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Campo Grande, 24 de agosto de 2026
editorial

Carnificina anunciada

  • Geraldo Silva
  • junho 11, 2025
  • 10:02 am
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A consciência precisa operar em favor da vida, em todas as suas formas

Já lá se foram pelas veredas do tempo os dias em que não havia contradição quando se classificava como selvagens algumas das espécies mais arredias da fauna brasileira. Era uma realidade indiscutível, pois naquelas épocas, para homens e animais, a selva era a selva e a cidade era a cidade. Os ambientes e seus moradores não se confundiam, cada um com suas configurações e localizações específicas.

Infelizmente, os tempos mudaram. A selva deixou de ser um ermo para o Homem e a cidade uma praça inabitável para os bichos. O grande exemplo desta situação atípica, a causar profunda tristeza, é a presença a cada dia mais comum de animais selvagens nas áreas urbanas, sobretudo as onças. A notícia sobre algo que ontem seria raridade agora é das mais corriqueiras.

Onças estão sendo vistas passeando pelas ruas, calçadas e quintais das cidades. Não é, porém, um simples passeio. É a luta, a resistência de espécies ameaçadas de extinção. O sentido de sobrevivência aguça o seu instinto. A fome que a maltrata e desespera é potencializada pela carência de seu estômago e do estômago de suas crias.

E todos eles, criadores e criaturas, são empurrados de seus habitats tradicionais de forma violenta, inescrupulosa e implacável pelas mãos humanas. Humanas? Onde está humanidade nos atos de quem incendeia e desmata a floresta movido pela insaciedade do lucro? Cadê humanidade na sanha “esportiva” de quem caça, mata, desmata e depreda em busca de troféus ou de meios para atender a desmedida ambição?

No Pantanal, o bioma que possui uma das maiores populações de onças de todo o planeta, em 2020 os incêndios afetaram 79% da área habitada por esta espécie de felino e impactaram a saúde de 45% de seus cerca de cinco mil indivíduos. Ao mesmo tempo, na pesca e na caça a ação predatória dos homens e empresas sem consciência ambiental ataca destrutivamente os rios e mananciais, desfigurando os territórios em que a cadeia alimentar da fauna tem suas próprias e milenares regras.

A devastação desses habitats naturais força predadores a migrarem para áreas onde há gado, animais domésticos e seres humanos. Trata-se de um efeito compulsório: se escasseou a fartura e não tem mais o que comer onde habita, o predador vai instintivamente à procura de comida. É tal qual o ser humano: sem se alimentar, não vive. Nem sobrevive.

Um estudo publicado pelo Journal for Nature Conservation revela que as onças-pintadas têm frequentado cada vez mais as áreas ocupadas pelos seres humanos. A pesquisa, que utilizou dados de GPS de mais de cem onças nas Américas, demonstra que esses felinos estão se adaptando a ambientes urbanos e periurbanos. Assim, para eles, as cidades estão se transformando em extensões da selva.

Que as autoridades – e, principalmente, a sociedade civil – se deem conta da gravidade deste grave desafio. Sustentabilidade não é ajustar o ambiente ao homem, mas o homem ao ambiente em que vive. Longe ou perto da selva, a consciência precisa operar em favor da vida, em todas as suas formas.

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