos EUA, como busca Trump com as medidas.
As ações da Embraer (EMBR3) têm a maior queda do dia, com baixa de 7,33%, para R$ 72,48 por volta do meio-dia. A fabricante de aeronaves tem cerca de 60% do faturamento vindo dos Estados Unidos. A companhia produz no Brasil, mas também tem fábrica nos Estados Unidos. Mas o que pode realmente atenuar a crise das tarifas para a empresa é a clientela americana, que será afetada negativamente. “As companhias aéreas americanas seriam diretamente prejudicadas por tarifas sobre os jatos da empresa, o que tende a gerar pressão contrária a essa medida”, diz Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos.
Atualmente, a carteira de encomendas de aeronaves da companhia tem 383 aeronaves pedidas por empresas americanas. “São requerimentos que não podem ser simplesmente transferidos para Boeing ou Airbus, já que ambas americanas estão com linhas de produção tomadas até 2030. A Boeing tem mais de 5.600 pedidos não entregues e a Airbus mais de 8.600. O mercado é altamente concentrado. Por isso, considero a reação exagerada e entendo que o impacto real sobre a Embraer tende a ser limitado”.
A XP calcula que o lucro líquido da fabricante pode ter uma queda de 11% em 2026 por conta de um aumento de despesas gerado pelas tarifas. No primeiro semestre, as ações da companhia haviam subido 48,74%, depois de uma alta de 150,96%, em 2024.
O mercado consumidor americano é o maior do mundo e deixar de vender para o maior mercado consumidor do mundo é bem ruim. A expectativa é que a gente exporte menos. Consequentemente, o nosso PIB pode ser menor. E estamos falando de um reflexo imediato. Outra grande preocupação em um cenário como esse é em relação ao dólar, que vai sim subir. Isso pode ser traduzido em mais inflação, sem dúvidas. Juros futuros sobem também. E hoje certamente será um dia de bolsa para baixo.
Raízen (RAIZ4), por volta do meio-dia, era a segunda maior baixa do dia, com queda de 4,97%, atrás apenas de Embraer. A produtora de etanol diretamente afetada pelo tarifaço. A exportação de etanol para os Estados Unidos representa 17% do total vendido para o exterior pelo Brasil. “Esse aumento de tarifa traz uma situação bem delicada para o setor”, diz Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos.
Outra grande queda é a de Minerva (BEEF3), que perdia 4,2%, a R$ 5,25. Em comunicado à CVM (Comissão de Valores Mobiliários), o frigorífico relatou que o impacto potencial máximo das novas tarifas será “ao redor de 5% da receita líquida”. Cerca de 16% do volume vendido pela empresa vai para os EUA. “Como ela tem fábricas na Argentina, Paraguai, Uruguai e Austrália, ela pode atender os EUA por esses mercados, sem prejudicar seu volume, com poucos ajustes”, diz Gustavo Cruz, da RB Investimentos. O impacto nas ações, seguindo ele, tende a ser somente inicial. “Temos conversado bastante hoje com investidores estrangeiros e eles não estão ligando muito para esse tarifaço, uma vez que Donald Trump pode voltar atrás a qualquer momento”, diz o estrategista-chefe.
Na contramão, Vale (VALE3) subia 4,07% por volta das 11h, para R$ 56,24 – e era uma das mais negociadas no horário. Com peso de 10,80% no Ibovespa, ela segura a baixa do índice nesta quinta. Além de ser beneficiada pela alta do dólar, uma vez que é exportadora, a mineradora é favorecida hoje pela valorização do preço do ferro, em elevação pelo terceiro dia consecutivo nesta quinta-feira. O maior mercado consumidor da empresa não são os Estados Unidos, mas sim a China, onde o governo toma medidas de estímulo econômico, o que pode representar mais embarques do Brasil para lá.
Agenda doméstica
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou hoje que não acredita que a tarifa de 50% será mantida. Segundo o titular da pasta em entrevista a mídias independentes, o Itamaraty deve conduzir negociações para reverter a medida. O mercado também espera um acordo antes do novo prazo final de 1º de agosto.
De acordo com nossos cálculos, as tarifas já anunciadas e nossa expectativa para as próximas tarifas setoriais levarão a um aumento da tarifa de importação efetiva dos EUA sobre as exportações do Brasil de 35,5 pontos percentuais, potencialmente reduzindo o PIB do Brasil em 0,3 a 0,4 pontos (dos quais 0,1 ponto já fazia parte de nossa linha de base) sem grandes retaliações. Não está claro se, como e quando o Brasil retaliaria. A inclinação política pode ser nesse sentido, mas prevemos que os exportadores locais irão pressionar o governo para reduzir a tensão
Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica do Goldman Sachs.
O mercado também repercute o IPCA de junho.A inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo fechou junho com alta de 0,24%, ante uma elevação de 0,26% em maio, informou hoje o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Apesar da desaceleração, o IPCA ficou ligeiramente acima do projetado pelos analistas, que previam 0,23%. Mesmo com a desaceleração, na análise de Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval, “isto não altera o quadro de inflação que ainda segue adverso. Nossa expectativa é que a taxa de inflação encerre o ano em 5,1%. Além disso, o Banco Central deve manter a Selic em 15% até fim deste ano”.
Com informações do Portal UOL Economia






