Ontem, segunda-feira, 21 de abril, o mundo perdeu um de seus mais iluminados mensageiros da paz, do amor e da verdade. O papa Francisco, sem favor algum, entrou para a história dando exemplos constantes e dos mais vigorosos sobre a importância de sentimentos e de valores humanos como o amor, a verdade e a integridade da fé.
Para dar estes exemplos poderia ser o Papa, um católico, assim como poderiam ser um evangélico, um espírita, um pai-de-santo, um muçulmano e até um ateu. Amor e verdade são umbilicais, um nutrindo o outro. E os cristãos verdadeiros, que professam a fé e não a mercadejam, sabem deste ensinamento, e praticando-o, não mentem, não falseiam, não enganam.
Diante desta impositiva realidade, não há como ignorar ou minimizar o que acontece em Campo Grande no que se refere à perigosa junção entre política e fé religiosa, uma situação de extrema importância porque mexe com a consciência e o imaginário da população. Nas recentes eleições, foi escancarada a exploração política e eleitoral da fé, especialmente pelo uso de instituição sagrada, a igreja, para “converter” os crentes no Deus Pai Criador em eleitores de cabresto.
Seduzidos em sua boa fé, convencidos pela influência de seus líderes de pastoreio evangelizador, milhares de fiéis aceitaram entrar em uma espécie de brete espiritual para turbinar ambições políticas e eleitorais.
Na verdade, a multidão que atendeu este apelo político fantasiado de promessas miraculosas foi engabelado por uma parcela de influencers de suas congregações, pregadores da Palavra que, mansa e lucrativamente, aboletaram-se em altos cargos do poder público municipal. A imprensa já divulgou nomes, lotações, remunerações e o que mais consta desta prática manjada de clientelismo às custas do dinheiro do contribuinte.
Esta Folha não generaliza as responsabilidades, por entender que a esmagadora maioria dos evangélicos – muito mais que 99% do total de fiéis na cidade – é formada por gente decente, que crê na Palavra e faz o que a palavra determina. Mas é uma crença que se estende também ao dogma da obediência espartana ao comando dos pastores e pastoras, o que valorizou ainda mais o “passe” dos sortudos que se alojaram nos redutos da administração campo-grandense.
A mentira, contudo, não pode e não vai imperar. A verdade, dizia o Papa Francisco, é um modo de manifestar o amor. Então já é hora de aferir se é verdadeiro, ou não passa de engabelação o amor ao próximo tão proclamado e declamado, pelos tradutores da fé na guerra das urnas. Esse tipo de farra tem nada a ver com a fé, nem com religião e muito menos com Deus.

